#RespeitaAsMinas

Fonte: Corinthians TV

Alguns anos atrás eu tive a experiência de ajudar uma amiga, hoje jornalista, com o TCC da faculdade em que ela contava, justamente, a história de mulheres no mundo do futebol. Esse trabalho, o livro intitulado de “O futebol também é delas”, serviu muito para ajudar com que eu enxergasse algumas coisas. Não, eu nunca pensei que ser mulher fosse uma coisa fácil, afinal de contas, na minha família, elas foram — e são cada vez mais — maioria. Eu admito, porém, que pensava que elas realmente fossem mais respeitadas.

Respeito. Essa palavra é pequena e, acreditem ou não, é fácil demais de se colocar em prática. Ela costuma vir por educação, desde pequeno. Só que se não vier assim, eu ainda acredito que ela seja fácil de se compreender e de trabalhar com ela conforme a idade chega. Como eu disse, por ser cercado por mulheres desde infância, seja pela família ou pelas diversas professoras que passaram pela minha vida, eu aprendi a respeita-las, aprendi a conversar e com isso, aprendi a enxergar algumas coisas pelo ponto de vista delas. A maior e mais importante descoberta com isso foi a de que nós não vivemos em um mundo fácil. E se você for mulher, sabe que vai, infelizmente, ter de trabalhar o dobro, o triplo, pra ser valorizada como realmente deve.

Voltando ao TCC da Daniela, amiga que comentei anteriormente, ele me fez revisar algumas ideias por por entrar em um mundo em que eu, também desde criança, sempre fui envolvido: o mundo do futebol.

“Dentro do futebol, somos iguais. Não importa se temos cores diferentes, classes sociais diferentes, sexos diferentes. Dentro do futebol somos um. Somos milhares. Somos homens. Somos mulheres. Somos humanos. Somos torcedores.
E não é fácil ser torcedor. Não é fácil ser jornalista e torcedor. Não é fácil ser nutricionista e torcedor. Não é fácil ser jogador e ser torcedor. E é ainda mais difícil quando não se é um amante do futebol, mas sim UMA amante do futebol”

Esse foi o trecho que eu escrevi como prefácio do livro que ajudou a enxergar um pouco mais sobre a realidade das mulheres com o esporte. O trabalho da Daniela juntou histórias de mulheres em diversos graus de envolvimento com o futebol. Existem histórias de torcedoras, nutricionistas, jogadoras, jornalistas e, como é possível de se imaginar, todas elas tem um ponto em comum: a luta. A luta por espaço, por reconhecimento, por igualdade, por… Respeito.

Eu sou privilegiado. Falo isso por muitos fatores sociais, mas trato como privilégio também ser torcedor de um dos maiores clubes do país e que, em sua história, tem capítulos fortes de representação social. É o clube que, logo em seu nascimento, pelas palavras do então presidente, seria o time do povo. É o clube que, em meio a Ditadura Militar, teve coragem de bater no peito e falar em Democracia.

As raízes do clube estão no povo. Essas raízes, como jamais poderiam deixar de ser, abraçam também as mulheres. Recentemente a voz delas passou a ser ainda mais ouvida. As camisas de jogo, antes tão complicadas de se encontrar nos modelos femininos, agora estão nas vitrines. O time de futebol feminino passou a fazer parte da rotina do clube ganhando cada vez mais destaque. As torcedoras ganharam mais espaço. Uma campanha, a “Respeita as minas!”, foi lançada na luta contra a violência e o assédio que elas sofrem diariamente. Eram passos pequenos em direção a uma realidade que já deveria ser presente.

No dia 7 de Agosto, um marco na sociedade brasileira completou mais um ano: a lei Maria da Penha. Ela completou doze anos em uma semana onde casos brutais de feminicídio ganharam destaque nos jornais. O Corinthians, então, manifestou-se mais uma vez. Disse que a realidade ainda é de muita violência, tanto física quanto psicológica com as mulheres. Eles pediram para que os abusos não fossem silenciados e sim denunciados através do número 180. Eles usaram #NenhumaAMenos.

Eu aplaudi.

É preciso sim se posicionar.

É preciso sim escancarar o abuso e a violência.

É preciso sim lutar pela igualdade.

E na mesma medida em que fiquei feliz pelo clube ter cada vez mais esse posicionamento, eu admito uma enorme decepção quando foi anunciada a contratação de um jogador que é acusado justamente de agressão, injúria e ameaça de morte pela ex-namorada.

A falta de sentido me incomoda. Me incomodou tanto que não deu pra ficar calado.

Não dá pra lutar tanto por algo e ainda sim abraçar alguém que é justamente o adversário dessa luta.

Como eu disse antes, algumas vezes, a pessoa pode não ter aprendido a ter respeito desde a infância e a vida acaba tendo o fundamental papel de ensinar. Eu espero que o Corinthians, clube que eu amo, torço e defenderei as cores até o final dos meus dias, recue na decisão de assinar com esse jogador. Espero ainda mais: justiça pela ex-namorada dele.

Espero também, que ele, com tudo o que aconteceu, abra seus olhos para o que fez de errado, mas que tenha a punição devida. Que aprenda a respeitar quem o cerca. Que aprenda a respeitar o próximo. Que aprenda a respeitar as minas. Elas merecem.

Observação: O Corinthians, na noite do dia 9, liberou uma nota anunciando que a contratação do jogador Juninho foi devidamente cancelada após a manifestação dos torcedores.
Like what you read? Give Nickolas Ranullo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.