Sobre a série YOU e várias tretas.

Lifetime/Divulgação

Antes de começar seria bacana você já ter terminado os dez episódios, até para dividir comigo sua opinião. Se ainda não viu e mesmo assim quer continuar lendo, prometo me esforçar e não soltar muitos spoilers.

Vou citar uma referência inicial para contextualizar a angústia: até hoje não consegui assistir todas as temporadas de Black Mirror porque tudo ali causa em mim um misto de desespero e neura. São situações tão absurdas quanto possíveis que me travavam o estômago e a cabeça.

Voltando agora de viagem li pessoas comentando sobre YOU no Twitter, comparando com estas mesmas sensações, e resolvi embarcar.

A trama tende a fazer nossa atenção focar nos protagonistas mas, é fato que a série mostra diversos relacionamentos abusivos em núcleos e momentos diferentes, a maioria coroada com violência e machismo.

(Você que ainda não viu, talvez seja hora de parar de ler. Te perdoarei por isso).

Em sua maioria, os gatilhos de abusos vêm dos personagens homens e heterossexuais:

  • Conseguimos ver boy's que tratam a mulher como objeto e contam vantagens sobre isso — um clássico.
  • Figuras de pais e padrastos que justificam violência como proteção e cuidado. E abandonam suas famílias.
  • Chefes e empresários bem-sucedidos que tentam fazer uso do poder para assediar e prejudicar a carreira de mulheres.
  • Aquele tio que todo mundo adora e que desde a sua infância tenta te passar a mão e dizer coisas nojentas e pavorosas.
  • E, por fim, o cara que parece perfeito e tem atitudes doentias, como ciúme, perseguição e possessividade, mas jura fazer tudo por amor e preocupação.

Este último descrito é o protagonista, no caso. E o mais louco de tudo é que em alguns momentos a história tenta fazer com que você goste dele e entenda que toda a violência é justificável.

"toda vez que você
diz para sua filha
que grita com ela
por amor
você a ensina a confundir
raiva com carinho
o que parece uma boa ideia
até que ela cresce
confiando em homens violentos
porque eles são tão parecidos
com você"
— aos pais que têm filhas *

YOU me deixou mais angustiada porque é real. Com algumas horas de pesquisa, capaz até de acharmos casos parecidos nos portais de notícias por aí.

Que sirva como um alerta urgente. Principalmente agora, quando nosso novo governo pretende liberar o porte de armas, o que provavelmente vai elevar nossos números de feminicídios para o topo.

Melhor parar por aqui, sem mais spoilers.

Para as manas que já viram ou pretender ver: se cuidem e confiem nas suas amigas, sempre.

*Rupi Kaur, Outros jeitos de usar a boca - 2015.