Sobre "John McLoving e a Busca do Mijo da Vida", de Mickael Menegheti

porque "a busca pela m*** da vida" seria filosófico demais

Fonte: Elton Oliveira (Elton26) / Pixabay.com

Achei necessário escrever sobre este livro, porque eu gostei, e porque não encontro referências para explicar porquê gostei. Faz sentido?

O livro John McLoving e a Busca do Mijo da Vida, de Mickael Menegheti, foi lançado pela Nocaute em 2017, tem cerca de 50.000 palavras. A versão física conta 220 páginas.

A Editora Nocaute é uma iniciativa do Vilto Reis, que participa do podcast 30:MIN e do site Homo Literatus. Começou publicando Um gato chamado Borges — do qual eu devo uma resenha — e agora trabalha para publicar livros de outros autores.

Eu li o livro a convite do pessoal do 30:MIN, aliás. Vocês podem ouvir no Episódio 209: John McLoving e a Busca do Mijo da Vida. Neste texto, tentarei deixar as ideias mais completas.

John McLoving e a Busca do Mijo da Vida, Mickael Menegheti, Editora Nocaute, cerca de 50.000 palavras.

O Livro

A história de John McLoving começou em um conto, publicado na Pulp Fiction número 2, e se desenvolveu para um livro completo antes de ser escolhido para publicação pela Nocaute. O autor conta um pouco sobre o trabalho na entrevista do Meia Hora #002.

Na própria entrevista, fica claro o tom descompromissado do livro. E foi isso mesmo que chamou minha atenção. Apesar da grande quantidade de referências ao gênero western, chuto que foram mais instintivas do que planejadas — mas o psicólogo aqui é o próprio autor. Bem, leiam e julguem vocês.

Desembaralhando as referências

Dessa vez, vou tentar explicar o livro de fora pra dentro. Vamos lá.

A capa do livro traz a imagem de um revolver, estrelas de cinco pontas e o vulto de John McLoving usando um chapéu de cowboy americano. O chapéu será importante depois para a história. As cores predominantes são o preto e o branco e tons de amarelo-dourado-marrom que, ao mesmo tempo, dão importância (dourado) e remetem ao deserto do oeste americano ou do nosso nordeste.

Incidentemente, a cor me faz lembrar que a urina saudável é descrita como “amarela-âmbar” nos testes farmacológicos.

Fonte: Daniel Horvath (@danielhorvathofficial) / Unsplash.com

Título: imaginava um livro completamente diferente

O título engana. Não parece que dá o tom correto do livro. “A Busca do Mijo da Vida” faz parecer um filme com piadas escatológicas mal traduzidas pelo Herbert Richards. Por outro lado, é difícil pensar em outro título.

O conceito da história é este mesmo: John McLoving e a busca. O livro todo se vale desta construção. Um protagonista focado em um objetivo, McLoving sempre tem alguma coisa para fazer. Tem deserto, tem cena em restaurante, tem cena em biblioteca, e não é tão estranho quanto possa parecer.

Poderia ser roteiro de um video-game. A cada capítulo, a cada fase, o herói tem um obstáculo a ser vencido. Os obstáculos são claros, as etapas são curtas. A narração tende a manter todas as informações à mão do leitor.

Títulos internos: boa jogada

Os títulos internos já representam melhor essa construção. Alguns exemplos:

1 Vá pro inferno, John McLoving
4 Tiro pelas costas
11 Estás atrasado, safado
13 Extra! Extra!
19 O peregrino do Rio São Francisco
22 O homem que matou o facínora

Não só estão de acordo com histórias de faroeste, como descrevem bem a evolução de John McLoving em sua busca.

Ponto especial para o título do Capítulo 11, que repete a frase que uma das personagens diz no capítulo anterior. Mas a personagem usa linguajar coloquial e o título corrige a conjugação. Sem querer superinterpretar, mas já superinterpretando: isso é evidência da função do narrador da história.

A espera num acaba mais em minha cela fria. O tempo parece tá congelado e nada acontece em volta. Os outros presos, os poucos que sobrou, me olham com cara de carranca, não muito diferente da temperatura aqui dentro. Não tem como ser de outra maneira. Eles sabe o que vai acontece. (Capítulo 10, primeiro parágrafo)

Texto e textualidade

Isso leva ao ponto mais positivo, acho: a Condução “objetiva” da história.

O narrador, apesar de estar ao lado de John McLoving na maior parte do tempo, ainda é externo à narrativa. De certa forma, isso é consciente para o autor ao decidir mudar a frase no título. O autor — através do narrador — tenta controlar as informações passadas aos leitores.

Isso aparece também na mudança de narrador que ocorre em um ou outro capítulo. Por um lado, dá informações sobre a vida de personagens secundárias. Por outro, esconde informações sobre McLoving, para serem contadas ao leitor mais tarde. É um recurso muito usado hoje, mas o livro não se constrói sobre essas mudanças de pontos de vista. Para mim, deu a sensação de experimento narrativo. Algo que o autor se divertiu em fazer e quis passar para o leitor.

Analepses didáticas

Eu sempre fico mais feliz em ler algo em terceira pessoa. Então, sou suspeito ao dizer que há problemas na amarração dos capítulos com os diferentes narradores. As “analepses didáticas”.

Quando a história volta para John McLoving, o autor parece sentir necessidade de explicar o que aconteceu. E eu discordo. Mas, assim como o título, parece ser escolha do autor.

— Afinal de contas, o que é o Mijo da Vida? 
— Achei que já tivesse explicado agora pouco.
 — Eu não entendi nada.
(Capítulo 25)

Eu, por exemplo, parei de levar a sério o livro, quando a narração mente sobre a morte de John McLoving. Meio como o pênis de borracha no início do seriado Sense8, isso delimita tipo de leitor esperado para os próximos capítulos. A história não é contada como um relato fiel, fidedigno, crível, verdadeiro do ocorrido. Mas a história é apresentada como uma ficção que sabe que é uma ficção. Sabemos, leitores, que o narrador pode mentir a qualquer momento.

Fonte: claudiocostarq / Pixabay.com

Ressalvas

O que me leva a outras questões a se pensar sobre as escolhas da narrativa:

1 McLoving “assobia” letras de música

As letras de música apresentadas durante o livro nunca são “cantadas”. O narrador diz que McLoving “assobiou” uma melodia e apresenta, em seguida, as letras das músicas “assobiadas”.

McLoving tinha o estranho costume de assoviar em momentos inusitados, para não dizer malucos. Trechos de música possuíam seus lábios e nada restava a não ser assoviá-las. (Capítulo 1, penúltimo parágrafo)

É interessante ao considerar que as músicas não existiam no tempo em que a história deveria se passar. E mais interessante que é uma escolha consciente, inclusive comentada por uma das personagens próximo ao fim da história.

2 Mulher morreu fora de cena?

Um pouco fora de sintonia com as discussões culturais, a mulher da história é caso amoroso de uma das personagens principais e morre fora de cena. Está ali cumprindo papel de vítima.

Eu poderia tentar defender, dizendo que foi intencional, irônico? Particularmente, não gostei.

3 Piadinha do guardião do mijo da vida pareceu só piada mesmo

Há muitas questões a serem tratadas aqui. Ou que poderiam ser tratadas. Mas, como o livro não se leva a sério, e espera que o leitor não o leve a sério, quando a questão da autoria narrativa chega, ela é uma piada.

Condiz com o tom do livro. Sim. Mas fiquei insatisfeito com a resposta.

Fonte: Melanie Mauer (@melaniemauer) / Unsplash.com

Mas por que a história funciona?

Acho que o mais importante é que a história funciona. Eu acho que funciona, porque a gente precisa dessa reescrita da História do Brasil. Talvez a gente tenha essa mania de diminuir nossas figuras históricas. Talvez elas não tenham sido lá grande coisa mesmo. Mas, com uma história alternativa, a gente fica mais livre para torcer e admirar esses heróis fictícios.

Deve haver mais pistas durante o livro. Mas em uma leitura direta — e minha pouca memória sobre história do Brasil — lembro que:

  • Estados Unidos do Brasil era mesmo o nome do Brasil entre 1891 e 1969. Não é por isso que o Brasil é influenciado pelos EUA no livro. Houve algum outro evento.
  • Maria Bonita viveu de 1911 a 1938. Se ela está viva durante a história de John McLoving, temos uma janela de tempo ainda menor.

Qual época?

Interessante que as narrativas brasileiras que retratam temáticas rurais em tom realista também estão nesta época: os Romances de 30 — a segunda geração do modernismo, a tentativa de escapar da vanguarda europeia e estipular um novo modelo de literatura brasileira. Obviamente que John McLoving e a Busca do Mijo da Vida não traz preocupações as psicológicas e sociais. Mas o niilismo também é entendido na literatura como fuga intencional.

Qual Geografia?

Na geografia da história, o Brasil me pareceu muito perto dos EUA. Alguém dos EUA vem para o Brasil caçar o protagonista. Como isso acontece? Por que acontece? E como os brasileiros têm referências dos EUA nessa época sem internet ou televisão?

Qual História?

Não sei se importa para a narrativa, mas quero saber o que aconteceu de diferente. Por que o Brasil é colônia inglesa?

Fonte: Cristiano (ecrisol) / Pixabay.com

Mickael Menegheti "É casado e trabalha como psicólogo. Paulista de nascimento e mineiro por criação vê na literatura o eco da alma humana corporificar-se em palavras. Conheceu o mundo das letras por culpa da série Vagalume com o clássico O mistério do cinco estrelas e desde então não parou mais. Fã assumido de J.R.R. Tolkien, Arthur C. Clarke e Luís da Câmara Cascudo. É amante declarado do Cinema, Blues e videogames. Contista e escritor de ficção tentando sair da ficção." (Homo Literatus)

A Editora Nocaute é uma iniciativa do Vilto Reis. Além de John McLoving, a editora já publicou Um gato chamado Borges e tem encaminhado para 2018 Há um tubarão na piscina, de José Figueiredo, e Tarja Preta, de Cecília Garcia Marcon.