Relacionamentos a dois são maratonas, não corridas de 100m

Sobre rotina, espontaneidade e dia a dia.

Todos os dias pela manhã, no caminho para o trabalho, eu e o "namorido" nos despedimos na mesma esquina. Ele caminha um quarteirão até o metrô, eu atravesso dois até o escritório.

Pausa para a problematização.

Photo by Jari Hytönen on Unsplash

Já repararam como somos quase programados para ver um aspecto negativo em tudo que, por um acaso, possa, um dia, assemelhar-se a uma rotina? Rejeitamos a rotina como algo que nos limita, nos impede de experimentar o novo, que nos sufoca. Se a gente vai sempre num mesmo restaurante, não temos criatividade. Se trabalha há muitos anos no mesmo lugar, estamos acomodados. Se está num relacionamento longo…

Ah, os relacionamentos! Taí um outro nível de problemas com a rotina. O que a gente valoriza mesmo é a paixão: a bochecha ficando vermelha de falar com o crush, a ansiedade de saber se o lance de vocês vai além do que já rolou, o coração batendo acelerado, a cabeça que só pensa na mesma coisa o dia inteiro.

Realmente, apaixonar-se é uma delícia. Mas, dizem os especialistas, que ela tem prazo de validade: algo ao redor de 2 anos. Pessoalmente, acho que essa é uma estratégia pra lá de inteligente do nosso corpo pra evitar que a gente entre em colapso! É uma fase boa justamente porque dura pouco. Já pensou? Todos os dias da sua vida na ansiedade, sem saber se vai ver a pessoa amada novamente? Acordar e dormir se perguntando se pode contar com ela em um encontro de amigos ou planejar as próximas férias em casal. Ou o mais chato de tudo: ficar medindo as palavras por falta de intimidade. O imprevisível nem sempre é tão divertido.

Romanticamente falando, encaramos a rotina como a irmã chata da paixão. Entendemos que ela é a responsável por uma vida sem surpresas, sem momentos especiais, sem nada que faça o coração bater mais forte. Queremos narrar o nosso relacionamento como uma novela: picos de audiência, grandes revelações. Esquecemos de dar valor ao dia a dia.

De fato, a rotina presume ordem. Você sabe mais ou menos quando pode contar em estar com o outro, sabe mais ou menos o que esperar do seu companheiro, sabe quais regras se aplicam ao relacionamento de vocês, sabe mais ou menos o que esperar do futuro. Mas o que não vemos é que ela NÃO impede a espontaneidade.

Se vocês cozinham juntos todos os dias à noite, que tal inovar na receita? Que tal comprar um vinho para acompanhar? Que tal ligar pro mozão antes de chegar em casa e falar pra ele se arrumar que hoje o jantar vai ser fora e por sua conta? O cotidiano também pode ser gostoso, basta um mínimo de esforço.

Todo relacionamento — que dura — exige dedicação. Nesse sentido, ele se assemelha muito mais a uma maratona do que a uma prova de 100m rasos. O foco não está na linha de chegada, mas no agora, no quilômetro que passa, em se manter forte e equilibrado, para si e para o outro.

O amor, o longo prazo, não é como a paixão: ele não é tão bom de publicidade. Ele se esconde nos pequenos gestos. É o guarda-chuva que você põe na mochila dele porque vai chover e ele sempre esquece. É comprar aquela marca de pão de queijo que ela gosta. É deixar um bilhetinho na geladeira para a pessoa amada não esquecer o lanche da tarde de trabalho. É a mensagem no meio do dia só pra dizer que se lembrou dela. São esses pequenos gestos que transformam a rotina em uma narrativa de felicidade.

Frequentemente colocamos a culpa na rotina pelo fim de um casal. Tamanha covardia! Além da estabilidade e da segurança, se bem dosada e aproveitada, ela pode ser uma coleção de bons momentos. O que acaba com um relacionamento não é a rotina, é a falta de carinho. É se acomodar e deixar as demonstrações de afeto sumirem. É ver no outro algo garantido e deixar de mostrar todos os dias que você se importa. Relacionamentos a dois são uma escolha diária de estar com o outro.

Voltando ao início do texto, eu e o namorido repetimos sempre o mesmo ritual: trocamos um beijo, um abraço e seguimos para os nossos caminhos. É através desse gesto (entre outros) que dizemos um ao outro diariamente que nos amamos, que apreciamos um ao outro e que nos vemos mais tarde. Pode parecer repetitivo, mas se você me perguntar, eu não gostaria que fosse de qualquer outro jeito.

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