Seria o filme “Hotel Transilvânia” uma representação do mundo real?

Como uma animação nos traz tanta reflexão a respeito do preconceito existente

Recentemente assisti, junto com meu namorado, a esta animação. Pode não ser a melhor, pode não ter críticas tão positivas, mas com toda certeza me trouxe grandes ensinamentos e reflexões. Assim como qualquer espécie de arte existe para passar uma mensagem ou um sentimento, esta me abriu os olhos para uma questão que está sendo a cada dia mais inserida na sociedade, mas que sempre existiu.

No filme, é possível perceber os monstros mais temidos das fantasias e dos mitos fugindo daqueles que, em outras histórias, foram os que viviam em refúgio e medo. Isso mesmo. No filme Hotel Transilvânia, os verdadeiros monstros são os humanos. E para se sentirem seguros, viviam numa fortaleza, que o dono, Drácula, fez de hotel para hospedar todos os monstros mais odiados pelos humanos. Será que isso não se parece nem um pouquinho com o mundo real?

Ok. Algumas pessoas podem falar que não existem monstros e que isso é figuração de uma imaginação fértil. Mas por que então homossexuais, transexuais e travestis são chamados diariamente de aberrações da sociedade? Por que são chamados diariamente de monstros? E as pessoas de outros estados ou países, de outras cores e raças, de outras religiões, que não sejam da considerada “certa” pela maioria? Estes são os monstros representados no filmes por Frankenstein, Drácula, Múmia entre outros. Mas são os monstros reais. Nós [LGBT] somos estes monstros que precisamos sempre estar trancados numa masmorra para que possamos nos sentir realmente “seguros” e somente com quem é do nosso meios [outros LGBT]. Os guetos que concentram a maior quantidade de negros, pois só neles que eles podem se sentir realmente “seguros”. Os terreiros que são, em muitos casos, escondidos, para que possam se sentir mais “seguros”.

O grande problema de ficar trancado nessa “masmorra”, neste castelo superprotetor, onde só vai ter gente semelhante a você, é que acaba criando uma imagem de que quem está fora deste grupo “não presta”, são todos iguais, que esta maioria branca, rica, cristã, hétero e cis é toda opressora, é sempre a que vai te fazer sentir medo, é sempre a que vai te fazer querer ficar preso em seus espaços, em seus grupinhos.

Mas, assim como no filme [quando um humano adentra no Hotel, considerada uma fortaleza para os monstros], o mundo real é cheio dessa mesma maioria branca, rica, cristã, hétero e cis que adentra no mundo dos monstros, das aberrações, para fazê-los mudar seu pensamento de que todos são iguais. No filme, podemos ver a vampirinha Mavis se apaixonar por um humano. E não é que mais uma vez o filme nos traz em conta a realidade? Isso acontece quando um(a) ateu se apaixona por um(a) cristã(o), quando um(a) negro(a) se apaixona por um(a) branco(a), entre outros muitos exemplos que poderia citar aqui.

Isso deixa toda a comunidade monstro um pouco assustada, e também com aquele pedacinho de preconceito. Mas ao saírem de seus casulos e irem até o mundo dos humanos, eles percebem uma parcela que os adoram e veneram. Isso também acontece no mundo real. Quando nós, as minorias, saímos do nosso mundinho seleto e frequentamos os lugares onde tem a maioria branca, rica, cristã, hétero e cis nós percebemos que, mesmo no meio dos opressores, tem gente que nos apoia e está lutando em favor de nossas causas.

Acredito que essa seja a maior lição tirada deste filme. Antes de julgar um grupo ou alguém em específico, conheça-o primeiro. Conheça este grupo. Conheça as pessoas inseridas nele. Saiba que no meio dele existem pessoas preconceituosas, mas existem também pessoas que não são, e ainda que amam as pessoas “diferentes”, independente se elas são negras, amarelas, pobres, homossexuais, transexuais, travestis, bissexuais. Elas amam simplesmente pessoas.

Por fim, um trecho do filme que me trouxe bastante reflexões a respeito do que estamos vivendo.

- “Drac”, a gente está no século XXI. As pessoas não são mais como eram antes.
- E você pode me garantir que se nós aparecêssemos as pessoas nos aceitariam? Todas elas?
- Não…

Portanto, para refletir, quem são os verdadeiros monstros?