Roger Agnelli & Eliezer Batista

Gestores que fizeram a diferença

Roger Agnelli (1959–2016), o garoto do mercado, e Eliezer Batista (1924- ), o engenheiro do Brasil, ex-presidentes que transformaram a Vale em uma gigante da mineração

A Vale conta com dois presidentes que fizeram a diferença na gestão da empresa: Eliezer Batista e Roger Agnelli.

Eliezer tornou-se uma figura mitológica. Ele chegou na empresa logo após sua fundação, pois era engenheiro em uma contratada americana responsável pela reconstrução da Estrada de Ferro Vitória a Minas — a ferrovia da Vale — , ainda nos anos 40. Em seguida foi incorporado aos quadros da então Companhia Vale do Rio Doce. Ele era a única pessoa com um conhecimento amplo de todo o negócio, em suas palavras, "tinha uma visão holística e sistêmica" da empresa. Esse axioma reflete bem o seu principal fundamento para a empresa. Por causa de sua visão estratégica, tornou-se presidente por duas vezes, entre 1961–1964 e depois entre 1979–1985.

Tomando dois exemplos dos feitos de Batista, somente, a Vale é responsável pela revolução no paradigma da navegação mundial e pela criação dos contratos de longo prazo para commodities. O Japão ainda estava em reconstrução nos anos 50/70, reflexo do pós-guerra, e tinha um peso similar ao da China atualmente.

Embarque de minério de ferro nos megagraneleiros-petroleiros da Docenave, empresa da Vale criada para gerir o transporte do minério de ferro, no Porto de Tubarão, em Vitória/ES. Década de 1970. (Imagem: Agência Vale. Nossa História, 70 anos)

Até 1966, o maior navio graneleiro tinha capacidade de transportar somente 42 mil toneladas. Eliezer, junto com o presidente da então Kawasaki, Fujimoto, produziram o maior navio do mundo, com capacidade para 100 mil toneladas. Como diz Batista, "o objetivo era transformar uma distância física em econômica" e reduzir o custo do frete, permitindo a entrada do melhor minério de ferro no mercado japonês com preços mais competitivos do que o das empresas australianas, vencendo a batalha comercial. Tal estratégia enfureceu muitas empresas de navegação, mas modificou por completo e para melhor o setor.

A operação desses navios exigiu portos especialzados. O Brasil construiu em Vitória, capital do Espírito Santo, o Porto de Tubarão e a Kawasaki outro no Japão. Com o tempo, os portos no mundo foram se ajustando para receber tais navios.

Ao retornar do Japão, as embarcações paravam no Oriente Médio e traziam o petróleo para o mercado brasileiro, garantindo preços competitivos pelo alto volume transportado.

Hoje a Vale conta com o Valemax, categoria criada para os navios de 400 mil toneladas, únicos no mundo. É a expansão do paradigma de navegação logístico criado por Batista para a Vale.

Outra inovação de Eliezer Batista para o mercado foi estabelecer os contratos de longo prazo para commodities. Até então era pedido por pedido. Com isso, a Vale conseguiu fidelizar clientes, garantido a entrega e preços pré-estabelecidos. O modelo comercial permitiu a Vale trabalhar com cenários de longo prazo, uma vez sabido o volume a ser produzido e os valores em caixa, garantindo também os constantes investimentos. Este modelo comercial foi copiado por várias outras empresas, tornando-se uma referência para produtos similares.


Roger Agnelli é o gestor do século XXI. Garoto prodígio, veio dos quadros do Bradesco, um dos acionistas da Vale. Aos 38 anos, era diretor no banco e presidente do Conselho de Administração na Vale. Em função disso, assumiu a empresa como presidente executivo (CEO) em 2001 e soube aproveitar bem o crescimento da China com altas demandas por commodities, princiaplmente o minéri ode ferro, e aumentar em mais 20 vezes o tamanho da Vale.

A Vale era uma mineradora pequena até a chegada de Agnelli. Seu antecessor, o Embaixador Jorio Dauster, fez a transição da fase estatal para a privada. Havia o real temor da empresa ser comprada em oferta hostil por uma concorrente maior. Assim, Roger definiu uma estratégia de crescimento agressiva para evitar tal manobra do mercado. O valor de mercado da Vale estava em torno de US$ 4 bilhões e as projeções era chegar a US$ 10 bilhões em 5 anos. Já em 2004 a empresa alcançou esta marca. Foi com ele o recorde de valor de mercado em 2008, alcançando R$ 322,9 bilhões, segundo a IstoÉ Dinheiro.

Roger tornou a Vale uma multinacional, com presença em todos os continentes e em mais de 30 países. Focou suas operações em um portfólio enxuto com minério de ferro, níquel, cobre, fertilizantes, ferro-liga, além de quatro unidades operacionais: mineração, logística, siderurgia e energia.


Documentário sobre a vida de Eliezer Batista. Revela que ele não se restringiu a Vale. O que existe no Brasil no campo industrial, principalmente as de base, vieram de sua cabeça. O setor siderúrgico, mineração, celulose, logística, energia — como o gasoduto Brasil-Bolívia — , nasceram de seus ideias de ligar o Brasil ao mundo e transformar o país numa potência. Parte disso está implantado. A maioria foi para gaveta, infelizmente.

A história não se repete, mas imita. Roger Agnelli deixou a presidência da Vale por questões políticas. Perdeu a briga para o Partido dos Trabalhadores. Assim também foi Eliezer, pois acumulava o Ministério de Minas e Energia de João Goulart e a presidência da Vale. Ao realizar contantos comerciais com o presidente da extinta Iugoslávia, foi taxado de comunista pelos militares, perdendo o cargo e passou para a iniciativa privada, construindo a MBR, adquirida por Roger Agnelli em 2007.

Os militares tiveram tempo de fazer justiça. Precisaram de Eliezer Batista para comandar a construção do complexo de Carajás, nos estados do Pará e Maranhão, cuja operações iniciaram em 1985. Para isso, o reconduziram à presidência da Vale. Com Carajás, a mineradora pode aumentar seu portfólio de clientes.

No entanto, o infortúnio acidente não permitirá um retorno de Roger Agnelli aos quadros da empresa que ajudou a expandir. Muitos comentavam, como um desejo informal, a possibilidade de um retorno, depois de eventuais mudanças no cenário político-econômico.

Hoje (20), jornais do mundo inteiro noticiam e retratam seu legado.Roger passou pela história e deixou marcas que refletem o momento histórico do Brasil e do mercado no período. Assim como Eliezer Batista, sua memória não será deixada de lado.

Agnelli foi o único presidente que alçou o mesmo nível de Eliezer Batista. Cada um no seu tempo, souberam projetar a Vale e ir além.

RIP Família Agnelli


Minha homenagem a quem faz diferença.

Cassius Gonçalves é historiador e especialista em memória empresarial. Está envolvido com a trajetória da Vale desde 2000. Escreveu um livro sobre a Estrada de Ferro Vitória Minas, outro sobre as operações em Omã, no Oriente Médio, e organizou muitos de seus documentos históricos guardados no Museu Vale, em Vitória, no Espírito Santo.

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