Seu cérebro não é um computador

então pare de tratá-lo como tal…

Temos um grande histórico em comparar nossos cérebros com máquinas. Descartes afirmava que o cérebro era uma espécie de bomba hidráulica, enquanto Freud comparou o cérebro com uma máquina a vapor. Nossa ideia sobre como o cérebro humano funciona nunca foi muito exata, mas a invenção dos computadores em 1940 nos deixou realmente confusos. Há mais de meio século, psicólogos, neurocientistas e outros especialistas em comportamento humano afirmam que o cérebro humano funciona como um computador.

Será mesmo?

Pense em um recém-nascido: ele está com seus sentidos, reflexos e mecanismos de aprendizagem afiados. Se alguma dessas habilidades faltassem, seria muito difícil sobreviver. Então, algumas informações já vem “codificadas” no nosso DNA. No entanto, o mesmo recém-nascido não nasce com informações pré-concebidas, como dados, regras, algoritmos ou programas.

Nós não armazenamos palavras ou imagens em uma memória RAM. Também não recuperamos informações a partir de registros de memória. Computadores fazem essas coisas com suas memórias físicas, que armazenam, recuperam e processam informações. Para isso, a informação primeiro tem que ser codificada em um formato específico, padrões de zeros e uns (“bits”) e organizados em pequenos pedaços (“bytes”). Os computadores seguem um conjunto de regras para manipular estas informações, chamado de “algoritmo” (ou programa, se você preferir). Um grupo de algoritmos que trabalham juntos para nos ajudar a fazer algo é chamado de aplicativo, como os que você tem no seu celular.

Tudo o que um computador faz é guiado por um algoritmo. E nós?

Para que o cérebro processe a informação, esta deve ser primeiramente armazenada. Existem vários tipos de memória, incluindo sensoriais, motora e de longo prazo.

São diversos passos: imagine um dia normal, onde milhões de estímulos ativam a sua memória sensorial. Algumas coisas são guardadas apenas por milisegundos, enquanto outras podem ser guardadas por mais tempo. Estas vão ativar a memória motora, que também é uma memória de curto prazo. Apenas as coisas que são transferidas para a memória de longo prazo são realmente aprendidas e entendidas, sendo guardadas no nosso HD. O grande interesse então está em acessar e alimentar a memória de longo prazo. Para aprendermos algo, geralmente há duas perspectivas:

1) Motora: aquisição de habilidades, ou seja, aprender os procedimentos, como conduzir um experimento, escrever um texto científico, etc;
2) Declarativa: aquisição de conceito, ou seja, entender as teorias, as leis e as ideias. É o conceito que está escrito no livro.

Esta distinção é importante porque estes dois tipos de memória são armazenados em locais diferentes no cérebro. A declarativa é armazenada no lóbulo temporal, enquanto a motora está no cerebelo. O problema no aprendizado é que coisas que você deveria estar armazenando no lóbulo temporal (declarativa), estão na verdade sendo guardadas no cerebelo (motora). Isso acontece porque você está armazenando informações mecanicamente, ao invés de aprender por entender algo.

Aquisição de habilidades

A chave desta forma de obtenção de habilidades é a repetição, seja quando você conta uma história no bar para os seus amigos ou como quando aprendeu a andar de bicicleta. Uma vez que você aprende, nunca esquecerá, e quanto mais vezes contar a história, melhor ela ficará. Talvez você tenha algumas dificuldades de acessar a informação depois de um tempo, como levar uns tombos da bicicleta, mas você ainda sabe como andar.

Por exemplo, você pode aprender a Tabela Periódica em menos de uma hora mecanicamente, usando aquelas frases de cursinho ou o famoso Palácio das Memórias de Sherlock Holmes, Patrick Jane e os concurseiros. Você poderá acessar a informação por estas técnicas, mas terá que revisitar seu Palácio das Memórias frequentemente ou ficar repetindo as frases mecanicamente até o fim da sua vida. Técnicas como estas são úteis para informações com prazo de validade.

Sue palácio da memória pode até funcionar…mas é melhor cuidar dele, se não…

Todos temos perda de memória… pelo menos eu tenho. Esta memória, mesmo de longo prazo, quando não acessada, se perde. Informações se tornam inúteis, como o aniversário daquele seu parente que o Facebook avisa todo ano. Somente o conhecimento que é relevante para nós e que é utilizado frequentemente é armazenado na memória de longo prazo. Por exemplo, a Josiane Lopes nunca lembra a data do nosso casamento (achou que era o contrário né?). Eu fiz ela colocar a data como senha para desbloquear o celular. O processo é simples: uma data que não tinha importância (deveria ter…mas tudo bem…) passa a ser utilizada diariamente em uma tarefa simples, como desbloquear o celular. Hoje ela sabe a data de cor.

Em experimentos com nossos amigos roedores, cientistas foram capazes de isolar e observar as ações do cérebro enquanto os ratinhos aprendiam uma nova tarefa. Os pesquisadores descobriram que quando dois neurônios interagem frequentemente é formado um vínculo forte, que transmite a informação com mais facilidade e precisão. Isso leva à memórias mais completas e mais fáceis de recordar. Por outro lado, quando dois neurônios raramente interagiam, a transmissão era muitas vezes incompleta, levando à uma memória com defeito ou sem memória.

Você deve estar mais ou menos assim neste momento…

Aprender algo novo muda a estrutura do cérebro. Como exemplo disso, considere o seu trajeto diário para o trabalho ou a escola. Você realmente não precisa pensar conscientemente, porque é uma viagem que você já fez tantas vezes que a memória de como “navegar” está enraizada. Os neurônios que controlam essa memória têm se comunicado tantas vezes que formaram um vínculo apertado, como um grupo de velhos amigos. Muitas vezes, ao caminho do trabalho, o meu cérebro está no “piloto-automático”. Mesmo dormindo eu acertaria o caminho.

Contraste sua viagem diária com a experiência de dirigir para um local que você nunca visitou. Para fazer esta viagem, seu cérebro tem que trabalhar muito mais. Você precisa obter direções, olhar pro GPS, discutir com o co-piloto que está te mandando virar pro outro lado, ver se é a rua certa para virar, prestar atenção aos outros carros e aí sim realizar o movimento. Neste caso, os neurônios não têm compartilhado sinapses frequentemente. Assim, eles se comunicam de forma incompleta ou ineficiente. Isso requer a formação de novas conexões dentro do cérebro, o que resulta em maior esforço consciente e atenção da nossa parte. Depois de algumas vezes fazendo o novo caminho, você estará novamente no “piloto-automático”.

Aquisição de conceitos

Ao aprender coisas novas, a memória é fortalecida pela frequência. Quanto mais praticamos e ensaiamos algo novo e quanto mais recentemente praticamos, mais fácil é para o nosso cérebro transmitir essas experiências de forma eficiente e armazená-las para acesso imediato mais tarde. Esse processo é chamado de fluência.

A memória pode ser fortalecida por múltiplas entradas sensoriais. Por exemplo, se você associar uma nova informação a um cheiro e um som, é mais provável que se lembre do que se tivesse apenas visto. Quer melhorar? Ao experimentar uma reação emocional (medo, raiva, ou amor), essa emoção se torna parte da memória e a fortalece. É por isso que você lembra com tantos detalhes daquela vez que passou vergonha na escola. Isso explica por que os eventos altamente emocionais — nascimento, casamento, divórcio e morte — se tornam inesquecíveis.

Lembrar eventos passados ​​não é como assistir a um vídeo gravado. É, antes, um processo de reconstrução do que pode ter acontecido com base nos detalhes que o cérebro escolheu armazenar e foi capaz de recordar. Eu sempre fico impressionado quando me lembro de alguma situação com um cheiro específico. O “recall” é desencadeado por uma sugestão de recuperação (neste caso o cheiro) que leva o cérebro a recuperar a memória.

O filme “Divertida-mente” faz uma analogia simpática e criativa em relação à forma que nosso cérebro funciona, misturando emoções, sensações e lembranças. As “memórias-base” vão se formando, informações inúteis são jogadas no lixo e os sentimentos vão comandando as nossas lembranças.

As memórias ligadas aos sentimentos, armazenadas em um labirinto: uma boa analogia

Há muito que não sabemos sobre cérebros, mas sabemos que eles não são mágicos. São apenas arranjos excepcionalmente complexos de matéria e possuem limites. Somos organismos, não computadores. A pesquisa recente do cérebro está destravando muitos dos mistérios da aprendizagem. Professores e educadores devem ficar a par destes desenvolvimentos para desenvolver novos métodos de aprendizagem com base na forma como o nosso cérebro aprende naturalmente.