Sobre o que estou falando quando falo de princesas africanas?

Revelar os personagens de origem africanas é dar força e amparo a um público que há muito não tem sido atendido

Edhson J. Brandão
Dec 11, 2017 · 4 min read

Em uma dessas manhãs de segunda-feira resolvi ler um conto infantil sobre princesas africanas para meus alunos. Um mito de Oxum e Oiá que escrevi há tempos e venho trabalhando nele para publicá-lo o mais breve possível. Já havia lido outros contos com protagonistas negros, mas, até então, a turma e eu nunca tínhamos entrado em um debate.

As crianças não sabiam de minha autoria porque eu assino ficção com um pseudônimo. Gostaram da história, entenderam tudo de cabo a rabo. O conto surge de uma pequena desavença entre duas irmãs que desejam usar um espelho. A avó chega e conta uma história muito próxima daquela situação. É o mito de Oxum e Óia junto a um espelho misterioso. As ilustrações são bem interessantes e exigem alguma reflexão por parte dos interlocutores. Durante a narrativa, as crianças se incomodaram muito com uma das primeiras imagens onde é revelado o rosto da princesa Oxum. É uma jovem moça toda adornada de conchas e flores mirando um espelho. Muitos não reconheceram realeza naquele retrato. Houve um desconforto, estranhamento. Avancei na leitura e voltamos à conversa.

Questionei por que não acharam a princesa bonita, o que faltaria nela para que atendesse aos seus critérios. Afinal, o que havia? Falta a coroa, o cabelo, o vestido. O que são essas coisas na cabeça dela? Princesa não se veste assim! Tem princesa na África? Assim iniciamos a discussão.

Mencionamos as realezas mais conhecidas da infância. A Disney se mostrou presente. Elencamos as principais características e concluímos que apenas a Tiana se enquadrava naquele perfil. Perguntei: e por que só tem ela enquanto princesa negra? Silêncio. Uma garota rompeu: Tem a Pocahontas! Não, ela não é negra. É indígena. Assim fomos conversando e pensando sobre a normatividade da beleza. Fomos percebendo a questão da representatividade de pessoas negras nos veículos midiáticos. Até que um dos alunos concluiu: “As pessoas falam assim, professor, mas não sabem que tem mais negros no Brasil do que brancos”. Então chegamos à reflexão: quais heróis, personagens de desenho animado e filme, as crianças negras e afrodescendentes têm para se ver como igual?

Na época que me surgiu a ideia de escrever o livro estava muito inspirado pelo trabalho da escritora Kiusam de Oliveira. Seus livros infantis giram em torno do imaginário das crianças negras e atendem esta questão de representatividade. Pesquisei sobre outros livros sobre a temática e minha conta foi rala. Há pouco, muito pouco. O espaço literário infantil agrega poucos livros com protagonistas negros. Ainda ouvem-se poucas histórias que vieram da África. Não conhecemos suas realezas, seus heróis e aventuras. Estamos perdendo há muito tempo.

Eu não sou negro. Eu nunca vivi esta crise de representatividade e poucas vezes me vi longe dos personagens que tanto gostei. Não sei medir o impacto desta escassez de repertório em minha personalidade. Talvez, o que eu sinta de mais próximo foi a afeição a um personagem de desenho animado contemporâneo. Há alguns meses conheci “Steven Universo” em uma postagem do Facebook. Perguntei aos alunos se conheciam, sim, e recomendaram. Assisti. Identifiquei-me muito uma vez que o herói da trama é de um perfil incomum. Um garoto gordinho, nerd, de cabelos aparentemente cacheados que tem por missão aprender a usar seus poderes herdados de sua mãe. Steven é orientado por três mulheres fantásticas, cada qual representando uma joia valiosa. A de Steven é um quartzo-rosa. É um dos meus programas preferidos e comecei a pensar como seria interessante esta animação na minha infância. Fui um garoto como Steven, mas, na época as referências eram outras. Goku, Homem-aranha, Ash Ketchun, Tai, Seya e etc. Consolava-me muito o Shun dos Cavaleiros do Zodíaco e a Sakura CardCaptor. Mas, adorava-os em segredo e todo mundo sabe porque.

Assim, a partir desta reflexão é possível se perguntar como se sentem as meninas e meninos negros que não se enxergam nas referências infantis altamente populares. Alguns personagens negros surgem nos elencos e dão a impressão de preencherem uma cota . Na Turma da Mônica só consigo lembrar do Jeremias, personagem um tanto secundário. Em As Meninas Superpoderosas, depois de anos, surgiu uma protagonista negra. E, sabemos, quão rico é o repertório de personalidades e personagens negras que podem figurar e ocupar diversos espaços.

As meninas precisam conhecer as princesas africanas. Os mitos das iabás (deusas africanas, orixás femininos no Brasil) podem ser contados sem conotações religiosas. Não são apenas divindades, mas, também, personagens históricos. Povoam o imaginário africano e estão presentes na história das inúmeras etnias. Os meninos também precisam conhecer os grandes guerreiros, reis e caçadores deste panteão.

Ninguém tem problemas com Thor, Poseidon, Afrodite e Atenas. Mas com Iemanjá e Ogum sim. Exú então, nem se fala.

Revelar os personagens de origem africanas é dar força e amparo a um público que há muito não tem sido atendido. As princesas africanas educam o olhar para o belo que ainda é coberto pelas sombras dos séculos passados. Ninguém deixará de falar sobre a Branca de Neve ou Ariel, porém, junto a elas vamos contar sobre Euá, Bintou, Bucala e tantas outras.

É preciso deixar ver. E é sobre isso que estou falando quando falo de princesas africanas.

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