RELEIA

A gente acostuma.

Acostuma e repete.

Acostuma, repete e o tempo vai passando.

E de tanto repetir e repetir e repetir, ecoando tanto o pensamento, o sentimento e o gesto, que nem percebe mais o tempo passando. Nem se percebe mais repetindo. E, quando vai ver, pronto. Acostumado está.

A gente acostuma até com coisas que nunca imaginou que fossem acostumáveis, por assim dizer. Baixar torrent, por exemplo. Olha que coisa mais troncha que é baixar torrent em 2015. Mas, né? Mané. Manézada que a gente faz na vida, tipo botar acento agudo em tudo, de forma crónica.

A gente clica no link pra baixar o torrent e aí abre aquele site lazarento, todo cagado à la anos 10 I.T. (ano dez, Internet Time), com anúncios e gifs e botões e banners e e-ciladas e caça-coisas que deixam você basicamente tonto.

Mas um dia, de tanto tentar acontece aquilo que é estatisticamente inevitável: você consegue. E como consegue, vai para o lugar certo, digita o captcha bonitinho, espera só mais uns segundinhos para os nossos comerciais e voilà: o link correto para baixar o que você queria.

É lindo de ver dar certo. Sensação de atravessar a praia a nado, a piscina toda sem respirar, encostar a língua no nariz, virar a panqueca, acertar a bolinha de papel no cesto de lixo, aqueles momentos épicuzinhos (avisei sobre agudos crônicos, não? então)do nosso cotidiano.

Esse júbilo prazeroso é bom demais. E o cérebro quer repetir para sempre esse high. Assim, da próxima vez que você vai baixar um torrent, você já vai procurar aquele mesmo site. Pra repetir o processo dos botões, das esperas, dos links corretos até baixar o arquivo.

E assim é com tudo. A gente repete, o tempo passa, a gente acostuma. E um costume muuuuuito esticado como passadeira no corredor da vida vira um vício.

O vício é a repetição que já se autorrepete no automático. Um disco de vinil que se repete sozinho e já nem aceita mais sua mão no comando pra trocá-lo. Você vai mexer no vício pra mudar e ele já ‘HUNH, HUNH’. no,no. Vai continuar tocando esse disco e esse mesmo lado.

A vida é um enigma finito que exige um tempo infinito para ser decifrada.

Lide com isso.

@rosana