Respirar o amor, aspirando liberdade…

sau.da.de
substantivo feminino
1. sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas.

Quanto tempo tenho para matar essa saudade?, canta Daniela Mercury em Nobre Vagabundo, canção do meados dos anos 90 que curiosamente começa a fazer um sentido diferente no fim dos anos 2010. É como se a letra ganhasse uma força completamente desconhecida até pouco tempo atrás. Talvez esse compartimento secreto esteja nos meus anos de idade e não nos versos que ouvi no repeat.

Antes desse texto, eu acordei de um sonho muito real com minha mãe. O segundo dela com saúde desde que ela foi embora, há pouco mais de 6 meses. Um sonho com cheiro, toque, aroma e talvez a característica mais traiçoeira de todas: uma memória póstuma, um sonho de depois daquele dia que vi ela pela última vez, como se nesse espaço, a vida continuasse seguindo como era antes. E só por essa ultima característica, eu levantei com esse trecho da Daniela na minha cabeça.

Não queria sair do sonho, não queria abandonar aquele cheiro, não queria entender a fragilidade do toque que parecia tão real, nem perder a riqueza do que ela me dizia nessa experiência diferente de sentir saudade de uma lembrança nova. Queria respirar o amor que finalmente deixava de doer de saudade e aspirar a liberdade que era vê-la finalmente saudável e participante de um momento que nenhum de nós ainda havia vivido.

Só que eu acordei.

Para o Wikipedia, saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular nacional. “Saudade” descreve a mistura dos sentimentos de perda, falta, distância e amor. A palavra vem do latim “solitatem” (solidão), passando pelo galego-português “soidade”, que deu origem às formas arcaicas “soidade” e “soudade”, que sob influência de “saúde” e “saudar” deram origem à palavra atual.

Para mim, saudade é mais visceral que um verso de uma música que eu redescobri ou uma poesia que pode virar uma legenda num post as quintas no instagram. Minha saudade queima os olhos quando acordo depois de um sonho, transborda no frio incomum que sinto quando o abraço desiste de me envolver, embrulha o estômago quando o cheiro familiar da realidade invade sem pedir licença para mostrar que tudo não passou disso: um sonho.

E se a saudade tiver mais a ver com quem a gente era em determinada situação e como a gente se sentia do que com o fato acontecido? 
Ela continuaria saudade.
E continuaria doendo.

Provavelmente há inúmeras explicações sensatas, racionais e plausíveis que justifiquem os rumos que a saudade que sinto e suas manifestações diversas me levam nesse caminho desde que te perdi. Por enquanto, não acredito que alguma delas consiga traduzir a sensação de eternidade que sinto quando te encontro no meu inconsciente. Duvido muito que algum dia, mãe, eu me cure da tristeza que ficou no lugar da sua presença. Mas a saudade intensifica a importância de cada parte de você que ficou comigo enquanto daqui eu sigo.

“Respirar o amor,
Aspirando liberdade.”