Sem rótulos

por Lucas Ruiz

O mundo é muito mais uma régua plural do que uma simples divisão entre isso ou aquilo.

Enquanto em vários lugares ainda se discute o terceiro gênero, a Comissão de Direitos Humanos de Nova York apontou nada menos que trinta e uma nomenclaturas de gênero para serem usadas em âmbitos profissionais e oficiais. TRIN-TA-E-U-MA. Tem homem, mulher, andrógeno, terceiro sexo, pângenero e até espírito duplo. Tudo isso diante de muita fluidez e a partir do que cada um se identifica.

No Brasil, o novo filme da diretora Anna Muylaert (de “Que horas ela volta?”) abre discussão justamente pra isso. Em “Mãe só há uma”, é possível perceber a dificuldade encontrada de se entender esse lugar do não-rótulo, ao mesmo tempo em que isso se mostra cada vez mais comum e necessário.

Mas por que essa realidade é tão difícil de ser aceita por algumas várias pessoas? Simplesmente porque é mais fácil apontar um rótulo do que se esforçar minimamente para entender o outro além da superfície. Empatia, ainda que essencial, não é comum a todos, e acaba sendo mais prático dizer que só há homem e mulher, preto e branco, hétero e homo, isso e aquilo, do que parar alguns minutos para conhecer um pouco mais a fundo quem nos rodeia. A máxima de “não faça com o outro o que você não quer que façam com você” não vale mais e é muito simplório diante de tanta pluralidade. “Faça com o outro o que o outro gostaria que fizesse com ele” é oque vale. E nisso entra o básico de reconhecê-lo como ele realmente é. Colocar os outros em rótulos acaba encaixando pessoas excepcionais em grupos pasteurizados e diminui potenciais.

Pra entender a amplitude de encaixes de hoje em dia é muito simples. É como se o mundo fosse representado por pequenas réguas, e tivéssemos que nos encaixar nas definições colocadas em cada um dos centímetros. Na régua do gênero, por exemplo, o cm 1 tem homem e no do cm 2 tem mulher, e a sociedade impõe onde cada um deve se colocar quando, na verdade, a régua é muito maior, com várias definições possíveis em cada milímetro. E o melhor de tudo: ninguém é colocado e nem tem que se colocar em algum número nunca. É possível se identificar com algum mas também fluir entre todos.

A pluralidade não serve só pra gêneros, mas também para a sexualidade. Essa história de “eu tenho um gaydar que nunca falha” não faz nenhum sentido em um mundo onde você pode ser homossexual, heterossexual, bissexual, pansexual, assexual, e tudo isso com inúmeras variações entre essas classificações. Nessa régua, ser bissexual, por exemplo, pode ser estar no meio do homo e do hétero, mas com um bi que gosta mais do mesmo sexo em um milímetro diferente do que se atrai mais pelo sexo oposto. E isso só faz dele um ser um pouco diferente de você. Ponto. Quem decide o milímetro correspondente à própria personalidade é cada um. Nessa história entra a conversa acerca da representatividade, já que cada milímetro tem a mesma importância que o outro.

A fotógrafa brasileira Angélica Dass foi além e mostrou a régua plural das cores que podemos ter. Ser apenas branco, preto, pardo, amarelo ou índio é muito pouco quando se conhece o projeto Humanae criado por ela. Ao fotografar pessoas do mundo inteiro, Angélica mostra a limitação de separar o mundo em algumas poucas raças, já que cada retrato se encaixa no catálogo profissional Pantone, e as possibilidades são inúmeras e incontáveis.

(Google)

Em uma palestra no TED, Angélica conseguiu exemplificar o conceito da régua das cores de uma maneira incrível ao falar da sua família, mostrando que a definição da cor que se tem pode vir de qualquer lugar. Segundo ela, o pai tem um tom de pele “chocolate intenso”, o avô paterno “entre iogurte de baunilha e de morango” e a avó “pele de porcelana e cabelos brancos de algodão”. A mãe, por sua vez, tem pele de canela e a irmã “panqueca”. Assim, fica muito mais fácil pra, quem não se vê refletido em nenhuma etiqueta previamente criada, criar a sua própria. Se você não se vê como branco, mas também não se vê como preto, nem índio nem pardo o que você pode ser? Talvez um avelã com mel defina bem.

Ao mesmo tempo em que a pluralidade nos torna únicos, as intersecções que surgem nessas réguas aparecem onde menos esperamos. O que nos une e nos separa não é a cor, a sexualidade e muito menos o gênero, são apenas as vontades e os sentimentos. A grande verdade é que ninguém está a fim de ser rotulado, e cada um se identifica como bem entender.