SE PRESERVANDO NO CAOS

ou: sobre sobreviver e criar em meio a decepção chamada Brasil

Penso na minha criatividade e vejo uma lousa em branco, feita de um material inferior, dos que estragam nossas canetas e apagadores. Minha escrita foi engolida por uma certa obsessão, uma surpresa ruim que tirou de mim o que eu fazia questão de expor como uma obra que um artista talentoso e generoso me deu para embelezar o museu das minhas emoções.

Perdi a confiança nas minhas palavras desde uma discussão que tive com minha mãe na semana do primeiro turno das eleições. Ela me mandou pelo Whatsapp (sempre ele) um texto que havia me assustado no Instagram. Cheio de ódio ele colocava em um ringue dois potenciais candidatos: de um lado a salvação messiânica, do outro um cenário digno de Sodoma e Gomorra com professores aliciadores e cadeias fechadas.

Eu não votei em nenhum dos alvos do texto mas me senti agredida, com minha normal inteligência subestimada. Ainda pior foi a tristeza com minha mãe, levada por uma enxurrada de bílis raivosa. Ela era a última pessoa que eu imaginava tentar me afogar em tamanha loucura.

Minha mãe é formada em Ciências Sociais. Ela estava na faculdade no auge do regime militar, mas não participou ativamente da oposição a ele, embora sempre tenha me contado sobre as suas lembranças da época, uma moça interiorana distante do centro dos acontecimentos e empática às consequências deles.

Pelo menos até onde eu me lembro.

Assistimos Zuzu Angel juntas no cinema, conversamos sobre Rubens Paiva depois que li Ainda estou aqui, conheço seus relatos sobre colegas que desapareceram e professores coagidos. A dor que eu senti em cada uma dessas vezes não é nada perto da decepção que estou sentindo.

Eu não consigo mais lidar com as memórias da minha mãe.

O pior é que tenho questionado a minha sanidade sempre que ela diz que “é tudo uma onda, vai passar como sempre passou”. Ela é mais velha, mais experiente, menos impulsiva, com certeza eu devo estar exagerando.

Não!

Li em um artigo essa semana que “quando colocamos nossas experiências pessoais a frente dos fatos esquecemos a História do nosso país”. Ele me entristeceu e ao mesmo tempo me deu uma percepção diferente das atitudes da minha mãe: depois de tantos anos, não por maldade ela acha que o relativo oásis de tranquilidade em que vivia na nossa cidade pequena valha mais que a História que ela me ensinou. Também há em suas falas agora irreconhecíveis para mim um tanto de desapontamento com um partido no qual ela confiou e votou por anos seguidos.

Ela considera a sua trajetória, eu penso em quem me rodeia.

Aos trancos, barrancos e pavores preciso respeitar as opiniões da minha mãe e saber quando me blindar se elas me parecerem agressivas, como tem acontecido.

Mudei os temas das nossas conversas, evito entrar em polêmicas e se noto qualquer animosidade no tom de voz dela (geralmente dirigida ao meu irmão do meio, que tem a mesma postura que eu) controlo meus tremores e a vontade de chorar. E sigo, admirando a sua vivência, mas temendo pela existência dos meus colegas de profissão, de alunos e alunas, de amigos e amigas, dos negros e negras, dos e das gays na minha talvez bolha de indignação, questionamento e luta onde minha mãe escolheu me deixar.

Nas nossas diferenças ela me criou assim. Entendo, não choro mais, agradeço e resisto.

E volto a escrever.

“Quem não reage, rasteja “