Simples sem ser simplório

Assim como existe o bem e o mal, o certo e o errado, justo e o injusto, o simples e o simplório devem coexistir. É a única forma de compararmos e termos um consenso do que é simples. Apesar de que simplicidade pode ser muito subjetivo.

A complexidade da simplicidade

Do ponto de vista de um produto, conseguir um resultado simples exige muito esforço, experimento e testes. Diria que tem uma leve semelhança com o conceito de desconstrução, não consigo simplificar algo sem ter feito nada. É preciso construir algo, tangibilizar o que a princípio seja necessário, e então começar a redução e manter apenas o significativo.

Apesar de todos saberem sobre simplicidade, na prática ainda existe uma barreira. Geralmente pensam que algo simples não vende, as pessoas não gastariam mais por algo que oferece menos recursos.

Mas, podemos exemplificar que algo simples vende — e na maioria das vezes vende mais — é o caso da Apple com o iPod.

Apesar da Apple se inspirar muito na Braun (principalmente o iPod), eles também entenderam a importância do simples e criaram um produto funcional e ainda mais caro que os concorrentes e mais limitado.

O Steve Jobs tinha uma característica de limitar os produtos, seja em periféricos ou funcionalidades.

Só que mesmo simplificando, as pessoas compraram e até hoje, o iPod domina quase todos os rankings, e não só em primeiro com o iPod touch, mas em segundo e terceiro (com outros modelos).

Um ponto forte e talvez a principal na simplicidade, é que ela torna o produto consistente, duradouro. O iPod já tem aproximadamente 15 anos e com exceção dos modelos touchs, houve pequenas melhorias, mas todos iPods seguiram seu conceito simples e a forma de navegar.

Outro exemplo óbvio, é o buscador do Google. Passados 16 anos ainda continua com a mesma simplicidade.

Agora, qual o tempo para a maioria dos sites/produtos que vemos ou até mesmo fazemos terem cara de ultrapassado?


Questione

Uma coisa que geralmente recebemos ou queremos fazer é: criar algo extremamente simples mas ao mesmo tempo fazer tudo que o usuário gostaria que fizesse.

O livro “As leis da simplicidade - John Maeda” cita algumas formas de pensar acerca de criar algo simples e uma delas é até que ponto eu posso simplificar e em contrapartida, até que ponto tem que ser complexo?

Um exemplo bastante interessante é o assistente virtual da Amazon, Echo. A partir desse raciocínio, eles simplificaram ao ponto de não existir uma interface, e por outro lado existe um algoritmo bastante complexo. Mas pelo fato de ter um produto final simples, o complexo se torna invisível para o usuário.

Quando um produto inicia com um conceito simples, mesmo com melhorias futuras, por exemplo, o Google com busca por voz e resultados preditivos, a Amazon também poderia integrar a função do Dash Button com a Asana, e você pedir algum produto do estoque da Amazon apenas por voz e receber no mesmo dia.


Confiança

Ao contrário do que alguns pensam, simplicidade não é algo pontual ou periférico. Não é só o Design que resolve um produto confuso e complicado.

É preciso ter o pensamento nos três pilares de um produto. No Design você consegue sim reduzir funções, hierarquizar conteúdos, mas com a Tecnologia cria o equilíbrio com a complexidade e o Negócio precisa ter uma estratégia, proposta de valor simplificada e consistente.

Um exemplo conhecido é o NuBank. Um produto bastante simples não só por ser um app fácil e funcional, mas a proposta também é criar algo simples.

“Estamos começando uma jornada para reduzir a complexidade que encaramos todos os dias ao lidar com o nosso dinheiro.”

A coisa mais complicada e delicada é o dinheiro das pessoas, mas quando você cria algo simples e fácil, as pessoas confiam, acreditam.

Ter um produto ou o atendimento que entrega algo leve e fácil, além de agilizar a vida das tempos, traz confiança e consequentemente atraí mais pessoas.


Complexidade S2 Simplicidade

Já está bastante claro a necessidade da complexidade, mas nem sempre algo começa complexo e resulta em algo simples. Pode ser ao contrário também.

E um exemplo disso é o app Paper para iPad. Na época em que lançou, já existiam muitos outros apps do mesmo seguinte.

Mas enquanto os apps brigavam para ver quem tinha mais funcionalidades, eles vieram com uma proposta de simplificar.

E o valor no produto era: É aqui que nascem suas ideias.

Então por que gastar tempo escolhendo uma das infinitas cores possíveis ou pincéis, se o tempo deve ser gasto com o que vou produzir?

O tempo é valioso e tornar algo simples otimiza seu tempo resolvendo problemas.

E por isso, a escolha é algo que precisa ser considerado. Tem um termo interessante utilizado na psicologia chamado “fadiga decisória”, que é quando você tem muita opção de escolha e isso deteriora sua decisão de escolha.

Outro ponto importante na decisão, quando queremos comprar algo que existe muitas opções, passamos até dias decidindo e mesmo depois de muito pensar, não temos total satisfação pelo qual escolhemos. Pelo fato das várias opções, faz você pensar que talvez poderia ter comprado o outro e não esse. Perdemos a alegria pelo que adquirimos.

Em contrapartida, o Google Maps é algo extremamente complexo, como criar as combinações de variáveis para criar um trajeto do ponto A ao B. Mas, entrega algo simples e fácil de usar.


Foto. Glen Carrie

Espaço

Esse ponto em particular, poderia gastar muito tempo falando sobre, mas não é o momento.

O espaço em branco te ajuda a dar foco na informação, ajuda a criar ordem ao caos, e também a criar uma história.

Quando você quer dizer tudo ao mesmo tempo, acaba não dizendo nada.

Uma metáfora que explica bem esse conceito:

Quando você está sem sono durante a madruga. O ambiente é quase pleno silêncio, mas o menor dos barulhos te incomoda. Seja o tic tac do relógio ou o nhéc (tentativa de uma onomatopéia transcrita) do ventilador.

Mas esses barulhos fazem o dia todo, o relógio nunca pára de trabalhar, mas você não percebe pelo fato de outros ruídos, por exemplo, carro, televisão, sirene etc.

Quando há espaço, você percebe coisas que antes não percebia. Criar respiro para as informações é essencial para te dar a certeza que as pessoas entenderão.


Contexto

“Menos, porém melhor.” Dieter Rams

Essa frase já se tornou clichê, e vale não só para criar produtos, mas para a vida também. Só que nem tudo pode ser simples, tudo é questão de contexto.

No TED do John Maeda, ele ilustra muito bem a questão de contexto:

Se você oferecer para uma criança, um biscoito grande ou um biscoito pequeno, obviamente, ela escolherá o biscoito grande. Mesmo que você diga que o biscoito pequeno contém gotas de chocolate godiva. Mas mesmo assim, vai querer o biscoito grande.

Agora, se você oferecer duas pilhas de roupas lavadas para passar, sendo uma grande e uma pilha pequena, com certeza, ela escolherá a pilha pequena.

Quando você quer mais, é porque você quer aproveitar. Quando você quer menos, é porque envolve trabalho.

Simplicidade tem a ver com viver a vida. Aproveitando mais e sofrendo menos.

Por isso que…

Foto. Marcelo Quinan

…Nem tudo pode ser simples

Aurora Boreal, por exemplo. É um fenômeno bastante complexo mas que surpreende e impacta muito mais comparado a um céu pouco estrelado e com um tom azulado.

Tudo é questão de entender momento, pessoas, contexto, negócio etc. Assim como na vida não existe fórmula, simplicidade também não.


Referências/Livros

As leis da simplicidade - John Maeda
O paradoxo da escolha - Barry Schwartz
Essencialismo - Greg McKeown
O arte da escolha - Sheena Iyengar