O que o surf ensina sobre os nosso fracassos

Raphael Valenti
Aug 23 · 3 min read
Foto por Pixabay do Pexels

Eu ainda não sei surfar. E nem sei se um dia vou aprender. Meu equilíbrio parece não concordar com a minha vontade. Mas foi em Gold Coast, na Austrália, conversando com um surfista amador, que percebi que o surf pode ensinar muita coisa sobre a vida. Principalmente sobre fracassos.

Não lembro o nome do surfista. Deveria ser algo bem australiano, como Jack ou Thomas. Mas lembro do que ele disse. Que a gente deveria encarar as quedas da vida do mesmo jeito que os surfistas encaram as quedas das ondas. Eu sei, parece papo de surfista maconheiro — talvez a gente até tivesse fumando algo, sem comentários — mas não é.

Pensa comigo. Imagina que as ondas são uma das várias coisas que podem acontecer com a gente. Coisas que — assim como essas ondas — vão passando e a gente se prepara pra conseguir subir nelas.

E nessas horas, a gente quer pegar todas as ondas. Todas, porque a gente quer ser foda. Ter o melhor trabalho do mundo, o melhor salário. O melhor relacionamento, os melhores amigos, as melhores noites na balada. Tudo tem que ser “o melhor”. Não há espaço para fracassos, decepções e dias ruins.

Só que é impossível pegar todas as ondas e mais impossível ainda — se é que existe o “mais impossível” — acertar todas que pegamos. Coisas ruins vão acontecer e você vai cair da onda. É inevitável. A onda parecia tão boa e de repente, a gente cai. E é aqui que vem, na minha opinião, o que surf e o Jack/Thomas me ensinaram sobre fracassos e quedas. Quando algo dava errado na minha vida e eu caia da “onda” — fim de namoro, trabalho ruim, briga com amigos, enfim, coisas da vida — eu ficava preso dentro dela, girando, girando. Eu reclamava de tudo, dizia pra quem queria ouvir que a vida é injusta, que nada dá certo e blá, blá, blá.

Mas o que o Jack/Thomas me disse, foi que quando você cai de uma onda, você deve esperar. Não adianta lutar contra ela. O desespero só faz você gastar energia e continuar preso lá dentro. Ou seja, gastar energia com as coisas erradas — pessimismo, reclamação, etc — só dá o resultado, quem diria, errado.

O segredo, ele me disse, é esperar que a onda passe. E depois que ela passa, você pode subir pra superfície e respirar de novo. Na vida, é exatamente a mesma coisa. A gente deveria abraçar os problemas mas sem deixar eles nos consumirem e nos afogarem. Sim, é totalmente justo e aceitável ficar triste, chorar e até ficar em casa por um tempo. A gente pode cair, só não pode ficar embaixo do mar.

É a versão surfista daquele velho ditado tem muito peixe no mar. Mas aqui é tem muita onda no mar.

É normal as coisas darem errado. Faz parte. Quando a gente tem sorte, as ondas boas duram mais que as ruins. Às vezes, são as ondas ruins que duram mais. O que elas têm em comum? Ambas passam. E tem centenas, milhares de outras ondas vindo na nossa direção. Novo emprego, novo namoro, novos amigos. Uma viagem, uma casa nova. Um reencontro. A gente não tem controle sobre alguns do problemas da nossa vida, mas temos sim controle sobre como encaramos esses problemas quando eles acontecem.

Por isso, a gente tem que aproveitar quando se está em cima da onda, porque ela vai passar. Do mesmo jeito, vale a gente não se desesperar quando se está preso dentro dos próprios problemas porque eles também passam. E quando eles passam, a gente pode nadar pra superfície, respirar de novo, ver o sol e se preparar para próxima onda.

Porque ela tá vindo.

E vai ser foda.

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Raphael Valenti

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pé frio, coração quente @naoevoce_soueu

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