Responsabilidade afetiva — consigo mesma em primeiro lugar

Demorei pra entender e foi só na prática — muita prática, diga-se de passagem — , que aprendi que, se você gosta de uma pessoa que te trata mal, não é que você gosta muito da pessoa, é que você não gosta muito de você.

Print compartilhável direto do meu Twitter.

Com tempo e terapia, fui entendendo meu papel em todas as relações cagadas que tive — que cultivei. Percebi que, por mais que tenha sofrido, nunca fui um anjo inocente nas mãos de um vilão sem escrúpulos. Atribuir ao outro total responsabilidade pelo que vivi de ruim é ignorar minha possibilidade de agência, de escolha. É ignorar que, a qualquer momento, eu podia ter dado um basta, porque me respeitava demais pra aceitar passar por aquilo — só que não era o caso.

Não se trata de “culpar a vítima” em um relacionamento talvez abusivo, mas de questionar se existe mesmo uma vítima e um vilão. Acho que, na maioria das vezes, o que há são dois seres humanos tentando fazer o melhor e nem sempre conseguindo. Ok, existe a possibilidade de que eu esteja sendo otimista ou inocente demais em acreditar que as pessoas estão mesmo majoritariamente interessadas em darem seu melhor. Ainda assim, estou convicta de que é muito mais produtivo pensarmos em formas de empoderamento pessoal, de como podemos não nos meter ou não nos manter em relações que nos fazem mal, do que gastar nosso tempo cobrando uma admissão de responsabilidade por parte do outro.

O que podemos cuidar, vigiar e controlar é a nossa própria parte. E, quando nos damos o devido valor, é menos provável cairmos nessas armadilhas que têm sido popularmente chamadas de “irresponsabilidade afetiva” na internet. E é por isso que eu quero falar desse assunto — mas talvez não do jeito que ele tem sido falado ultimamente.

Responsabilidade afetiva e relações livres

A primeira vez que tive contato com esse termo foi em um contexto de relações livres e, até recentemente, não o conhecia em outros contextos. Em se tratando de relações não-monogâmicas, me parece bem óbvio falar de responsabilidade afetiva. Significa que ser livre não é oba-oba, que você precisa ser responsável para com as pessoas com quem se relaciona. Mas o que exatamente é ser responsável?

Entendo responsabilidade afetiva, em termos básicos, como manter diálogo e agir com honestidade. Muito do que se cria de expectativas em relacionamentos é por pura falta de comunicação. Não vejo responsabilidade afetiva como uma forma de se responsabilizar pelo que outra pessoa sente. Não acho nem desejável que alguém se responsabilize pelos sentimentos de outros. O importante é se comunicar honestamente. Daí pra frente, cada um é dono de si e faz suas próprias escolhas e toma suas próprias decisões embasadas nas informações que tem.

Em contextos monogâmicos, tenho visto o termo ser usado para se referir a pessoas que iludem as outras, que dão falsas esperanças e que cultivam expectativas em relação a coisas que não cumprem. Acontece que iludir, dar falsas esperanças e cultivar expectativas são termos muito amplos. E, quando analisamos os pormenores do que a pessoa fez para ser lida como alguém que iludiu, deu falsas esperanças e cultivou expectativas, me parece que o que houve foi falta de diálogo, que resultou numa interpretação equivocada de determinadas atitudes. Sobre isso, o ponto a seguir.

Leitura de sinais

Vejo muita confusão sendo feita entre falta de responsabilidade do outro com suas ações para conosco e as expectativas que criamos por conta própria. Muito do que nos leva a culpar a-pessoa-que-nos-iludiu é pura leitura de sinais que fazemos por interpretarmos as ações da outra pessoa pela nossa própria lógica.

Vamos supor que você comece a sair com alguém. Vocês saem toda semana, se falam todo dia, andam de mãos dadas, ela/e sempre faz questão de puxar assunto com você, te pediu ajuda pra escolher a nova armação de óculos, te levou junto quando foi adotar gatos, cozinhou pra você e você tem quase certeza de que ela/e sai só com você. Isso quer dizer que vocês estão namorando? Não. A não ser que tenha rolado uma conversa sobre isso, não é um namoro só porque vocês se dão bem e estão fazendo parte da vida um do outro. Tudo que citei acima só significa alguma coisa a mais se ambos acreditam que significa.

(Aliás, se andar de mãos dadas, cozinhar e incluir a outra pessoa na sua vida de maneira geral é dar falsas esperanças, qual exatamente seria o comportamento adequado? Ser frio e distante? Nem começar a sair? Mas, se a gente nem começar a sair com alguém, como vai saber se pode ou não dar em alguma coisa? E é mesmo preferível sair com alguém que não puxa assunto, não cozinha e se recusa a andar de mãos dadas só porque não é um namoro? É isso que a gente quer dos lances mais casuais?)

Parece que rola a expectativa de uma coisa muito oito ou oitenta, como se ser legal e afetuoso fosse proibido caso suas intenções não sejam um compromisso sério. E aí, dar as mãos acaba tendo o mesmo peso simbólico que dar uma aliança — e não é bem assim. Às vezes, a pessoa só fala com você o dia inteiro porque tem muito tempo livre. Às vezes, ela só te ajudou com aquele trabalho da faculdade porque gosta de ajudar e teria ajudado qualquer um. Às vezes, ela sai só com você porque não tem tempo ou saco ou até vontade de sair com mais gente. Mas nada disso é motivo pra contar com acordos que não foram feitos e depois dizer que foi iludido/a porque criou uma situação dentro da própria cabeça sem ter confirmação da outra pessoa.

Se a pessoa se comporta de maneira que você interpreta como paixão e não é isso que você quer, fale. Se a pessoa se comporta de maneira que você interpreta como paixão e é isso que você quer, fale também. Nada deve ser presumido. O óbvio não existe. As coisas em si só têm os valores e significados que atribuímos a elas. E, muitas vezes, os valores e significados que atribuímos a certas coisas são completamente diferentes dos atribuídos pela pessoa com quem nos relacionamos.

Outro dia vi esse tweet e fiquei pensando no que seria deixar “tudo claro desde o início”. Quando você começa a sair com uma pessoa, você já tem bem definido na sua cabeça o que quer e o que não quer com ela? O que você quer e não quer não depende do que vai acontecendo, conforme vai acontecendo? Como é que deixa tudo claro desde o início?

Outra questão é quando alguém sabe sim que não quer um namoro e fala isso desde o início, mas aí a gente, apaixonada, decide que é melhor ter pouco do que não ter nada e continua saindo com a pessoa, na expectativa de que ela perceba o quão maravilhosas somos (SPOILER: isso nunca acontece). A pessoa já nos disse que não quer namoro e, por isso, se sente à vontade para fazer coisas que nós poderíamos interpretar como namoro caso ela não tivesse dito aquilo. Só que, pra nossa cabeça apaixonada, dar a mão é um sinal de que a pessoa talvez esteja se apaixonando também, apresentar à mãe é indício de compromisso sério e falar todo dia é prova de que ela já não sabe viver sem nós. A pessoa fez tudo que precisava ser feito: falou com honestidade o que não queria. Se ficamos lá torcendo e esperando por uma mudança, não devemos assumir responsabilidade por isso? É mesmo culpa do outro termos ficado ali? Não somos nós quem estamos sendo desonestas — com o outro e com nós mesmas?

Apresentar à mãe pode não significar nada. Se pra você significa, você pode chegar e falar: “Olha, você disse que não queria um namoro e, pra mim, conhecer a mãe é coisa séria. Você mudou de ideia? Porque, se não, eu prefiro não conhecê-la.” E pronto. Temos escolha, temos agência. E, principalmente, temos que saber diferenciar o que é desleixo e irresponsabilidade da pessoa e o que é nós mesmas correndo atrás de algo que já nos foi negado. Do mais, o Jorge Wagner já falou muito bem nesse texto aqui.

Assumindo responsabilidade pelos próprios sentimentos

Uma das coisas mais benéficas que tenho aprendido sobre relações é a assumir responsabilidade pelos meus próprios sentimentos. Já vinha refletindo sobre isso sozinha e a partir de leituras e conversas informais, mas, mais recentemente, li sobre Comunicação Não-Violenta (que merece um texto à parte). No livro do psicólogo Marshall Rosenberg, tem um capítulo inteiro dedicado a esse assunto. O psicólogo explica de maneira muito didática que as ações dos outros até podem ser estímulo, mas jamais causa para o que sentimos. Isto é, a exata mesma ação pode estimular sentimentos variados em pessoas diferentes, pois algo que é uma questão fortíssima pra você pode ser nadinha pra outra pessoa.

Responsabilizar aqueles com quem nos relacionamos pelo que sentimos é prejudicial tanto para o relacionamento quanto pra nós mesmas. É ruim dessas duas formas, porque, quando uma pessoa que gosta da gente se sente responsável pela nossa dor, ela vai querer mudar de comportamento por culpa, não por compaixão. Quando as pessoas mudam por culpa, resolvemos o problema apenas naquele momento. Passado um tempo, a conta irá chegar, pois, quanto mais elas mudarem por se sentirem culpadas, menos boa vontade elas terão para agirem de maneira compassiva conosco no futuro.

Não me sinto nem um pouco bem com a ideia de que alguém de quem gosto faça coisas por mim apenas por culpa, medo ou vergonha. Se quero alguma mudança, quero que ela seja feita de bom grado. E, se estamos falando do início de uma relação, de um vai-não-vai, eu menos ainda quero que alguém decida assumir um compromisso comigo só porque se sente culpado caso não o faça.

Indo mais além, quando responsabilizamos os outros pelos nossos sentimentos, a tendência é que não seja só pelas dores, mas também pelas alegrias. É perigosíssimo colocar assim o nosso bem-estar nas mãos de outra pessoa. No entanto, é mais fácil e conveniente. É muito difícil encarar que nós mesmas nos colocamos em situações que nos causaram infelicidade, que nos frustraram, e é assustador pensar que nosso bem-estar só depende de nós. Responsabilizar o outro é cômodo. Se tudo der certo, não sentimos ter feito esforço e, se tudo der errado, fomos vítimas de algo que nos aconteceu. Precisamos mudar o discurso. Nossa vida não é algo que acontece com a gente, mas sim escolhas que fazemos, decisões que tomamos e as consequências que elas têm. Até não fazer escolhas é uma escolha — que costuma ter consequências bem pesadas.

Não importa o quanto a gente tente alargar o conceito de responsabilidade afetiva, nós nunca vamos — e nem deveríamos — deixar de ser responsáveis pelos nossos próprios sentimentos. Há de se fazer uma diferença entre responsabilidade afetiva e culpabilização dos outros pelo que nós mesmas causamos ao nosso estado emocional. Ninguém é responsável pela dor de ninguém. Sentir-se responsável pela dor de alguém nos torna escravos emocionais e isso certamente diminui a boa vontade pra se fazer o bem.

Então, vamos pensar um pouco no nosso lado de cada situação? Não digo que todas as pessoas sejam santas, mas o inferno definitivamente não é os outros. Até mesmo quando alguém sabidamente faz de tudo pra não ser legal com a gente, até mesmo em relações abusivas, não é melhor, em vez de focar em tudo que tem de errado no outro, refletir sobre de que maneiras podemos nos fortalecer para não passarmos mais por esse tipo de situação? Antes de falar de responsabilidade afetiva, que tal falarmos mais de autoestima e autonomia?


E o texto do mês que vem aqui na TRENDR vai ser exatamente sobre relacionamentos e autoestima. ;)