“Se ele viaja sozinho com a mãe, ele é gay”

Ouvi essa frase recentemente em uma reunião de trabalho.

Um palestrante de outro país virá para o Brasil, acompanhado apenas pela mãe, para participar de um evento por aqui. Logo, segundo a pessoa da reunião, ele é gay. Por esse simples motivo. Segundo ele, se o palestrante fosse “homem mesmo” viria sozinho para curtir por aqui (?).

Hoje parei para pensar e se for isso mesmo, embora não tenha dito na hora para a pessoa da reunião, eu sou o maior gayzão do mundo. E olha, com muito orgulho!

Essa frase carrega consigo dois problemas que, para mim, ficaram muito evidentes. O primeiro está relacionado a nossa necessidade de colocar as pessoas em determinadas caixinhas com rótulos. O segundo é que somos nós (e toda nossa cultura) que definimos quais são as características necessárias para adentrar em tais caixinhas, não a pessoa jogada dentro dessas.

A pessoa viaja com a mãe? Gay. A menina tem voz grossa? Lésbica. O menino brinca com boneca? Hum, acho que esse tem jeitinho. O rico? Metido. A menina que defende seus direitos? Feminista fanática. Pobre? Ladrão. Estudante que não trabalha? Vagabundo. Menina que usa shortinho? Puta. E por ai vai.

O problema é que com isso vamos criando uma série de marcas mentais que nos impede de realmente conhecermos as pessoas, afinal, antes mesmo que ela diga algo, já temos em nossa cabeça quem é ela pra nós (ou toda a imagem que criamos dela em nossa cabeça, produzidas em um lapso de tempo incrivelmente curto, mas que mesmo assim consegue incorporar uma infinidade de preconceitos, estereótipos e ignorâncias).

Além disso, em nosso mundo (e por incrível que pareça), na maioria das vezes não são as próprias pessoas que escolhem as caixinhas que elas querem pertencer, mas sim nós. Tiramos com isso, a opção de escolha dessas pessoas e as jogamos (realmente) nas caixinhas que NÓS consideramos serem as mais adequadas para elas com base em NOSSOS critérios (para não dizer preconceitos e ignorâncias). Critérios fechados. Opacos. Rígidos. Logo, se eu sou hétero, mas curto me maquiar, não posso ficar na caixinha do “macho”. Me jogam direto na caixinha do gay ou na generalizante caixona do “enrustido”. Talvez essa, umas das maiores caixas existentes, sendo jogadas lá todas as pessoas que fogem do padrão do “macho alfa”. Todos os meninos que choram estão por lá, os que são extremamente românticos com as namoradas, os meninos que usam roupas “de meninas”, e por ai vai.

Eu e meu namorado, por exemplo, constantemente ouvimos a frase “nossa! Vocês parecem héteros”, pelo simples fato de usarmos roupas de “machinho”, agirmos como “héteros”, e essas coisinhas ditas que você fica ~what?~. Primeiro, não tenho essas roupinhas “gay” porque o dinheiro tá curto (aceito doações) e segundo pelo simples motivo de que não é porque agora namoro um menino que preciso mudar o meu jeito de vestir. De agir. De ser.

A questão que me coloco sempre é: por que nos limitamos tanto e, com isso, queremos sempre limitar os outros? Conheço muitas pessoas que deixaram de fazer coisas pelo simples medo de serem jogados em uma caixinha não muito bem vista e “pegar mal”. E isso, sinceramente, é tão ultrapassado e limitante.

A pessoa mencionada na frase dita na reunião vai aproveitar tudo o que a mãe dele tem a acrescentar em sua viagem. Vai aproveitar o companheirismo dela que concordou em viajar com ele para o Brasil depois de um tempo sem se verem (ele morando em um país X, ela em um país Y). E vai continuar a ser quem ele é. Pode ser até gay, mas não foi o fato de “viajar com a mãe” que “tornou” ele assim. Pode também muito bem ser hétero. Hétero bem resolvido em ser feliz na vida sem se preocupar com as caixinhas frágeis dessas pessoas.

Nossa identidade é flexível, porosa e instável. Está em constante mudança, porque o contato com o outro e com as coisas da vida nos muda, para o “bem” ou para o “mal”. Amanhã podemos mudar completamente nosso modo de agir em determinado aspecto de nossa vida. Mudar nossos pensamentos. Nossos gostos. Já pensou que loucura seria ficar mudando, ou sendo transferido, a todo momento por todas essas caixinhas. Que cansativo, pô!

Se você curte as caixinhas, se coloque nelas. Mas não coloque os outros. Não se limite no interior de uma única caixinha. Não deixe ela ser tão rígida. O legal mesmo é conhecer o conteúdo de todas essas caixinhas, toda a diversidade e coisas boas disso. Mas sem se limitar. Nunca se limitar. E parar de jogar pessoas em espaços delimitados por preconceitos e ignorâncias.


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