Sobre "As águas-vivas não sabem de si", de Aline Valek

E memórias inventadas da espécie humana

Fonte: Patrick Fischer (@pfish) / Unsplash.com

O último capítulo é muito bom. Nem quero começar de trás para frente. Esse é um livro para ler com calma. Onde se esperam referências a Júlio Verne ou Lovecraft, surgem referências cruzadas com outros capítulos do próprio livro. Habitat propício à pareidolia. Mas deixa eu indicar aqui:

Um traje vazio afundando devagar no escuro. Um acidente, mais um pedaço de lixo enviado pela superfície, uma oferenda. Uma coisa sem significado, uma mensagem pela metade, uma resposta, uma tentativa de contato. (Capítulo 18, primeiro parágrafo)

Autora conclui com uma antropomorfização do oceano máximo vestido de gente, que diz: “Dentro do traje, eu esperarei por esse dia.”

E é assim com os animais no livro. Eles são o que são. Estão lá, sentem a si mesmo, sentem os outros animais, mas a memória também é eles mesmos. Enquanto isso, os humanos estão esquecidos de si, mas concentrados em tentar um dia existir em memórias, em livros. Basicamente, esqueceram-se de todo seu corpo animal.

Pouco antes de abrir o livro As águas-vivas não sabem de si, de Aline Valek, ouvi no Não Obstante um episódio sobre Villém Flusser. Um dos assuntos discutidos no episódio é o Vampyroteuthis Infernalis, texto de Flusser sobre uma criatura hipotética (embora inventada a partir de uma carcaça de um animal real). O filósofo tenta descrever como o tal Vampyroteuthis viveria, comparando as informações que tem sobre o animal com o que sabemos sobre nós, humanos. Na verdade, Villém Flusser está estudando o humano através de alegorias. E é isso que Aline Valek entrega em As águas-vivas não sabem de si.

Mas vamos aos trabalhos do princípio.

O Livro

As águas-vivas não sabem de si, de Aline Valek, publicado pelo selo Fantastica da Rocco em 2016.

As águas-vivas não sabem de si, de Aline Valek, publicado pelo selo Fantastica da Rocco em 2016. A edição física conta 296 páginas.

A história se passa no ambiente fechado de uma estação de pesquisa no fundo do mar, chamada Auris. Nela, cinco pessoas com habilidades e responsabilidades distintas trabalham individual e coletivamente para finalizar suas coletas de dados, análises e avaliações em prazo definido por um patrocinador qualquer.

A atmosfera do livro me levou a pensar que a história se desenvolveria como uma ficção científica de investigação, onde cada personagem é um ultraespecialista em sua área e serve a um propósito nos procedimento de indução e dedução. Mas não.

O tom do livro se desenvolve na solidão e separação dos indivíduos, que são cumprimentados todo dia como um coletivo: "Bom dia, Auris". A trama escorrega para fora da história das cinco personagens e se esparrama pelo mar, pelos animais marinhos e pelas imagens hoje subconscientes dessas criaturas.

Um lado ruim? Eu poderia argumentar que é muito texto para pouca história. Há história de sobra, claro. Mas ela não preenche o tempo cronológico a que o livro se põe a narrar. Talvez nem esteja no próprio livro e eu tenha imaginado ela toda.

Títulos

A história é dividida em duas partes: Auris e Abismo. Se há um divisor de águas (péssimo trocadilho) no livro, eu diria que ele leva a pensar que o segredo da história está dentro da Auris na primeira metade, e dentro do abismo na segunda. O segredo — ou os segredos — das personagens do livro, no entanto, não chegam a ser o foco da história.

A narração trata das dúvidas de Corina, a personagem principal que sofreu um acidente em um trabalho anterior; de um projeto com possíveis riscos colaterais para toda a tripulação; da dificuldade de trabalhar em grupo e confiar no grupo; da cegueira da idealização, que impede de enxergarmos o que procuramos em outras formas; e, principalmente, da vida em torno da estação.

Os capítulos que nos apresentam esses outros seres do mundo subaquático são, nesse ponto de vista filosófico, mais interessantes.

Polvo, Ancestrais, Eremitas, Azúlis, Espectro, Águas-Vivas, Oceanos… seres, ou melhor, entidades que dialogam silenciosamente com nossos cinco pesquisadores dentro da estação.

Fonte: David Clode (@davidclode) / Unsplash.com

Capítulos

Os capítulos então se sucedem alternando a história de Corina e seus companheiros com a visão dessas entidades que habitam o fundo do mar. Algumas tão antigas ou arquetípicas que cruzam milhares de anos em um piscar de olhos.

Preciso dizer que gostei do uso de “Arraia” como nome de uma personagem em vez do animal. E achei interessante o “Isopor”. Em vez do óbvio lixo jogado nos mares, é uma referência à pressão no fundo do mar e na estação. E é uma referência à pressão que só Corina sente — ou acha que só ela sente — em suas memórias.

O livro é tão cheio de significados que às vezes é difícil distinguir intenção de feliz coincidência o que faz a ligação entre as entidades do mar e os humanos. Após o capítulo 4, Ancestrais, que traz a evolução de uma espécie entre o mar e a terra firme, Corina diz

"Falando desse jeito parece até que a gente é um bando de iniciantes que nunca lidou com imprevistos. Só tem macaco velho aqui, então vamos ser profissionais, que tal?" (Capítulo 5, décimo primeiro parágrafo, grifo meu)

E até o Oceano, “aquela coisa infinita e salgada, que não tinha pernas e se movia, que não tinha boca e sussurrava” tem voz no texto de Valek.

As Narrativas

A narrativa principal é a história de um grupo de pesquisadores enviados a uma missão para testar equipamentos na pressão extrema do abismo. Cada um tem suas justificativas para estar lá. Alguns têm objetivos ocultos. Corina desvenda os segredos de seus companheiros, enquanto duvida de suas próprias motivações. Questionando sua capacidade, depois de acidentes repetidos, Corina resolve apoiar um de seus colegas, em um último esforço — talvez — de manter vivo certo maravilhamento com o mundo.

A outra história, mais interessante, conta como as personagens — humanos e entidades submarinas — vivem ao mesmo tempo juntas e separadas, conectadas e desconectadas de tudo. As personagens não enxergam a vida pulsante em volta da estação. Não é para isso que estão lá. Cada uma com seus problemas, ignoram a solução. Em especial, para mim, é uma ironia extrema … procurar por vida inteligente enquanto, nos capítulos justapostos, todos os outros animais que vivem lá já têm tanto a ensinar.

Os animais também. Cada um a sua maneira, é incapaz de perceber os seres humanos além do reflexo que fazem em seus sentidos de animais.

Fonte: Drew Farwell (@outdoor_junkiez) / Unsplash.com

O Desesquecido

A composição da água é parte oxigênio, parte hidrogênio, dizem, mas não sabem que é também parte memória. Cada pequeno evento em bilhões de anos ficou gravado em mim, desde os ruídos das arqueias flutuando solitárias em um mundo muito antigo até a primeira vez que um sumarino tripulado chegou ao ponto mais fundo do oceano. (Capítulo 18, quinto parágrafo)

Voltando ao paralelo com a filosofia, no capítulo sobre a arte do Vampyroteuthis, Flusser descreve a arte — ou a transmissão de conhecimento — de tal animal. O Vampyroteuthis pinta seu corpo com as informações adquiridas; tenta processá-las, coordenando-as com as informações já gravadas; atrái outro Vampyroteuthis e imortaliza o conhecimento com a ajuda do parceiro sexual. Na reprodução de suas “gametas” (cof, cof, sexo), a informação se imortaliza. Flusser, então, conclui que nós devemos nos empenhar na imortalidade através do outro, na nossa arte.

Se animais gravam memórias em gametas, os humanos gravam memórias em livros, em Arte. Misturar as leituras, as interpretações, é reproduzir essas memórias. Mesmo que sejam memórias inventadas.

É isso que encontramos em As águas-vivas não sabem de si, memórias inventadas através das quais podemos pensar sobre o que somos ou o que nos tornamos.

Aponto, para sairmos do texto da Aline Valek, a direção de uma newsletter não muito distante distante. A Gabriela Ventura, também por coincidência, compartilhou um texto que dialoga com as águas-vivas (ou talvez o texto de Valek é que chama tantas coisas para dialogar). Roubo para copiar abaixo. É um poema de Nate DiMeo chamado O Palácio da Memória:

Cinquenta palavras escritas ao saber que a baleia-da-groelândia pode viver até duzentos anos
Existe uma baleia, agora que pode ter escapado do arpão de um baleeiro de Nantucket em 1850.
E de um japonês em 1950.
Que um dia ouviu o canto distante de 50 mil irmãs.
Depois poucos milhares.
E centenas.
Mas que agora pode ouvir 25 mil.
Cantando na água aquecida.

Fonte: Michal Pechardo (@michalp24) / Unsplash.com

Aline Valek é escritora e ilustradora. Além de As águas vivas não sabem de si, tem Hipersonia crônica (2013) e Pequenas tiranias (2015). Também tem uma newsletter, que virou Zine (Bobagens Imperdíveis), e outros projetos que valem o investimento. O blog da autora é http://www.alinevalek.com.br.