Rock Story: faltou ousadia ao abordar um tema tão apaixonante

É muita história e pouco rock

O momento mais rock ’n’ roll da novela (Imagem: Divulgação Rede Globo/Flavio Barboni Montagem)

Rock Story, folhetim que ocupou a faixa das 19h na Rede Globo, manteve bons índices de audiência, batendo recordes sucessivos. O preço foi uma ‘desafinação’ desmedida que, se tinha a boa intenção de divulgar a resistente cultura do rock, acabou propagando uma imagem caretíssima, quase jurássica do ritmo no Brasil.

A música de abertura que presta uma deliciosa homenagem aos Novos Baianos, com a versão de “Dê um Rolê” conduzida pela também baiana Pitty. Daí, tudo parece que será um verdadeiro mergulho pela história do rock ’n’ roll brasileiro, repleto de personagens interessantes que vão desde o Tremendão, passando por Mutantes, Raulzito, Renato Russo até nomes mais ‘recentes’, como Chorão e Champignon.

Então surgem figuras como Gui Santiago (Vladimir Brichta) e banda 4.4, ambos sem qualquer carisma ou força para fazer o que uma boa música contestadora tem de melhor: provocar, tocar fogo no palco, fazer refletir ou, ao menos, divertir.

4.4 é uma clássica boy band e Gui Santiago, se existisse no mundo real, teria o mesmo peso histórico roqueiro de um Paulo Ricardo em carreira solo, ou talvez pior… Certamente pior.

Prometida no título, falta rock na história da novela. Os "causos" reais mais interessantes do ritmo mais popular do mundo envolvem cenas quase místicas, ideias profundas e às vezes absurdas, utopias e, principalmente, excessos.

Passar dos limites frequentemente sempre foi o cimento de biografias memoráveis de artistas de todos os subgêneros, de Joe Strummer a Tommy Lee, Little Richards a Bono Vox.

Na maioria dos casos, envolve excesso sexuais ou uso de drogas (lícitas e ilícitas), não raro em conjunto, mas também pode ser ambição demais, aspirações messiânicas ou qualquer outra loucura capaz de deixar uma história em nossos corações. Essas biografias enriquecem o som do artista e nos fazem compreender melhor suas ideias ocultas — ou não — entre os overdrives.

Se fosse um filme, Rock Story certamente enfatizaria os conflitos pessoais de um Gui Santiago que enfrenta seu próprio legado para tentar se reinventar e voltar às paradas. Não haveria economia em cenas para fortalecer essa batalha, com dramas intensos, a degradação pelo abuso de alguma droga, as disputas e escândalos conjugais… Todo o repertório clichê tão adorado pelos fãs do rock ’n’ roll.

Porém, o formato novelesco parece ter impedido tal liberdade criativa. O texto da experiente Maria Helena Nascimento, com supervisão do veteraníssimo Ricardo Linhares fica travado na caretice. A metáfora entre a despopularização do rock em detrimento do sertanejo e o cancioneiro mais popularesco é encenada pelas brigas​ sem sal entre Santiago e o jovem inconsequente Léo Régis (Rafael Vitti), um Lucas Lucco da ficção.

Falta excesso, obsessão. Santiago é certinho na medida certa, ou até onde lhe convém. Não é um Bono Vox ou Sting falando em salvar o mundo, nem um Jim Morrison alucinado, alienado em seu universo particular.

Não há qualquer ambição maior no roqueiro de folhetim a não ser manter relevante sua carreira de músicas sem importância artística.

Há uma tentativa constante do texto em tentar nos enganar que o passado de Gui Santiago foi um verdadeiro Woodstock. Não são raras as citações às fãs, a seu traço mulherengo, a orgias… Só que nada é capaz de convencer que isso aconteceu de verdade.

Em seus capítulos finais, a personagem mais roqueira que apareceu em Rock Story é a Mariane, caso antigo do protagonista e mãe de seu filho, Zac. Ela também foi a única capaz de tirar o protagonista​ realmente do sério (de maneira mais convincente), despertando uma fagulha de emoção e ímpeto em Santiago.

O resto é invencionice. É como se, quando nosso roqueiro “errante” sobe no palco para dar um soco na cara do sertanejo Léo Régis, tudo já fosse um plano para gerar mídia…

Mesmo os tributos ao BRock transformam clássicos nacionais em músicas de procissão. Os “coroinhas” já cantaram pedidas básicas, como Cazuza, Legião Urbana, Raúl Seixas e Barão — até onde me lembro — tudo muito certinho, sem qualquer ousadia para fugir do filtro de “novela das sete”.

Como disse Dinho Ouro Preto certa vez em entrevista à Rádio Atlântida (RS), “ficou muito Malhação, pois a realidade era bem mais pesada”. Ele se referia ao filme Somos Tão Jovens, que peca por se focar demais nos idealismos de Renato Russo e menos em todo o contexto que envolveu a formação do Aborto Elétrico, futura Legião.

Faltou convencimento, mas sobrou recordes de audiência. Cumpriu seu papel de apresentar ao Rock para quem não é do Rock. Talvez esse seja o grande defeito de Rock Story: ostentar um temperinho pueril de Malhação e esquecer de quem tinha rock correndo nas veias.