
Sobre Racismo Reverso e Vitimismo
A Miss RS perdeu para a Miss Piauí é isso gerou um dos casos mais patéticos de racismo disfarçado de opinião que eu vi nos últimos tempos. Eu particularmente não gosto desse concurso, normalmente é um tema que eu não falaria, pelo simples fato de não ver muito motivo pra existência do mesmo.
Vamos partir do princípio que o concurso de Miss se baseia unicamente na aparência, o que não é verdade, já que o objetivo é além da boa aparência, que a escolhida reúna todas as características de uma dama como era o conceito de uma na época de origem do concurso. Sim, eu sei o quanto isso é errado e machista, mas vamos ignorar isso por uns momentos para fins de argumentação.
Monalysa (o nome da ganhadora) é uma mulher linda, mas aparentemente não ser branca e ter padrões e traços europeus, como a candidata gaúcha, não é bonita, é apenas alguém de classe inferior que ganhou por pena, por “cota” e por medo de ir contra as minorias… Sim essas são algumas das coisas que eu li sobre o resultado da premiação. Ofensas em relação ao cabelo dela, ao estado dela, a origem dela (enquanto classe social) vieram junto com os de racismo direto.
Eu não tenho papel ou posição para falar do concurso enquanto avaliação feminina ou do racismo contido nela, por ser homem e ser branco, não é meu papel, por isso vou falar do que posso, o vitimismo de quem está em uma posição favorecida e sobre como a opinião não é liberdade absoluta.
Uma característica bem comum aos “justiceiros virtuais” é o fato de que eles nunca estão diretamente envolvidos com o caso, ou se estão, se apegam pelas características erradas ou fazem associações sem muito valor. Por exemplo, dizer que a Juliana Muller (Miss RS) me representa por nós dois sermos brancos, e a derrota dela, também ser a minha derrota.
Os maiores defensores da pena de morte, punições violentas e contrárias a qualquer tipo de direito e condição mínima para presos, são pessoas brancas e de classe média, algumas inclusive, parte da minha família e que nunca foram assaltadas. Quando não existe nenhum tipo de conexão, seja ela emocional ou física, é mais fácil não se importar, ver o preso como o lixo que vai debaixo do nosso tapete, ver o morador de rua como a erva daninha que polui os jardins e as praças da cidade, ver o negro como alguém que vive do passado e se apega a algo que nem existe mais. Mas amontoar presos nas celas só faz a criminalidade aumentar. Recolher os desabrigados em vans e larga-los fora do perímetro urbano ou da rota turística da cidade só joga o problema pra depois. Dizer que os problemas do negro são passado, só ajuda a perpetuar o racismo, mas fingindo que ele não existe.
Quando se vive em uma posição confortável, sem direitos sendo questionados, é muito mais fácil transformar crítica social em reclamação, pois você não está lutando por direitos quando sofre “racismo reverso” ou quando é “atacado(a)” por uma feminista, simplesmente está lutando pra se manter em uma posição superior e vantajosa pra ti, por incapacidade de entender que o outro ter o mesmo nível de direitos que você, aumenta os direitos dele, não diminui os seus. Isso não é privilégio, é igualdade.
Um argumento super comum, seja de rede social até conversa de boteco, contém em algum momento “Olha essa é a minha opinião, tenho o direito de pensar assim”. O que eu considero, uma das frases mais egoístas de todas, já que com ela, você se dá o direito de ignorar absolutamente tudo que seja contrário ao seu modo de pensar. Dizer que é a sua opinião e que é um direito seu, que aquele posicionamento deve ser respeitado, é simplesmente dizer, na maioria das vezes, que você não está aberto a considerar o lado do outro, que a forma que tu pensa é a correta e fim de assunto.
Veja bem, claro que existe situações em que esse tipo de pensamento tem um efeito positivo, como quando sua opinião é sobre não pular de uma ponte ou passarela sobre uma rodovia pois na sua opinião, aquilo vai te machucar ou até custar a vida. Mas quando envolve o direito e o valor social dos outros, estar aberto a estar errado e não ser o dono da razão baseado em “eu acho”, a tua opinião pode ser um atraso na vida dos outros.
Um exercício bem interessante, pra diminuir gradualmente essa posição de pensamento, é parar para pensar em o que realmente muda pra pior na sua vida, quando alguém ganha um benefício. A Monalysa é a nova Miss Brasil, isso ajuda a aumentar a representatividade social da mulher, negra e do nordeste, esses grupos vão ter mais vez e mais voz, mas isso vai calar a tua voz? O que pode acontecer é você ter menos oportunidade de fazer comentários degradantes contra esses grupos, mas é um “direito” que vale a pena lutar? Realmente é tão importante assim pra você, ou é a única forma de fazer humor, dizer que a mulher pertence a cozinha? Que é divertido julgar qualquer estado do norte e nordeste como os culpados dos problemas do Brasil e que bolsa família é compra de voto? Dizer que o sistema de cotas tira o teu direito de entrar em uma faculdade quando você tem condições de pagar e acreditar cegamente que o único tipo de benefício universitário se baseia em um sistema de cor de pele?
Sinceramente, eu não te conheço, não sei quem é, qual a sua realidade ou onde mora, mas sei que é muito mais do que uma piada ruim, que precisa diminuir os outros pra ter graça, que é capaz de pesquisar sobre as coisas que vai falar. Que existe em ti, potencial pra ir além das notícias em grupo de Whats e páginas do Face. Faça isso, não é preciso uma posição de conforto e superioridade aos outros, pra ter uma vida feliz.

