Sobre o Medium, seus triunfos e problemas
O que é o Medium é para quem ele serve?

Toda vez que eu tento explicar para alguém o que é o Medium, eu acabo me atrapalhando e fazendo comparações que não ajudam em nada o entendimento da plataforma. “É tipo um Twitter sem limite de caracteres”, ou “Sabe os textões do Facebook? O Medium é um lugar onde as pessoas realmente leem eles”.
Isso só piora quando a pessoa pergunta mais sobre o assunto: “É um editor de textos, que também é uma plataforma de publicação e leitura. Como se todos os blogs fossem para um lugar só, bonito, fácil e livre de publicidade.”

Ainda que parte disso seja verdade, nenhuma dessas explicações realmente engloba todo o conceito e objetivos do Medium. Acho que o idealizador do projeto, Ev Williams, conseguiu resumir muito melhor do que eu:
O Medium é um espaço de troca de ideias, onde pensadores, criadores e aqueles com histórias para compartilhar encontram sua audiência, comovem pessoas e nos movem para frente. WILLIAMS, Ev.
A priori, o site passa a impressão de que seu maior objetivo é promover a leitura; seu design clean e a ausência de qualquer anúncio criam um espaço perfeito para a imersão nos textos.

Com o tempo, porém, percebe-se que a intenção dos desenvolvedores não é de apenas incentivar o consumo passivo da mídia, mas também estimular a interação e, consequentemente, a escrita. A padronização na formatação dos textos, somado a fácil edição, além do ótimo e intuitivo controle de rascunhos, publicações e textos facilitam a “iniciação” no meio.
Portanto, além de uma ótima alternativa para consumo de conteúdo de qualidade, o Medium ainda é uma rede que busca dar voz ao seus usuários, concedendo parte do controle aos produtores.
O túnel no fim da luz
Apesar de tudo, o Medium está com problemas econômicos. Não me entendam mal, quando tratamos deste tipo de negócio, ficar no vermelho durante um período não significa que a empresa fechará as portas. Muitas das plataformas mais famosas da internet ficaram um bom tempo perdendo dinheiro antes de começar a fazer seus primeiros milhões. O Medium parece seguir a mesma lógica; No mesmo texto em que anunciou o fechamento de dois escritórios, Williams apontou um crescimento de cerca de 300% no número de usuários, só no último ano.

Como hardcore-user há mais de dois anos, produtor de conteúdo — mais recentemente — e grande entusiasta, resolvi tentar contribuir com minha humilde opinião sobre a plataforma.
Medium para quem?
Como eu disse lá no comecinho do texto, ainda preciso apresentar o Medium para a grande maioria das pessoas que conheço, e mesmo dentro do meu ciclo de amigos — alguns recém-formados em jornalismo e publicidade — o site é pouco conhecido e quase nunca utilizada. Verdade seja dita, este nunca será um espaço tão popular quanto o Facebook ou o Snapchat, como já admitiu Williams, mas acredito que ainda exista um grande público interessado que sequer ouviu falar desta rede social.
Uma das melhores maneiras de divulgar seu (ótimo) conteúdo é por meio de figuras públicas que utilizem ou apoiem a plataforma. Tenho certeza que existem diversos jornalistas famosos que adorariam divulgar matérias que não foram aprovadas por seus editores, ou falar sobre assuntos que tem pouco espaço na mídia tradicional, afinal, muitos deles já possuem blogs ou sites próprios. Por um lado, isso ajudaria a aproximar ainda mais os jornalistas de seu público, reduzindo o papel das grandes empresas de mídia. Por outro, serviria como um espaço propício à leituras profundas e complexas, livre de mãos editoriais e, principalmente, aberto ao debate — diferente do padrão adotado pela mídia tradicional na internet.¹

Para além do jornalismo, existem diversos poetas, escritores, políticos, empreendedores, músicos e artistas que, se conhecessem a plataforma, ficariam animados com a ideia de publicar suas reflexões sobre o mundo sem a necessidade de adaptar sua mensagem para mídias mais efêmeras, onde disputará atenção e tempo com “textos” completamente diferentes. Por fim, o Medium ainda deveria fortalecer suas parcerias com produtores independentes nativos, pois serão eles os responsáveis pela diversidade, inovação e valorização da mídia.
Pequenos problemas
Mesmo que a rede social consiga atingir um público cada vez maior, isso não significa que todos os problemas serão resolvidos. Ainda há muito espaço para melhorias.
Na primeira vez que entrei no site, tive alguns problemas para me adaptar. Ele perguntava sobre quais tipos de conteúdo me interessavam e, no calor do momento, acabei optando por temas demais. Isso deixou minha timeline confusa e, para falar a verdade, ela continua assim desde então.

Outro incômodo ao navegar pelo site é a ausência de recomendações sobre as histórias mais discutidas, os autores mais lidos e os temas em alta. Em inglês, boa parte destas recomendações existem — o Medium ainda cria diariamente curadorias próprias, que envolvem temas ligados aos principais acontecimento do dia ou da semana — ainda que seja impossível descobrir, por ordem de seguidores, quais destas recomendações lideram o ranking do site.
Acredito que a intenção dos desenvolvedores, ao escolher não entregar estes números aos usuários, é de evitar concentrações de leitores e fortalecer a ideia de que o texto é tão importante quanto quem o escreveu. Porém, ao mesmo tempo, isso desestimula produtores, que escrevem regularmente e buscam fortalecer suas publicações, e leitores — que podem sentir falta da sensação de comunidade normalmente criada por fãs de um criador — além de restringir o potencial de propagação de um tipo de conteúdo ou produtor, e consequentemente da plataforma.
Por último, eu gostaria de ver algorítimos mais “inteligentes” ou ferramentas que auxiliassem na ligação entre textos, assuntos e autores. É comum, ao menos para mim, encerrar um texto e retornar a página principal, pois não há recomendações que façam-me seguir aprendendo sobre o assunto.
Como a postura do projeto é de incentivar a discussão, o aprendizado e a empatia, sinto que ainda faltam meios de aprofundar o conhecimento dos temas. Ao meu ver (sem qualquer conhecimento técnico), uma das maneiras para melhorar a navegabilidade entre assuntos seria dando ao autor o poder de recomendar leituras complementares (dentro do Medium), como os algorítimos já o fazem no fim do texto. Além disso, acredito que deveria existir um verdadeiro esforço da plataforma em interligar textos que exponham opiniões divergentes, de maneira a enfraquecer as salas de eco digitais e empoderar o usuário por meio da diversidade de discursos (contanto que sejam relevantes para o debate).
Considerações
O Medium já é uma plataforma com propostas inovadoras e importantes para o amadurecimento da cultura digital. É importante também lembrar que boa parte das “propostas” sobre as quais falei já estão sendo desenvolvidas nos Estados Unidos. Por lá, figuras tão relevantes quanto o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, já possuem um perfil na rede social, publicações como o Film School Rejects trabalham em parceria com Williams e parte dos problemas sobre curadoria e de assuntos no trending topics estão sendo resolvidos. Neste caso, o que falte, talvez, seja um olhar mais atento à nossa querida língua portuguesa.

Espero que fique claro que a intenção deste texto não é criticar a rede, em troca de alguns coraçõezinhos. Muito menos ser um manual de dicas infalíveis sobre como melhorar a plataforma. Este artigo é apenas uma visão sincera e relativamente carente de informações técnicas sobre modelo de negócios, as dificuldades de programação e os números da empresa (lucro, usuários, investimento, etc.) de alguém que acha o Medium incrível e quer vê-lo ainda melhor.
¹ A palavra padrão foi grifada para evidenciar que mesmo que exista tal padrão entre portais de notícias de grandes empresas de mídia, há muitas exceções — mesmo dentro destas corporações.
² A ausência de referências nos gifs e fotos utilizadas se dá por dois motivos. Primeiro, acredito que as mídias escolhidas já fazem parte do vocabulário digital das pessoas, deixando de ser uma produção individual com objetivos comerciais, para tornar-se uma ferramenta de comunicação.
Portanto, como a apropriação da forma foi feita de maneira coletiva, inconsciente, sem fins lucrativos e independente dos objetivos daqueles que originalmente a produziram, o conteúdo surgido é uma criação conjunta tantos dos produtores quanto de seus distribuidores.
Segundo, na maioria dos casos, a mídia foi criada ou editada de maneira anônima e/ou colaborativa, sendo assim, impossível de conhecer seu verdadeiro autor.




