Sobre Filhos do Fim do Mundo (crítica, all spoilers)

Atenção: isso é uma crítica/análise. Se você é o tipo de pessoa que se importa com bobagens tipo "spoilers", vá ler o livro e só depois volte.

Isto é um exercício de resenha. Vou tentar não empolgar nem desempolgar os possíveis leitores. Quero encontrar um modelo de crítica curta, mas que fuja dos “reviews” de livros que inundam a blogosfera. Em alguns casos, vou procurar evidenciar a estrutura do livro. Em outros, as referências possíveis e prováveis que eu consiga enxergar em uma primeira leitura. A ideia é ajudar os leitores a construir uma visão maior dos sentidos do texto. Algo que vá além do assunto ou temática.

Uso aqui temática no sentido de "tema de fundo de celular", não de Tomachevski. Algo do tipo "a temática de Game of Thrones é fantasia medieval violenta".

Escolhi principalmente a “nova literatura fantástica” brasileira. Acho que é um terreno pouco explorado. As críticas fáceis de encontrar na internet são superficiais. Boa parte nem sequer leva os livros a sério, servem para reclamar como a literatura brasileira é ruim ou para bajular autores amigos. Eu não conheço nenhum desses autores. E, se um dia vier a conhecê-los, não importa, porque eu não costumo engajar com essa coisa de “fazer amigos”…

Vamos ver no que dá.

O Livro

Filhos do Fim do Mundo, de Fábio M. Barreto, publicado em 2013, cerca de 75.000 palavras.

Filhos do Fim do Mundo, Fábio M. Barreto, 2013, 75.000 palavras.

Começo com esse livro, principalmente, porque ele não é escrito em primeira pessoa. Se a narrativa nacional contemporânea tem algo de errado é a necessidade de criar um narrador que é protagonista e, ao mesmo tempo, uma personagem com quem o leitor deve se identificar. A literatura é feita de muitos níveis, e logo aí já se achatam três em um só.

Mas também começo por esse livro, porque das "resenhas" que eu li — e provavelmente não deveria ter lido — essa é uma das obras que não parecem ter sido levadas a sério.

Filhos do Fim do Mundo usa um narrador que deveria estar distante das personagens, mas faz pequenas intervenções mais próximas do personagem principal. Não é incomum, mas é trabalhoso quando não ocorre instintivamente. Parece, no texto, que o lugar correto para o narrador é o distanciamento. A sensação favorece a noção de insólito da narrativa. Combina com a falta de perspectivas sobre o que pode acontecer. Apoia o leitor na inevitabilidade dos fatos. Sugere a incapacidade da personagem principal em mudar o rumo dos acontecimentos.

O distanciamento também ocorre na falta de nomes para as personagens. Ou melhor, os nomes próprios são funções ou profissões iniciadas por letra maiúscula. A personagem principal é um repórter chamado apenas de Repórter, sua esposa é chamada Esposa. Isso também abre espaço para que a Esposa eventualmente se torne a Mãe, por exemplo, o que é uma boa jogada.

Estrutura

A obra é dividida em oito partes: Prólogo, seis capítulos e Epílogo.

Cabe bem no sistema de 8 sequências de roteiros de cinema. Se era esse o esquema original ou não, não sei. Mas por preguiça vou usar as partes como tendo os mesmos limites das sequências. Separar o texto em três atos parece um pouco menos eficiente, mas também funciona:

- Ato 1: prólogo e capítulo 1
- Ato 2: capítulos 2, 3 e 4
- Ato 3: capítulos 5, 6 e prólogo

Os 5 pontos principais de roteiro seriam:

Ponto 1 (Incidente): Já no Prólogo, as enfermeiras de uma maternidade estão horrorizadas com o evento ocorrido durante a noite. Ninguém consegue conter a reação de perplexidade e espanto.

Vale aqui uma dúvida pessoal sobre literatura contemporânea: tem em algum lugar uma lei que diga que textos precisam começar de forma críptica e abstrata?

"O resquício da forte tempestade ainda podia ser visto pelas janelas da delegacia quando o telefone tocou. As gotas caíam vagarosamente; a árvore de Natal iluminava o ambiente; quase ninguém de plantão. Ventava muito." (abertura do Prólogo de Filhos do Fim do Mundo)

Ponto 2 (Gancho): Ao fim da primeira parte, o Repórter recebe informações à conta-gotas ao longo do dia seguinte ao evento. Absolutamente todos seres vivos com menos de um ano morreram. Um bunker, que deveria trazer respostas sobre a causa das mortes, revela apenas o horror que se abate sobre a humanidade. Não há esperanças.

Emocionalmente destruído, o Repórter mantinha os olhos fixos numa direção qualquer. Contemplava a parede do elevador como se olhasse através da estrutura metálica. Gostaria de cerrá-los e pensar num lugar mais agradável, num tempo mais feliz, mas temia as visões. (segundo parágrafo da parte Dois de Filhos do Fim do Mundo)

Minha ressalva quanto à parte textual da narrativa seria esse narrador que se aproxima do Repórter de tempos em tempos. Por um lado, as descrições são diretas e objetivas. Permitem que se interpretem os sentimentos das personagens com bastante espaço para a subjetividade de cada leitor. Por outro lado, o narrador se aproxima e retoma, resume a descrição explicando o que as personagens estão sentindo. Isso é desnecessário e interrompe o fluxo da interpretação pessoal do leitor.

Ponto 3 (Primeiro Clímax): Essa etapa sempre me confunde, mas vou marcá-la no terceiro capítulo, no surgimento da personagem do Blogueiro e no consequente confronto irracional que se segue.

Ponto 4 (Clímax Principal): Tiroteio na casa onde o Repórter tenta proteger a Esposa e seu filho não nascido.

Ponto 5 (Reviravolta e Conclusão): Finalmente descobrimos o que são “filhos do fim do mundo”. O Filho salva o dia. Ou assim eu leio essa etapa.

Ouviu os sons da floresta, revigorados e, igualmente, cheios de vida. Deixou a brisa tocar-lhe rosto por um tempo, levantou o braço e sentiu os pelos arrepiados pelo vento gélido que soprou da colina, levando a fumaça das fogueiras para o sul e deixando a vista da Lua totalmente livre e belíssima, para onde ela se virou. (segundo parágrafo do Epílogo de Filhos do Fim do Mundo)

Para ler sobre os 5 pontos principais de análise de roteiro, uma boa fonte é The Script Lab (http://thescriptlab.com/screenwriting/structure/the-outline/51-plot-five-key-moments).

Conflito Principal

Eu vou tentar não dizer o que ‘o autor quis dizer’. Mas é difícil não enxergar a ligação entre a jornada de crescimento do Repórter com o drama da possível impossibilidade de ver seu filho nascer bem. Eu gostaria de ver esse paralelo mais bem explorado. Ou só mais explorado. Pode ser culpa do Stephen King, que nos acostumou a ver o drama emocional amarrado ao monstro de cada livro.

Em especial, a Esposa pareceu muito compreensiva com o Repórter. De vez em quando, deu vontade de xingar essa mulher. Como ela não põe o marido no lugar dele? “Imbecil! É hora de dar atenção a sua esposa e filho. Retardado…” Mas mesmo isso pode ser um ponto positivo do livro. Trazer alguma reação do leitor num meio tão “blé”. O cara resolve ficar longe de casa ao mesmo tempo em que a vida que cresce na barriga de sua esposa está ameaçada.

A ação se desenvolve com o Repórter basicamente agindo como repórter, investigando o que aconteceu, as possíveis ramificações da tragédia e suas improváveis soluções. Como o conflito não possui uma resolução, entra em cena o filho do Repórter como última fronteira a ser protegida. Quer dizer, uma vez que não há o que o Repórter possa fazer para salvar o mundo, salva apenas seu mundo, sua esposa e filho.

Conflito Secundário

O conflito secundário é especialmente interessante. Como geralmente acontece em novelas de ficção científica e fantasia, o conflito secundário traz elementos favoráveis à crítica. Mais livre da amarração da trama…

Como já disse, os nomes das personagens são basicamente suas identidades profissionais (ou quase profissionais, tipo “o Blogueiro”). Achei inteligente, já que nos filmes, seriados, contos, novelas de apocalipse, as personagens são sempre vistas através de suas habilidades para contribuir — policial de The Walking Dead, médico de Lost, seguranças, cientistas.

Isso possibilita uma boa oposição entre o papel do Repórter, que investiga o que aconteceu, e o Blogueiro, que incita o povo de forma enfurecida. Vou tomar como crítica ao funcionamento desse mundo de opiniões da internet.

De modo geral, o texto retrabalha muito bem os clichés. O uso de notícias no capítulo 5 para elevar rapidamente a tensão através de informações resumidas do que acontece pelo mundo se encaixa na ação da cena, na atmosfera de distanciamento, na fragmentação das respostas das pessoas ao caos.

Ponto extra, também no quesito “brincar com clichés”, pelo uso dos zumbis.

Bem. Não falei sobre o autor, porque ele já fala o suficiente de si mesmo. Tanto no livro, deixando evidente seu conhecimento de estrutura narrativa e referências a redações de jornal, quanto em um podcast sobre escrever e ser escritor. Se alguém quiser saber um pouco mais sobre o Fábio Barreto, é só seguir o Gente que Escreve (http://www.fabiombarreto.com/gqe/).