Sobre ganhar mal e ser feliz

E porque nossas escolhas não são tão nossas assim.

Você não vai ser rico se estudar muito ou se passar em uma faculdade federal. Você não vai ser rico se trabalhar duro, isso só acontece com quem tem sorte (dizem). E, ainda assim, a sorte pode virar às vezes. Então melhor mesmo é fazer suas escolhas porque elas te deixam SATISFEITO — e ainda te permitem (financeiramente) a lutar por aquilo que você acredita.

A vida inteira me senti um pouco burra, confesso.

Em primeiro lugar, por não ter a capacidade de realizar processos matemáticos simples de cabeça (e, às vezes, nem no papel) e, também, por sempre ter ouvido das pessoas que ~não me esforcei o suficiente~ durante o colégio e que, em consequência disso, tenho que lidar com meu baixo salário. O clássico: “a vida te dá o que você merece, queridinha.” É, pois é.

Quem já me acompanha há um tempo por aqui e quem me conhece pessoalmente já sabe: odeio as coisas comuns. As regras. Não gosto de nada que me controle ou que apresente sempre os mesmos resultados. Acho, aliás, zero fascinante essa coisa de já sabermos as respostas corretas para tudo porque tal coisa não existe na vida real. Que graça teria se a gente estivesse sempre à frente do que quer que fosse acontecer? Eu, hein.

Eu sei, estou sendo simplista. Mas vocês vão me entender.

A escola me entediava.

Não via sentido no fato de todas as pessoas serem obrigadas a aprender a mesma coisa, visto que pessoas não são coisas. Não se espera delas as mesmas vontades, personalidades, escolhas. Não se espera que sejam exatamente iguaizinhas.

Por que, então, esse lance de existir apenas um tipo de inteligência? Por que todo mundo tem que se encaixar em uma avaliação de 0 a 10 como se essa fosse a indicação do fracasso ou do sucesso de alguém?

Eu sei as respostas pedagógicas em relação a isso, eu realmente sei. Mas esse texto não é para você responder obviedades acerca dos processos educacionais, é para te fazer pensar.

Tive a sorte (ou o azar) na vida de ter sido criada por uma professora de História. E de entender que alguns conhecimentos são necessários para todos os seres vivos, mas que outros, aqueles lá que a escola tende a neutralizar ao longo dos anos, precisavam ser vistos com atenção, desenvolvidos no íntimo, e que, dessa forma, encontraríamos a tal da vocação. Só que, às vezes, não dá tempo.

Somos obrigados a decidir sobre nossas carreiras lá pelos 17, quando não somos sequer capazes de decidir nosso almoço. A imaturidade do aluno é um problema que se agrava, ainda mais, frente ao atraso no qual estão inseridas as instituições de ensino quando falamos sobre criatividade. Ou curiosidade. Ou outras dessas coisas que não podem ser qualificadas entre 0 e 10 e, portanto, não são estimuladas ou vistas corretamente pelos educadores.

Eu era a menina maluquinha que gostava de teatro e fazia amizade com todo mundo. Que desenhava caricaturas, fazia piada e gostava de escrever. E nenhuma dessas características, na cabeça cartesiana, faria de mim uma profissional qualificada. Não quando analisadas de um modo primário.

Geralmente, quem escolhe uma carreira que envolve “aptidões imaginativas”, não consegue mensurar seu valor em horas. Ou em dias. Então, pelo prazer de fazer o que lhe dá prazer, se sujeita ao valor que oferecem. E só depois percebe o problema disso.

Demorei muito tempo para reparar que em todos os cargos que eu assumi eu não era uma coisa só. Sempre fui social media e designer, redatora e planner, estratégia e operacional, tudo em uma coisa só.

As denominações que constavam no meu cartão de visita não faziam nenhum sentido, bem como minhas horas trabalhadas e muito menos meu salário. Enquanto meu amigo estagiário em TI ganhava 3 mil reais e todos os benefícios possíveis como recém-formado em seu primeiro emprego, eu não tinha perspectiva de ganhar mais de mil. E isso me deixou bem mal durante um tempo. Durante muito tempo.

Só depois de escolher uma carreira é que muita gente percebe que, apesar de vivermos em um país de muitas desigualdades — de fome, de lutas e superações — , pela tal lógica, não é financeiramente possível alugar uma casa, pagar todas contas além de transporte, alimentação, sustentar uma possível família e ainda ter verba para os prazeres e luxos que todo o trabalhador comum gostaria de ter. Ou, ao menos, deveria ter.

E, também, que é esse o esperado pela sociedade depois de investirmos tempo e bastante dinheiro em educação ao longo de nossas vidas.

Juntamos aí muitas frustrações. A profissional, ao não nos sentirmos realizados mesmo tendo prazer no que fazemos; a pessoal, de talvez nunca termos dinheiro para concretizar alguns sonhos ao longo do nosso desenvolvimento; e a familiar, de sermos cobrados por toda uma vida de escolhas, condutas e quantias pra lá de abusivas que foram despendidas e ~ DEVERIAM SIM ~ nos tornar bons profissionais.

Complicado.

Na comunicação e no design acontece um fenômeno que “aleija” e nivela o mercado para baixo: nem todo mundo que é realmente bom vai ganhar bem. E nem todo mundo que ganha bem é realmente bom no que faz.

Como ser feliz fazendo o que amamos se nem ao menos aqueles que sabem a importância de uma boa comunicação valorizam isso? Como lidar com chefes incapacitados, ausência de hora extra e jobs que são aceitos indecentemente porque “vão incrementar o seu currículo”? Ou você nunca recebeu uma proposta de trabalho no qual não ganharia nada além de “prestígio”? Nenhum valor em dinheiro a não ser “a chance de brilhar”?

Eu sou feliz com as minhas escolhas, mas sei das limitações que isso traz. Não deixo de estudar, não desisto de sempre melhorar profissionalmente ou de me aprofundar em uma determinada área por puro interesse pessoal, mas sei que não é justo cobrar de outros profissionais a mesma postura.

Se o mercado em si não impõe a necessidade de se aprofundar no conhecimento e não valoriza isso quando contrata ou demite alguém, porque o carinha do seu lado vai fazer hora extra? Baseado em quê você quer exigir que ele seja proativo, criativo ou bem-humorado o tempo todo?

Estou tão sujeita a perder o emprego como qualquer profissional tão ou mais qualificado que eu. E talvez isso aconteça mais cedo ou mais tarde, ou quando eu finalmente me ~estabilizar~ e me encaixar em um cargo de gestão, porque nos gestores estão os melhores salários, as maiores responsabilidades e o maior número de pessoas incompetentes também. Quando ocorrem cortes, é por lá que a coisa começa — porque braços para trabalhar são sempre mais importantes que cabeças para pensar. Na construção civil ou na assessoria de imprensa, meus caros.

Se eu voltasse no tempo, faria escolhas diferentes das que eu fiz?

Jamais.

A comunicação me escolheu e não sei em qual ramo me encaixaria se não fosse nas artes ou nas letras, mas uma coisa é fato: quando o prazer se reverte em infelicidade, frustração ou qualquer coisa que não te traga o mínimo necessário para se ter uma vida digna, é preciso repensar. E mudar de ramo ou de rumo.

Afinal, como eu disse lá em cima, a vida não funciona como uma ciência exata, mas novas atitudes e caminhos abrem também novas possibilidades.

Te desejo coragem para tentar.

Like what you read? Give Ericka Moderno Rocha a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.