Rafaela Barish
Jun 16 · 6 min read
art by Henn Kim

Eu sempre fui contra a esse movimento de “você é meu” e acho extremamente cansativo as crises de ciúmes de amigos meus e conhecidos.

Por mais que anos atrás eu fosse adepta a essa insegurança, de tanto viver nisso tomei consciência de o quão tóxico e pesado é.

A ideia de posse não é pra mim, e acredito que não deveria ser pra ninguém.

Então foquei em escrever e pesquisar sobre isso, para tentar entender melhor como esse raciocínio se formou e como nós mulheres, somos afetadas por ele.

Onde começa o problema

Nós seres humanos, evoluímos em um âmbito onde nos apropriamos de tudo o que tinha disponível, com isso já que dominamos tantas coisas achamos que o outro também é um objeto de patrimônio, com isso quero dizer, ele é nosso. Para formalizar esse ato, assinamos um contrato de posse e somos felizes para sempre.

Só que sabemos que a história não é tão bonitinha assim.

Ao crer e viver dessa ilusão que nos vendem, crescemos inseguros e totalmente obcecados por nossxs parceirxs.

A gente acredita real que quando conhecemos alguém essa pessoa vai ser nossa para sempre, só que anos depois estamos em outro relacionamento com outra pessoa e percebemos que não é bem assim. Não quero dizer que nunca vai dar certo, mas ressaltar o fato de que somos instáveis e que a permanência nunca é uma certeza.

Todas as vezes que busco entender o que leva as pessoas ao ápice do ciúmes sempre gira em torno de duas coisas: a traição e o medo do abandono.

E ambos ferem uma coisa em comum, nosso ego.

Ninguém quer ser trocado ou rejeitado. Mas ninguém repara que não é isso que acontece.

Seja em uma traição ou em uma partida, entenda que o problema não é você.

Quando alguém se vai é porque as peças deixaram de se encaixar, e tá tudo bem. Ninguém tem a obrigação de ficar.

Em alguns casos, pode ser que você tenha sufocado o outro com suas preocupações e inseguranças, e a pessoa optou por partir. Ninguém quer viver em uma jaula. E isso se torna um sinal para você refletir: “essa situação diz mais sobre mim ou sobre outro?” Pois é.

Eu gosto de ver a traição como algo que deixa de ser um problema meu. Não que eu esteja dizendo que as pessoas eram um problema na minha vida e o acontecimento não vai me deixar triste. Só que a ação não foi uma escolha minha, então não há porque surtar com isso.

Veja, traição é quando alguém quebra um acordo feito, e se essa pessoa quebrou o acordo isso é uma falha dela ou sua?

Se é uma falha dela, porque ficar pilhado sempre vivendo com esse medo? Afeta você? Afeta, mas o que você pode fazer com isso?

Estamos propícios a todo momento a vivenciar esse tipo de situação. Quando a gente acredita que colocando o outro em uma bolha o impedimos de partir ou trair, só reafirma nossa insegurança conosco e com a do nossx parceirx.

Querer ter controle da vida do outro, só reafirma a falta de controle e segurança nas nossas.

Repito, as pessoas têm o direito de partir. Ninguém é obrigado a gostar da gente e a ficar.

Trazer nossas inseguranças para o externo, colocando rédeas na vida de outra pessoa é ser muito egoísta.

E vai por mim, amor não é egoísmo e nem posse.

Precisamos começar a refletir mais sobre esse conceito de “ciúmes é bonito” que romantizamos durante anos.

Estar em um relacionamento é respeitar o outro como um indivíduo livre, contrário a isso é posse.

E onde a competitividade se encaixa nisso?

Agora partindo para outro lado dessa discussão, percebo o quanto temos crises de comparação e competitividade com outras mulheres próximas daqueles com quem nos relacionamos.

E esse comportamento de competitividade, ele vem bem enraizado na sociedade como um todo. Vivemos um em universo capitalista, a competição é algo comum em nosso cotidiano, mas até que ponto isso influencia em nossas relações?

A competitividade entre si não é um comportamento natural do gênero feminino, mas sim, fruto de uma construção social problemática e opressiva.

É como se em nossos inconscientes houvesse um pequeno dispositivo que se aciona ao perceber que nosso objeto de desejo está dando mais valor a outra pessoa do que a nós, como se tivéssemos sido criadas para agradar alguém (e não é que fizeram isso?!).

Mas com o tempo isso foi se reduzindo e pensamos mais sobre essas ações. A dificuldade maior se enquadra em saber lidar com esses sentimentos internos que possuímos de querer ser superior umas as outras só para conquistar alguém ou elevar nosso ego.

Eu não sei vocês, mas já me senti horrível por ter esse sentimento dentro de mim. Já conheci inúmeras garotas incríveis e tudo que eu queria era me juntar a elas, mas por terem já se relacionado com alguém que eu saía, eu me sentia culpada, como se elas fossem achar que minha presença não era genuína e sim competitiva. O que é bizarro.

É muito triste quando analisamos esse cenário de rivalidade feminina que nos vendem, como se nossa singularidade fosse sinônimo de superioridade as outras.

Enquanto a gente não entender que isso não é jogo, muitas de nós continuarão pregando ódio entre si.

Com isso cabe a nós, enquanto mulheres, mostrar que juntas podemos mais e que nos cabem aspirações muito maiores que o de agradar o sexo oposto, como nos foi imposto durante tantos anos.

Eu ouvi recentemente no podcast “Propaganda não é SÓ isso aí!” em uma fala da Gabi Rodrigues, que foi um tapa bem forte pra mim, que lembrava esse pensamento de esquecer de apoiar umas as outras. Foi meio assim:

“Toda vez que a gente sobe um degrau, a gente tem que entender que ainda tem um monte degrau pra subir, mas ainda tem um monte de gente que ficou no degrau de trás.”

Vamos pensar mais sobre isso?

Conclusão

Embora eu não seja formada em psicologia, todas as análises descritas no texto são de experiências (minhas e de amigos), leituras e pesquisas sobre o assunto. Claro que o texto não pode ser tomado como uma verdade absoluta, por isso, sugiro que leia, reflita e extraia aquilo que de melhor se aplica a você.

Voltando, como um meio de concluir esse raciocínio de ciúmes e competitividade, acho válido ressaltar o que foi comentado várias vezes aqui no texto, em que, parte de nossas inseguranças são projetadas em nossa mente desde cedo. Só que isso não se torna uma desculpa para você machucar alguém e principalmente a si mesmo com esses anseios.

Parte da solução de desconstruir esses pensamentos, é conhecendo a si mesmo, aprendendo a lidar com suas emoções e reconhecendo o que de fato faz sentido ou não.

Quando caminhamos para o autoconhecimento, não permitimos que nossas emoções nos guiem para caminhos que não condizem com a racionalidade e que ferem terceiros, e principalmente a nós mesmos. Saber o que você tá sentindo, aprender a identificar, nomear e aceitar, melhora não só a sua vida, mas a de quem convive com você também.

E sei que é muito ilusório da minha parte acreditar que se desvincular de algo tão enraizado é simples e fácil, sei que não é. Mas se você não praticar de verdade, vai continuar nesse ciclo de sofrimento.

Eu amo de verdade essa foto e já fiz um texto sobre ela, então, deixo aqui para refletirmos.

Amor não é posse, é liberdade. :)

Indicação de alguns textos sobre o tema:

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Rafaela Barish

Written by

Aprendendo a me desvincular de todas raízes, e falando principalmente sobre amor e vulnerabilidade. Compartilho o que vivo, registro o que sinto. @rafabarish

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade