Requisitos para ser uma pessoa normal

Embora este texto seja sobre esse filme, ele não é sobre o filme.

Em algum momento na história do mundo que não é possível precisar, foram surgindo os padrões de comportamento — a filosofia, a história das famílias e da ascensão da Igreja Católica fornecem boas pistas sobre isso. Pessoas e instituições poderosas começaram a ditar as regras de conduta, que eram motivadas geralmente por questões patrimoniais (já que o dinheiro desde muito cedo comanda), e os demais passaram a seguir essas regras. Pode parecer que foi tudo muito simples, mas por óbvio não foi. Muita gente sofreu e ainda sofre nesse processo de “enquadramento” social.

E assim, aos poucos e respeitando-se as peculiaridades e distâncias geográficas, foram sendo estipuladas condutas – que vão desde o rudimentar uso de talheres para a alimentação, por exemplo, passando pela invenção do casamento nos moldes tradicionais, pela organização das famílias, da política e pela forma como as carteiras são dispostas numa sala de aula.

Tudo foi sendo definido pouco a pouco e assimilado de tal forma pelos nosso antepassados que, hoje em dia, a gente ainda reproduz grande parte dessas coisas com pouca adaptação e sem ter a menor ideia do por quê está fazendo. Perdemos a consciência. Seguimos o fluxo.

E assim, inconscientes e pouco reflexivos, fomos século a século tentando enfiar numa pequena caixa quadrada uma infinidade de tipos humanos. E se nenhum de nós é fisicamente idêntico, que dirá na essência. Cada ser humano encerra em si mesmo um universo em busca de expansão. Precisamos de espaço!

Mas fomos ensinados que expandir não é certo. Fomos ensinados a nos moldar para caber nessa pequena caixinha das expectativas sociais e sermos aceitos. Sermos “normais”. No filme espanhol que dá nome a este texto, a protagonista faz uma lista daquilo que é preciso para ser uma pessoa normal. Os pré-requisitos são singelos e ela não cumpre nenhum: ter um bom emprego/profissão, uma metade da laranja, uma casa, vida social agitada, vida familiar bem resolvida, hobbies, ser feliz. Até parece simples pontuando assim, não é mesmo?

Acontece que a vida não é uma fórmula matemática. Nem todo mundo é igual e deseja as mesmas coisas e leva jeito para as mesmas coisas e fica feliz com as mesmas coisas. Não há uma fórmula genuína. Há pistas e imposições.

Além disso, ao mesmo tempo em que a sociedade clama por gente “normal”, encoraja as pessoas normais a se destacarem. Em outras palavras, é preciso ser alguém que, além de caber na caixinha quadrada das expectativas, também se destaque dentro dela. Um paradoxo.

Acontece que cada vez mais somos menos “normais”. A geração y, millennials, índigos ou seja lá o nome que você prefira dar aos nascidos dos anos 1980 pra cá, não tem muita gente “normal”. Somos a geração dos fios desencapados. Dos pontos fora da curva. Dos esquisitos. Dos deslocados. Dos questionadores. Daqueles que querem mudar o mundo e não conseguem ainda mudar a si mesmos. Somos a geração daqueles que não sabem o que fazer da vida. Da internet, do mochilão, dos hostels, das moradias compartilhadas com 11 pessoas. A geração que acordou para causas adormecidas, que sente muito e sofre muito — pelas pessoas, pelos bichos. Somos a geração que berra diante de injustiças, que compra briga, que se indispõe com a família quando ela não aceita que o mundo está mudando. E somos em muitos.

Até tentamos nos adaptar e caber na caixa das expectativas. Muitos crescemos tendo como meta de vida caber nessa caixa, inclusive. Alguns até couberam nela certinho e de lá de dentro seguem suas existências. Desses, muitos vivem felizes, obrigada! Outros tantos seguem se arrastando e/ou à base de remédios psiquiátricos.

Fato é que tentamos nos adaptar ao antigo mundo e às antigas fórmulas de felicidade e por muito tempo da nossa vida alimentamos sonhos que não eram exatamente nossos.

Fomos parar na terapia, nos faixa-preta, voltamos para a casa dos pais, fugimos de relacionamentos abusivos, precisamos respirar. Tinha algo de muito errado conosco. Trocamos de país, largamos tudo e viramos nômades, sem teto, sem trabalho. Ficamos sem perspectiva. Começamos a criar novas perspectivas. As profissões maravilhosas e tradicionais que nos foram vendidas como a solução dos nossos problemas não eram tão maravilhosas assim, no fim das contas, e nos criaram muitos problemas. Eram quadradas como a caixa e nós não cabemos dentro dela.

Fomos chamados de geração de mimados, geração de estragados, geração de ativistas de redes sociais. Quando na verdade só queríamos saber os porquês, retomar a consciência, entender por que raios temos tantas fórmulas a seguir se elas não nos trazem felicidade, se elas são insanas ao nosso olhar. Fomos pintar muros, pintar quadros, pintar roupas sem saber o que fazer com isso.

E a duras penas descobrimos que não é mais possível ser “normal”. Que nunca foi. E, mais que isso, descobrimos que não queremos ser normais. Ser normal suga nossa energia, nossa alegria, nos limita. Ser normal não é um sonho que é nosso, não é um anseio da nossa alma. Ser normal é seguir uma lista-padrão de pré-requisitos para a felicidade mesmo sabendo que a conta não fecha.

A nossa alma quer ser feliz, expandir, não quer ser normal. Queremos outro mundo, sem caixas quadradas de comportamento.

Não nos siga, ainda estamos perdidos. Mas já entendemos que não somos “normais”. E que também não somos especiais. Somos tão somente únicos em nossa individualidade. Não preenchemos requisitos. Como diz Osho, “não existem duas coisas idênticas, por isso não há necessidade de ser ‘alguém’. Seja simplesmente você mesmo e de repente você se torna único, incomparável.”

E, a partir disso, seguimos tentando.