Sobre museus e sobre quem somos

Eu passei uma boa parte da minha infância e adolescência em Museus. Morava perto do MASP — Museu de Arte de São Paulo — e sempre que podia entrava. Gostava de ver as obras, mesmo na época sem saber muito sobre o que elas significavam no plano geral de nossa existência. O Museu Biológico no Instituto Butantan era alvo de visitas constantes. Havia também um pequeno Museu na Rua Frei Gaspar em São Vicente, no litoral, que eu adorava, a “Casa do Barão”. O Museu do Ipiranga, quando ainda estava aberto, e então já quando adulto jovem, o MIS — Museu da Imagem e do Som — com seus incríveis saraus de Jazz e outras loucuras musicais. Enfim, aprendi a entender os Museus como locais sagrados e o que aconteceu no Museu Nacional foi, pelo menos pra mim, um apocalipse.

Estive lá em duas oportunidades. Ainda guardo vivos em minha memória aqueles momentos. Agora mais.

Reprodução TV Globo — https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/09/apos-incendio-cientistas-avaliam-o-que-restou-do-museu-nacional.html

Em chamas. Vinte milhões de itens diversos, relíquias de nossos povos originários e também peças de todos os continentes. Não menos importantes, as também milhões de horas consumidas pelos pesquisadores, museólogos, taxonomistas, historiadores e demais responsáveis por catalogar, classificar, curar e tornar disponível toda aquela miríade de conhecimento. Museus são locais de amor.

Em chamas. Mais uma polaroid nefasta do futuro que nos aguarda enquanto nação.

Em chamas. Não um fogo purificador, transformador de coisas, mas sim labaredas de ódio, consumindo peça a peça, item a item, todo um passado de uma nação que teima pelo descaminho, fugindo de seu inexorável destino de Édem. Sabemos quem são os responsáveis por essa calamidade.

Enquanto nós que aprendemos sobre o que é realmente sagrado estamos em luto, outros riem sobre as cinzas da nossa história, espalhando boatos e mentiras, diminuindo a sacralidade dos Museus. Contra eles, ainda não desembaiaremos nossa espada. Não é com a mesma infâmia que agiremos. Somos mais.

Tal como os povos originários dessa nação e os que aqui foram forçados a habitar, aqueles que perderam mas não desistiram, não desistiremos.

Caminhamos incertos por agora mas nos levantaremos em força e número para não permitir que aqueles que se regojizam pelo fogo e fogem de seu dever triunfem. Faremos emergir o nosso monstro da lagoa.

E ao final, permaneceremos, pois é assim que somos, como os Museus.

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