Resenha: Rua Cloverfield, 10

No início de janeiro, a Paramount Pictures soltou um trailer de um filme que havia sido filmado em segredo pela Bad Robot, produtora de J.J. Abrams. Três pessoas parecem conviver bem até a metade do trailer, quando a situação muda e a tensão toma conta do lugar com a impressão de que eles estão numa espécie de bunker, e que não há condições de sair de lá. No fim, o título “10 Cloverfield Lane”.

O buzz foi total e muitos se perguntaram se aquela seria a continuação de “Cloverfield — Monstro”, filme de 2008 também produzido por J.J Abrams, que contava a história de um ataque de monstro todo filmado em found-footage. O próprio, inclusive, disse que era um parente de sangue.

A verdade é que J.J. Abrams, ao ver o roteiro intitulado de “The Cellar”, acreditou que o filme obteria mais sucesso se levasse uma marca. E como o nome de “Cloverfield” nunca deixou de estar nos planos da Bad Robot, ele decidiu que este seria o nome do filme. Afinal, se fosse apenas mais um independente, ele poderia encontrar dificuldades de entrar em circuito. Já com um título de peso, a situação muda. Por isso, o filme estreou no Brasil na última quinta-feira (07) e a primeira coisa que o público deve saber é uma coisa: Não tem nada a ver, mas é tão bom quanto.

“Rua Cloverfield, 10” se passa praticamente dentro do tal bunker. Michelle (Mary Elizabeth Winstead), após um acidente de carro, acorda num porão de um desconhecido. O tal homem (John Goodman) diz ter salvo sua vida de um ataque químico que deixou o mundo inabitável, motivo pelo qual eles devem permanecer protegidos no local junto. Sem saber bem se deve acreditar, ela busca um modo de escapar, mesmo sem saber o que lhe espera lá fora.

Esqueça a tensão de haver um monstro à solta e dê lugar ao terror psicológico, claustrofóbico, onde o próprio medo é uma ameaça. Assim como também esqueça o found footage e uma cidade com milhares de pessoas em perigo. Neste, há quatro elementos: Três pessoas e um ambiente apenas.

O diretor estreante, Dan Trachtenberg é o grande responsável por fazer tudo isso acontecer. Isso porque ele entendeu o conceito do filme e tentou tirar o máximo do roteiro escrito por Josh Campbell e Damien Chazelle. O bunker, por exemplo, é uma mistura de mistério e aconchego. Lembrando que o ponto de vista é sempre o de Michelle, conforme as informações vão chegando, ela se vê cada vez mais parte daquilo. Por pior que seja, ali acaba se tornado um lar a até mesmo o espectador se vê ali dentro. Por um bom tempo, a mesma dúvida da protagonista é a mesma do espectador. Será que é isso mesmo? Será que tão sacaneando ela? Há uma certa semelhança desse ponto em relação ao “O Quarto de Jack”, onde todo o ambiente vira uma espécie de coadjuvante.

Além disso, o filme se mantém com um mistério até o fim do segundo ato. Tudo nele é tensão e suspense, principalmente entre os três personagens centrais. A câmera estática quando eles estão juntos em cena funciona muito bem e a relação entre eles é o grande trunfo. Há uma certa hierarquia a ser respeitada, mas existe a ideia de que ainda parece ser um sequestro.

Claro, as atuações são fantásticas, principalmente de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead. Enquanto um usa toda a sua força e tamanho para se impor perante às câmeras (e o personagem exige isso), a outra é sutil mas ao mesmo tempo forte o suficiente para tomar suas próprias decisões. O trabalho de Goodman é profundo, daqueles que possuem diversas camadas e um ar misterioso. Se analisar friamente, há um certo desconcerto psicológico por conta de todas as suas ideias de conspiração.

Winstead por sua vez é quem complementa a narrativa com uma Michelle inteligente e decidida. Não há espaço para clichês femininos e tanto a atriz, quanto a personagem se mostram fortes. A atuação é tão boa que só com seus olhares dá pra mergulhar em sua mente para entender o incômodo e o questionamento dela em estar ali. A direção de atores de Trachtenberg impressiona.

O terceiro personagem, Emmett, interpretado por Joh Gallagher Jr. é o menos interessante de toda a trama, mas isso não significa que ele não é importante. Emmett é o grande equilíbrio dos dois personagens principais, é nele que está toda a intermediação de diálogo e acontecimentos.

No entanto, nem tudo são flores. O longa conta demais com as trilhas de tensão e isso as vezes acaba se tornando repetitivo e desnecessário. Ela já existe, com ou sem música, em alguns momentos pode funcionar (e como funcionam), mas outros não é necessário até mesmo por conta das ótimas atuações.

Outro ponto que poderia prejudicar o filme é seu desfecho. Um pouco surreal, que destoa um pouco da proposta e do que foi toda sua narrativa. Não é o pior final do mundo, mas há uma certa preguiça em terminar de maneira inteligente. Ainda assim, lembra um pouco o conceito de “O Nevoeiro”, de Stephen King.

No fim, um último ponto positivo é que Trachtenberg deixa diversas pontas soltas, o que faz aumentar ainda mais a imaginação do público. Em tempos aos quais as séries de TV prevalecem, ousar em não explicar tudo é mais um grande ponto para o filme. O choro é livre.

Com um terror psicológico sufocante e atuações fantásticas provenientes de uma boa direção, “Rua Cloverfield, 10” é, sem dúvidas, o filme mais tenso e ousado do ano até o momento e será difícil ultrapassá-lo. O espectador sai do cinema sem ar e extasiado. Na geração das franquias, J.J. Abrams prova, com “Cloverfield”, que nem todas elas são enlatadas e robotizadas. Ainda que esteja prestando serviços às grandes empresas de Hollywood, é fato que ele está no caminho certo de ser um dos melhores e mais versáteis cineastas da atualidade. Nos próximos anos, o que ele tocar será ouro.

De 1 a 5, minha nota para o filme!
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