Sem diálogo, ele ganha no primeiro turno

Foto: Ricardo Borges/Folhapress

Eu estou com medo e talvez esse seja só um texto escrito em desespero do que pode acontecer caso ele ganhe, mas precisamos conversar. Como nós pudemos chegar a esse ponto? Onde a gente se perdeu? Não estamos conseguindo mostrar o que parece óbvio nem pra quem a gente ama dentro das nossas próprias casas. A resposta na verdade são as perguntas que não estamos fazendo — mas antes tenho uma história pra contar.

A primeira vez que lembro de ouvir de política foi em 98, eu tinha cinco anos de idade. Ainda me lembro das fotos do velhinho sorridente com quem eu me simpatizei. Mas o que me marcou foi a fala da minha madrinha: “esquece esses políticos, meu filho, eles não se importam com a gente pobre”. Uma década depois, essa mesma pessoa, no auge do governo Lula e de um dos maiores crescimentos da história do país, ainda votava nulo. E agora ela vai votar no Bolsonaro.

Com 50 e tantos anos, ela nasceu com a ditadura. Filha de nordestina, negra, cursou até a quarta série. Minha madrinha foi pobre a vida inteira e só conseguiu ascender à classe média nos governos Lula como toda a minha família. Nenhum dos filhos dela pôde cursar uma faculdade. Eu desconfio que pra ela não importa nada dos absurdos machistas que Bolsonaro fala, “homens sempre foram assim” ela me diria provavelmente. O que importa pra ela é a possibilidade de um emprego novo pro meu tio. E ela sabe quando ele perdeu o emprego: na crise que o PT criou.

Você poderia me dizer: ela não se lembra do fim da ditadura? Plano Cruzado? Plano Collor? Veja, pra quem sempre foi pobre, a crise existiu sempre. Quando se está acostumado a ter “mistura” no almoço um dia sim e um dia não, tudo é muito simples. Foi a democracia que deu a nós, todos nós, a ascensão social, primeiro com o plano real e depois com os anos 2000. Ela não esperava, mas gostou e até 2015 fazia churrasco toda semana. E, agora, ela tem que encarar a possibilidade de que os netos possam não comer tanta carne assim.

Agora eu te desafio, caro leitor: você teria coragem de chamá-la de fascista? Eu não teria. E então porque insistimos nessa estratégia? Eu espero que a nossa ficha caia. Faltam 2 dias para a eleição, talvez seja tarde demais, mas precisamos entender: sim, ele é um misógino, um protofascista, um projetinho de ditador, eu sei, mas estamos debatendo isso da forma errada. Nos termos errados.

Aqui uma coisa óbvia: nem todo mundo que vota no Bolsonaro é um machista/homofóbico. Alguns deles são, mas a maioria não. E o que estamos fazendo para tentar mudar isso? Chamamos todos que discordam da gente de nazistas.

Quando vamos aprender a conversar com as pessoas sem insultos e rótulos? Eu sei que nosso sonho é sair por aí desconstruindo todo mundo, mas claramente não estamos fazendo isso da forma correta. Quando abrimos mão de conversar com essas pessoas e nos enclausuramos no nosso mundinho, criamos as condições pra que gente como o Bolsonaro possa prosperar.

Parte de nós acha que qualquer outra visão do mundo é inaceitável. Qualquer outra posição que não a nossa transforma as pessoas em racistas, misóginos comedores de criancinhas. O que será que as pessoas farão ao falarmos assim com elas?

Precisamos sair das redes sociais e ir pra dentro das nossas casas, na padaria e no boteco da esquina e nos engajarmos lembrando dos assuntos que importam para as pessoas: emprego, violência e corrupção. Antes de darmos respostas, precisamos perguntar e ouvir com humildade pra só depois e de uma forma “não violenta” construirmos uma ponte de entendimento com as pessoas. Ou mostramos que na urna é lugar de esperança e não de ódio ou será tarde demais.


ps: texto fortemente inspirado no vídeo abaixo: