Síndrome de Garanhuns

Como nos tornamos reféns de homens que podem nos destruir.

Um dos fenômenos psicológicos mais estranhos catalogados pela ciência é a tal da Síndrome de Estocolmo. Ela é observada depois que pessoas submetidas a longos períodos de intimidação ou cativeiro começam a exibir simpatia, e até amor, por seus captores. Eu precisaria da ajuda de um psicólogo para tentar explicar quais engrenagens se soltam nas mentes dessas pessoas, mas talvez ela sirva de plataforma de lançamento para o surgimento de outra síndrome, que vêm acometendo os brasileiros, e que eu, do alto da minha nula experiência como terapêuta, apelidei de Síndrome de Garanhuns.

Minha opinião sobre as eleições de 2018 já não é novidade pra ninguém. É o evento mais triste e sombrio que eu presenciei nas 4 décadas de votante que eu acumulo. Se é que essa figura de linguagem existe, é o ápice do fundo do poço. Salvo alguma ameaça intergalática ou ataque de abelhas assassinas se instale na nação nos próximos dias, teremos Bolsonaro X Haddad no segundo turno, e talvez o Capitão liquide a fatura na primeira rodada.

O que me impressiona é a voracidade e a volúpia com que o brasileiro vêm abraçando a candidatura Bolsonaro. Nenhum argumento, nenhuma evidência, nenhuma fala mal colocada, nenhuma campanha de internet parecem colocar em xeque a fé ferrenha que o povo está depositando nele. Mesmo sem que o cara poder das as caras nos debates.

O que me lembra do outro lado do campo de batalha: o de Lula.

Lula, e não Haddad.

Quando eu penso na situação que o Brasil se encontra, eu não consigo encontrar um culpado maior por tudo do que Lula.

Aqui, preciso ser cuidadoso com a campanha, porque os Lulistas existem, e em quantidade e ardor suficientes para alçar um candidato fraco e desconhecido de boa parte do povo à segunda colocação, em questão de uma semana.

Quem tem algum resquício de memória de médio prazo vai se lembrar do Lula de alguns anos atrás, surfando numa popularidade astronômica de quase 90% do povo. Recebendo tapinhas nas costas de Obama. Figurando em capas de revistas internacionais. Assumindo pra si o B de BRICs nas conferências internacionais.

Lula conseguiu vender de forma quase perfeita, para todo mundo, a imagem do underdog nacional. Do cara que apanhou igual ao Rocky Balboa, mas que levantou pra dar o último soco, quando todos achavam que a briga estava perdida.

Pouca gente lembra que, após o mensalão, decretaram o fim da Era Lula. Era só aguardar para ele cair de podre. Lula e o PT eram cartas fora do baralho.

Pois foi só ficar esperando o cara cair, que ele se reergueu maior do que nunca. Tamanha era sua força política que ele nem se preocupou com as aparências. Ele e seu partido meteram a mão o mais fundo que conseguiram no maior escândalo de corrupção já apurado no mundo.

E ainda assim, conseguiu eleger uma sucessora que tinha (e tem) o carisma de um poste. Apagado. Duas vezes. Usando apenas sua recomendação.

Após o impeachment de Dilma, com todas as entranhas do partido expostas em praça pública, e pior ainda, preso por corrupção, Lula ainda conseguiu pautar os rumos dessa eleição inteira.

Sim, porque esta é claramente um eleição do Lula, materializado no corpo de boneco de ventríloquo de Haddad, contra o anti-Lula, personificado em Bolsonaro.

Como chegamos a esse ponto?

De início, é preciso reconhecer: não foi sem ajuda.

Todas as vezes em que Lula foi ferido, contou com uma condescendência sem tamanho daqueles que deveriam ser seus opositores. Já é clássica a suposta frase de Sérgio Guerra durante o mensalão, de que seria melhor deixar Lula “sangrar até a morte” do que bater nele (metaforicamente) publicamente.

Traço característico da política brasileira é que não se pode falar mal de um candidato com muitos seguidores. O medo é mirar no primeiro, e perder o apoio do segundo. E que se dane a ética. Até em 2018, mais de um candidato fez questão de frisar que era “ministro do Lula”, que ele estava “injustamente preso”.

Até hoje não superamos a ditadura do coitadismo que ele implantou. Todos os candidatos precisam frisar (ou inventar) suas origens humildes, sua luta e sofrimento. Qualquer tipo de exibição de prosperidade é visto como ostentação e prova inconteste de que aquele candidato pertence “às elites”, e que portanto, não se preocupa com o país.

No afã de escapar da culpa, Lula criou uma conspiração nacional, um complô cinematográfico que envolve as tais elites, a mídia, o judiciário, os partidos, os americanos, e todo mundo que não o idolatre.

Como qualquer pessoa que eleva a si próprio à categoria de santo, Lula tratou de eleger um anticristo pessoal. O nome mais à mão era um deputado falastrão, com pouca expressão, ligado ao baixo-clero, com todos os defeitos nos lugares certos: seu nome era Jair Bolsonaro.

Para não nos desviarmos das comparações religiosas, Luiz Inácio teve seu momento Moisés, e com o cajado da autopreservação do próprio rabo na mão, dividiu o país em dois, bem no estilo que ele consagrou: como nunca antes na história.

Há pelo menos 4 anos o Brasil sofre um cozimento lento e gradual, onde toda e qualquer pessoa que não concorde com qualquer parte do ideário dogmático de uma esquerda que perdeu totalmente o rumo é chamada de coxinha, de tucana, de privatista, e principalmente, de fascista.

Não é de se estranhar que o povo, mantido pobre e burro por quem sempre soube aproveitar o ronco das barrigas e o vácuo cerebral à seu favor, agora não consiga mais diferenciar quem é de verdade, o fascista. Fascista é Aécio? Fernando Henrique? José Padilha? Lobão? Ou Bolsonaro?

As frases parecidas que servem para explicar os votos das duas pontas: “Se todo mundo é ladrão, prefiro quem colocou comida no meu prato”, ou “se todo mundo é fascista, prefiro aquele que parece mais honesto”.

Lula manobrou o judiciário como poucos: mesmo sabendo que não concorreria, manteve a farsa tempo suficiente para ser confundido com Haddad (numa clara exibição de quem entende a burrice do povo como poucos). Depois de ter apeado da cabeça da candidatura, manteve sua figura em evidência na campanha de forma abertamente ilegal, seguro da leniência e lerdeza da justiça eleitoral. Escondeu o nome de Manuela Dávilla a tamanhos dignos de bula de remédio. Não é um exercício intelectual muito sofisticado afirmar que boa parte dos seus eleitores vota numa ilusória chapa Lula/Haddad.

A imprensa fez sim, sua parte. Em todas as interações com Bolsonaro, ao invés de se ater à falta de preparo do sujeito, preferiu focar nos temas polêmicos que ele não só domina, mas que tem o apoio do povo. De repente, aprendemos que nosso país não é composto de matutos bondosos, é cheio de gente que arde de raiva de tudo, o tempo todo.

As pesquisas ajudaram. Fizeram questão de incluir Lula em todas, desde o princípio, ainda que sua participação estivesse sub judice, e que todas as apostas da mesa indicassem que não seria validada. Se era fictício, porque não colocar Elvis de uma vez nas perguntas?

Em uma frase de Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, Alfred fala para Bruce Wayne, sobre seu arqui-inimigo. “Você os desafiou, senhor. E no desespero deles, eles se voltaram para um homem que eles não entendem completamente”. Me parece completamente adequada para nosso momento.

Jair Bolsonaro é o Coringa da eleição 2018.

Ninguém sabe exatamente o que esperar dele. As classes média e alta temem a falta da liberdade, a truculência e a tortura. Mas nem por um momento pensam de verdade que os pobres desse país já tem suas liberdades cerceadas, sofrem torturas diárias e a truculência virou um modo de vida. Aquilo que você teme é o dia-a-dia deles.

Poderia ter sido evitado

O leite já está pra lá de derramado. As lições não valem quase nada. O futuro é dos mais desalentadores. Mas seria o caso de as oposições se recolherem aos seus cantos, lamberem suas feridas, e prepararem seus mea-culpas.

Se o PSDB tivesse se afastado o quanto antes do PT, e escolhesse a ética, principalmente expulsando sumaria e publicamente Aécio, poderia ser visto como oposição ao invés de confundido como farinha do mesmo saco. Poderia ser visto como algo diferente.

Se as esquerdas entendessem que o chingamento, o linchamento moral e o tom professoral que adotaram como comportamento apenas os afastaram daqueles que eles dizem proteger, se dessem um pause nos movimentos identitários que sim, são importantes, mas que perdem sentido no meio dos cadáveres dos 60 mil mortos e 13 milhões de desempregados que carregamos todos os dias, talvez eles pudessem disputar a simpatia do povo, e não o seu asco.

Se o PT tivesse refundado o partido como diz que pretende refundar o Brasil em seu programa de governo, assumindo a montanha de cagada que seus membros fizeram, se afastassem das práticas desse povo que ainda vive em 1968, se ele voltasse a passar a verdade em suas falas, talvez ele pudesse reconhecer que o momento era de dar um passo pra trás em nome do país. Mas a verdade é que o PT nunca foi bom nesse jogo de ser menor do que o Brasil. A verdade é que o PT escolheu Bolsonaro pra ser seu antagonista por acreditar que tem mais chance contra ele. E essa empáfia pode sair cara.

A eleição é em poucos dias, e pelo tom do meu texto, é certo afirmar que minhas esperanças ficaram para trás, largadas em algum post de Facebook que eu apaguei antes de mandar.

A se confirmar a vitória de qualquer uma das duas forças que parecem ter fôlego à essa altura do campeonato, eu não tenho mais o que dizer, nem motivo pra isso. Tudo já foi dito. Democracia tem essa coisa de termos que aceitar a vontade da maioria. Ainda que não faça o menor sentido.

Sinto que os dias de otimismo, de rodas de amigos plurais, das discussões políticas saudáveis estão mais longe do que jamais estiveram.

Me preparo, como quem veste um terno velho no corpo de um parente morto, pra velar o Brasil.