Ser professor no Brasil é tipo abraçar o capeta?

Por favor, me corrija se eu estiver errado

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Eu cresci rodeado por professores. No primário, muitos visitavam minha casa para comer biscoito de polvilho com meus pais e trocar elogios sobre o café da minha mãe. No ensino médio, jogava conversa fora com quem quase não tinha tempo de relaxar antes de bater ponto e correr para a próxima aula. Em casa, via minha irmã alimentado o desejo de terminar logo o 3º ano para passar no curso de Pedagogia, grande sonho de sua vida que, felizmente, virou realidade.

Pois é, aprendi muito sobre docência por tabela.

Na faculdade, fui atraído pelas apresentações rotineiras e seminários. Não que eu gostasse muito de falar em público, longe disso. A questão é que curti demais o processo em si. Pesquisas, elaboração de estruturas didáticas, execução e o papo bacana que vem depois. Sem falar nas possibilidades que as novas tecnologias me ofereciam, quase sempre culminando no auxílio de minha grande paixão: os filmes.

No dia em que defendi minha monografia, o sucesso da empreitada veio acompanhado de pedidos para que eu investisse pesado na carreira acadêmica, para que eu fosse um “colega” daqueles que tanto admiro e que, naquele instante, estavam na minha banca. Ao que tudo indica, todo o universo conspira para que eu me torne professor.

Nessa onda, o fato de gostar tanto de cinema facilita um pouco as coisas. Além de ter como objetivo de vida me firmar no ramo da produção audiovisual, é bom pensar que ensinarei aquilo que venho absorvendo desde os 10 anos de idade e que, um dia, colocarei em prática. Poxa vida, imagine só falar sobre Truffaut, Hitchcock e Kubrick e ainda ganhar por isso!

O problema é que toda a minha história com professores, além das partes boas, também traz uma sensação que me parece ganhar corpo a cada ano que passa: dar aulas no Brasil é um inferno. E acredite quando digo que eu não tinha notado isso com tanta clareza antes de me casar há mais ou menos 3 anos.

Presumindo que você já deva saber qual é a profissão de minha esposa, me vem à mente o fato de que ela nunca trabalha apenas durante o horário que, segundo o contrato que assinou, deveria. Em casa, é comum que eu a veja varando madrugadas em busca de mais correções, mais exercícios, mais provas elaboradas, mais respostas para pais ausentes, mais, mais, mais.

Dar aulas é coisa de louco. Visualizar essa rotina é como tragar a fumaça do cigarro de alguém sem ter uma sacada pra respirar. Tento ajudar naquilo que posso, mas a forma com que leis e práticas corriqueiras favorecem mais a quantidade de alunos do que a qualidade do ensino me mostra que professor por aqui é apenas o peão do tabuleiro, aquele que toma a dianteira e derrapa na primeira peitada.

Não à toa, é comum que eu a veja sonolenta, ansiosa e triste. E por mais que ela ame o contato que tem com suas crianças — e ama muito! — , não há organismo que aguente pais ligando tarde da noite para reclamar de coisas que poderiam ser resolvidas no horário de aulas. Multiplique a atenção dada a eles por 17 e saberá como é o dia a dia dela.

Resumindo a ópera, o interesse que sempre senti pela docência, hoje, se mistura ao gosto amargo de um país que pouco investe em educação e que, inclusive, utiliza seus tentáculos governamentais tanto para bater em estudantes e professores que tentam mudar um pouco as coisas quanto para propor projetos absurdos que só fazem andar para trás um sistema que vive fazendo moonwalk.

Mas essa é apenas a visão de alguém que ainda não mergulhou de vez na carreira. Por isso, encerro minha versão fazendo a você, educador(a), uma pergunta que há muito tempo virou parasita na minha cabeça:

Ser professor no Brasil é tipo abraçar o capeta?
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