Sexualidade e zonas de desconforto: rótulos que abraçam

O conselho do milênio é “saia da sua zona de conforto”. Livros de autoajuda, textos motivacionais, conselhos para expandir sua criatividade e a si próprio, tudo volta nisso: é só saindo da sua zona de conforto, que você consegue conhecer o seu verdadeiro potencial. Isso também ganhou força nas redes sociais com um episódio de Girls, que mostra por alguns segundos em close essa imagem:

E, de repente, lá estava eu e várias amigas usando isso aí de fundo no Facebook. Com o tempo, essa história de sair da zona de conforto (ou aquilo que as pessoas popularmente chamam assim) começou a me incomodar.

E se você não tem zona de conforto?

Ok, eu reconheço que isso talvez soe meio dramático. Mas pensa só: estar confortável é algo raríssimo para pessoas que não se encaixam nos padrões sociais. E aí podemos falar sobre pessoas trans, gays, gordas, negras… Sério, quando na vida uma pessoa que é discriminada, oprimida ou ao menos lida como esquisita e diferente se sente confortável?

O conselho do milênio, nesse contexto, acaba se tornando uma frase estagnante e frustrante. Sair da zona de conforto pressupõe que você tenha uma. Se eu nem tenho zona de conforto, por onde devo começar?

Fora da curva e fora da caixa

Nunca fui fã de rótulos. Mesmo quando era adolescente, eu não me sentia bem me afirmando como hétero, por exemplo, não porque eu sentisse atração por meninas, mas simplesmente porque eu não achava impossível isso um dia acontecer e me nomear hétero seria uma forma de finalizar o que eu sou. Eu sentia que era tudo muito fluido para que eu desse um nome.

Nomear é delimitar. E, para mim, rótulos eram uma forma de tentar encaixar em um molde algo que nunca caberia, pois ia muito além de qualquer categoria.

Mais velha, quando entrei em contato com as teorias queer, passei a me dizer queer justamente para não ter que me definir. E estava tudo bem assim, até que eu li sobre demissexualidade.

(Defini bem brevemente o conceito de demissexualidade aqui e de maneira mais extensa na Capitolina. Retomo aqui explicando que demissexualidade é o nome que se dá à orientação sexual de pessoas que só conseguem sentir atração sexual por alguém depois de formar um vínculo emocional/psicológico/intelectual.)

Conforme comentei lá em cima, sentir-se desconfortável é comum para qualquer pessoa cuja(s) identidade(s) fujam ao considerado normal. Isso é verdade para qualquer um que esteja “fora da curva”, mas vou focar aqui em demissexuais, por ser o que me diz respeito. Vai começar agora um breve relato de experiência, mas aguenta firme aqui comigo, que isso ainda vai fazer sentido pra você (ou não, mas eu espero que sim).

Imagina o que é crescer se sentindo diferente, esquisita, como se algo estivesse muito errado com você. É o tipo de sentimento que te desperta uma vontade oposta à que eu estava descrevendo: a de se encaixar em algum molde — ou, para manter a terminologia, a de encontrar uma zona de conforto. Mas eu não entendia o que havia de diferente comigo, me sentia fora da curva. Mulher cisgênera que se apaixona por homens. O que é que tem de incomum nisso, não é mesmo?

Era um descompasso: ao mesmo tempo em que eu me via igual a todo mundo, eu me sentia diferente e eu via nas minhas relações que as coisas não funcionavam da mesma forma que parecia funcionar para os outros. O que havia de errado comigo, então? Eu não me encontrava em nenhuma das categorias para pessoas diferentes. Estava fora da curva e fora da caixa.

Existindo em outro contexto

Foi aí que eu descobri que não era sobre por quem eu sentia atração, era a forma como eu sentia atração. Descobri que não sinto atração por desconhecidos; se acho bonito, é uma apreciação estética, mas vontade de pegar, transar mesmo, só se estiver envolvida emocionalmente. Não é o mesmo que não ter libido, esta existe independente de um direcionamento. A demissexualidade diz respeito apenas à atração, à maneira como a atração ocorre. É claro que eu já sabia que eu era assim, mas achava que era só um detalhe esquisito a meu respeito, não fazia ideia de que isso era uma manifestação de toda uma categoria de “frequência sexual” e nem tinha essa lucidez teórica que tenho hoje sobre como a coisa funciona.

Quando você cresce sua vida inteira se sentindo diferente, é como se você vivesse em outro contexto. Não é tão simples. É como se, para qualquer coisa que você quisesse dizer ou fazer nas suas relações, você tivesse que, antes de mais nada, aprender a lógica dos outros, para, assim, ter alguma noção de quais efeitos suas palavras e ações iriam causar.

Em menor grau, isso acontece com qualquer um, individualmente. Todas as pessoas são diferentes umas das outras e algo que te faz sorrir pode fazer outra pessoa ficar irritada. É outro nível, no entanto, quando isso ocorre em uma escala mais macro, quando não se trata apenas de relação com o indivíduo, isso é uma relação sua com o resto do mundo — o indivíduo é só mais uma camada.

Olha, isso dá um trabalhão. Primeiro, porque você não sabe que você é diferente, então, você não sabe que o que você está fazendo está sendo lido de maneiras que não são as que você espera ou tem intenção. Você se sente um 
ET quando sua amiga te aponta um cara gato e você nem sabe exatamente o que é um cara gato, porque você não sente isso. Segundo, depois que você aprende que você é sim diferente, você precisa estudar como a vida funciona no mundo dos ditos normais, tanto para ser compreendida quanto pra compreender os demais e, assim, viver sem ser descoberta como ET (porque ET você continua sendo).

Em outras palavras, ser diferente nos faz ser mal interpretados e interpretar errado as atitudes dos outros o tempo todo, porque nós as contextualizamos da maneira que enxergamos o mundo e 1) ou não sabemos que não é todo mundo assim ou 2) não conseguimos entender como é todo mundo, então.

É uma experiência muito solitária. Porque você vai desabafar com seus amigos, mas seus amigos não funcionam como você, não entendem o mundo como você, não enxergam as coisas como você, enfim, não operam na mesma lógica que você. E aí eles não entendem, não conseguem te ajudar e você fica com cara de :| , se sentindo mais esquisita ainda.

É nesse momento que rótulos se tornam bem-vindos.

Rótulos que abraçam

Escrevi no meu texto para a Capitolina que, quando descobri a demissexualidade, foi a primeira vez que me senti abraçada e não aprisionada por um rótulo. Recebi muitos comentários e mensagens de pessoas que eu nem conhecia grifando essa passagem e dizendo que se sentiram assim também. Desde então, em contraponto ao que sempre acreditei, penso muito sobre a utilidade dos rótulos e aqui eu quero tratar de duas:

1. Comunidade e sensação de pertencimento

Descobrir que você é mesmo diferente, mas que, ao mesmo tempo, existe mais um monte de gente que nem você te faz sentir parte de algo pela primeira vez na vida quando você cresceu se sentindo ET. Identificar-se é pertencer.

Além da sensação de pertencimento, que já é maravilhosa por si só, você tem, pela primeira vez também, a oportunidade de trocar experiências e debater com pessoas que a) não invalidam sua vivência e b) entendem de verdade como você está se sentindo. Isso é poderoso. Poder falar abertamente sobre a maneira como você se sente sem ser questionada a cada passo te permite ir a fundo no tema e aprender sobre si mesma.

Boa parte de qualquer processo de aprendizagem se dá pela interação. Nesse caso, a interação me foi e tem sido essencial para o autoconhecimento. E autoconhecimento é poder. É ele que te permite fazer escolhas conscientes, informadas, e se arriscar com confiança e não com medo.

Quando explico que sou demissexual, muitas pessoas, bem-intencionadas, me falam: “mas você não precisa se limitar a isso”, como se esse traço da minha identidade fosse uma frescurazinha minha, que eu pudesse mudar a qualquer momento e como se essa descoberta de uma zona de conforto fosse uma maneira de eu não me arriscar. O que elas não sabem é o quanto me sentir pertencente e confortável me abriu pro mundo e me permitiu mais riscos do que não saber quem eu era. Encontrar um rótulo no qual você pode se encaixar e, enfim, descobrir uma zona de conforto é libertador, porque autoconhecimento é libertador.

Não confunda liberdade com transar com todo mundo. Liberdade é poder de escolha. Saber no que se baseiam nossas próprias escolhas é essencial.

2. Comunidade e militância

Encontrar-se em uma categoria te dá uma coisa muito óbvia: identidade de grupo. Cada indivíduo lá dentro tem outros traços identitários, há pessoas de tudo que é tipo. Mas nos unimos por algo em comum.

Esse pertencimento a uma comunidade é o que motiva qualquer grupo de militância e, nesse caso de pessoas dentro do espectro assexual, a luta é por visibilidade e respeito (o questionamento da existência da categoria é por si só desrespeitoso).

Há muita discussão sobre se o que pessoas do espectro assexual sofrem pode ser chamado de opressão, já que não apanhamos nem somos assassinados na rua. O que sofremos se resume a apagamento, deboche e bullying na internet (já recebi várias piadinhas, todas deliciosas, e torço sempre por mais criatividade do que Demi Lovato nas próximas vezes).

Considero que esses são uns dentre muitos tipos de violência. Chamar de opressão talvez seja pesado demais, mas não me sinto no direito de dar pitaco em como cada um classifica o próprio sofrimento, nem acho que o sofrimento alheio deveria ser pauta para debate. Ninguém ganha nada com isso e, frequentemente, serve apenas para causar mais dor. Tenhamos mais empatia.

Conclusão — Você não precisa entender, mas respeito é sempre bem-vindo

É muito fácil falar de desconstrução quando se tem acesso aos construtos disponíveis, especialmente quando é o padrão. Quando você já se sente sempre desconfortável, não tem nada que você queira desconstruir, você quer é ser como os outros mesmo. Quer de qualquer jeito encontrar uma zona de conforto, nem que seja pra um dia conseguir entender o que é que tem de tão mágico em sair dela depois.

Rejeitar rótulos e achá-los limitadores só faz sentido quando não é a você que um rótulo define (e abraça), quando não é você que passa a sua vida se sentindo diferente. E, por fim, você não precisa se encaixar em rótulo nenhum se não se sente abarcado por nenhum deles, mas respeite a busca por pertencimento dos outros. Como quase tudo na vida, você não precisa entender nem concordar, basta respeitar.