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Sobre a necessidade ou a oportunidade de empreender

E ainda sobre a criatividade do brasileiro em iniciar um negócio

Eu me mudei recentemente para São Paulo e se você quiser saber mais sobre essa história pode ler esse texto aqui. Mas alguns leitores por aqui já me conhecem e eu queria ir direto ao ponto.

A verdade é que como para mim tudo é uma novidade, acabo observando e construindo olhares sobre situações que para a maioria dos moradores de mais longo prazo talvez já sejam cotidianas.

Ando muito pela Rua Augusta a noite e pelo pouco que eu entendi de São Paulo, eu moro no lado do Baixo Augusta. Tem a Augusta dos Jardins — que seria o lado rico, certo? E a Augusta dos bares, baladas, prostituição e etc. Pois é, eu moro desse lado aí e para ser honesta, eu adoro. Não sei se gostaria de morar do lado de lá.

Na verdade, sempre penso se a Avenida Paulista é de fato um Muro de Berlin — lado de cá e lado de lá. Talvez seja, talvez não. Ainda não estudei suficientemente para me posicionar sobre isso, mas aí é papo para outro texto.

Mas o ponto que eu queria destacar é a criatividade dos seres humanos que habitam essa cidade e suas habilidades empreendedoras. E aí eu digo “habitam”, pois já entendi que muita gente que mora aqui não necessariamente nasceu aqui. São Paulo parece acolher a todos sem distinção.

Certa noite eu caminhava com meu noivo pelo Baixo Augusta, voltando de um restaurante espanhol que tem perto da Paulista. Muito atenta, observando tudo à minha volta, já havia reparado que vários vendedores ambulantes costumam ficar pela rua vendendo tequila, cerveja, catuaba e diversos outros tipos de bebida.

Pequena observação: achei muito estranho as pessoas beberem catuaba. Não temos esse hábito no Rio e me espantei um pouco ao ver as pessoas abraçadas com essas garrafas. Mas vamos seguir.

E não existe outra forma de contar essa história a não ser sendo bem direta. Em meio aos ambulantes vendendo bebidas, encontrei três jovens vendendo pirulitos de chocolate em formato de pênis e vagina.

E para quem achar que eles estavam tímidos em um canto, puro engano. Eles riam, se divertiam e propagavam aos quatro ventos os seus produtos.

Segura essa informação que eu quero contar uma outra história.

Troquei caminhar na Avenida Atlântica por caminhar na Avenida Paulista aos domingos. E confesso que a experiência vem sido incrível (quando há sol, claro).

Um dia eu e meu noivo assistimos um cantor, entre milhares deles. Parecia fazer um cover de Tim Maia. Uma apresentação bem bacana, mas nada surpreendente. Confesso já ter visto algumas espetaculares por lá.

Em outro fim de semana caminhando por lá, vimos que tinham pessoas vendendo um instrumento para fazer bolas de sabão gigantes, algo bem legal e que eu já tinha visto no Rio também. Para nossa surpresa, quem era um dos vendedores? O cantor cover do Tim Maia que tínhamos visto há algumas semanas atrás.

E qual a ligação entre pênis de chocolate, Tim Maia e bola de sabão?

São Paulo não tem medo de empreender, inovar e botar a cara. Me lembra a frase de Simba, em O Rei Leão: “eu rio na cara do perigo”. A galera aqui ri na cara da crise. Se reinventam quando algo não dá certo, não desistem de ir lá e tentar novamente, não tem medo de pegar no pesado.

As pessoas chegam na Paulista e põe a cara a tapa. Vendem aquilo que elas tem de melhor a oferecer. Habilidades na cozinha, no artesanato, na música… Não tem tempo ruim. Aliás, até tem o frio e a garoa. Mas não importa, elas estão lá.

Não estou querendo dizer que no Rio de Janeiro também não seja assim. Existem inúmeros casos que eu poderia relatar. Mas talvez por tudo aqui em São Paulo ser novo e diferente para mim, talvez tenha saltado mais aos meus olhos essa raça e determinação.

Anualmente, em 80 países, é realizada a pesquisa GEM (Global Entrepreneurship Monitor). Nessa lista de países está incluso o Brasil, onde a pesquisa é realizada por uma iniciativa que reúne diversas instituições. Uma das análises feita pela pesquisa tem como base a distinção entre dois tipos de empreendedorismo: o empreendedorismo por necessidade e o por oportunidade.

Empreendedores por necessidade são aqueles que iniciaram um empreendimento autônomo por não possuírem melhores opções para o trabalho e precisam abrir um negócio a fim de gerar renda para si e suas famílias.
Já os empreendedores por oportunidade optam por iniciar um novo negócio, mesmo quando possuem alternativas de emprego. Eles têm níveis de capacitação e escolaridade mais altos e empreendem para aumentar sua renda ou pelo desejo de independência no trabalho.
(fonte da definição neste link)

E os dados da pesquisa de 2015 podem muito bem vir a explicar esse fenômeno dos pirulitos eróticos de chocolate e o cantor que também é vendedor de bola de sabão.

Em 2014, 71% dos empreendedores iniciavam um negócio por oportunidade. Em 2015 essa taxa caiu para 56%. A conjuntura econômica contribuiu para que mais empreendedores começassem seus negócios por uma questão de necessidade e sobrevivência e não necessariamente por vislumbrarem uma boa oportunidade.

E outro dado ainda extremamente relevante para essa análise é que a desigualdade de gênero também se manifesta em meio a crise, pois foram as taxas das mulheres que mais contribuíram para essa queda da média. Em 2014, 36% das mulheres que empreendiam era por necessidade. Mas em 2015 essa taxa subiu para 54%.

Confesso que não conversei diretamente com a menina que estava no grupo vendendo os pirulitos eróticos. Não sei se ela achou que a Augusta seria uma oportunidade para deslanchar seu negócio ou se ela realmente precisava vender os pirulitos para se sustentar (e por que não se divertir ao mesmo tempo?).

Mas a verdade é que no último ano as motivações para se iniciar um negócio mudaram bastante. E a Avenida Paulista lotada de barraquinhas, artistas e empreendedores parece ser um retrato fiel desse cenário. E a criatividade? Um grande plus do jeitinho brasileiro.


Gostou? Recomende e compartilhe! Vamos descobrir mais formas criativas de se empreender. Já fez algo semelhante? Empreendeu por necessidade ou oportunidade? Compartilha com a gente sua história nos comentários!