Sobre Reggie

PS: pode conter spoilers de Dear White People (não acredito nisso, enfim…) mas não prejudica sua experiência com o seriado

Bem, todo mundo conectado no lançamento da série “Dear White People” no Netflix. O filme, que já fora um estouro quando lançado (se não me engano em 2014), agora ganhou vida com sequência mais aprofundada da vida dos personagens, e situações após o fatídico episódio da festa com blackface.

Não tenho nada a comentar de valor para além dos que textos e posts sobre o tema já trouxeram. A riqueza do seriado nos tópicos, detalhes e grandezas de roteiro, tudo. Essa série é mindblowing em muitos aspectos, e tenho certeza que reverberará por algum tempo, na esteira de outras seriados como black-ish, Atlanta, Empire, Boondocks, entre outros tão potente sem sua mensagem e potencial catártico e de identificação.

Apenas queria fazer um comentário sobre Reggie. Ou melhor, “aos Reggies” que existem aos montes (mas muito menos do que gostaríamos que existisse).

Reggie me chamou muito atenção no seriado pois seu personagem foi bem melhor trabalhado que no filme — no qual, na minha opnião, era muito mais flat, e apenas um militante chato e abusivo. Na série ele aparece com muito mais camadas, e assim, com maior complexidade — e mais próximo de experiências do real com as quais podemos nos conectar.

Reggie é aquele indivíduo pertencente a uma minoria que está ocupando um espaço no qual não há muito dos seus. Nesse espaço, Reggie ganhou notoriedade por, a partir de uma experiência específica e sua de identidade e pertencimento racial, se engajar e liderar processos políticos dentro da instituição que estava em prol dos seus. A partir de seu engajamento, e associação com outros, Reggie se destaca em seu discurso e atitudes firmes, que logo abriga nas nossas caixinhas de conexão históricas de memórias com lideranças de outros reais e grandes movimentos de protesto negro. Nós conseguimos admirar ou criticar Reggie, porque seu personagem, no seu ser-e-agir público daquele espaço institucional, no qual ele é minoria, ressalta uma série de atributos que identificamos na experiência histórica criada e cultivada sobre lideranças negras. Aliás falei um pouco sobre isso no “Era de Aquário”. Mas como “quem sou eu para falar?”, deixo como referência um belo trabalho de Cornel West, “Black Prophetic Fire”, no qual também é possível ter tais dimensões.

Mas tem outro lado. E esse lado é de uma riqueza fundamental, pois vincula como existe conexão entre processos subjetivos e processos de socialização. Partimos do fato de que Reggie é muito inteligente. Sim, e com referências. Apesar da brincadeira na cena na qual ele ganha em um jogo universitário do estilo “erra-e-bebe”, os detalhes do conhecimento e certo domínio erudito de Reggie sobre temas envolvendo História e sociedade norte-americanas é digno de nota. E isso por alguns motivos.

Esse cena me deu um “ploft” na mente…

Primeiro, e quem conhece sistema educacional norte-americano, sabe que os processos de seleção são relativamente competitivos e ferozes. O elenco do seriado está em uma universidade Ivy League, o que significa dizer que estão no crème-de-lá-crème da elite intelectual universitária norte-americana. Reggie está lá, como aluno, porque foi selecionado — e isso, mesmo não sendo foco da série mostrar, evidencia uma pessoa que teve uma trajetória de boa educação e esforço. Ou seja, Reggie é um indivíduo negro que conseguiu, a priori, superar uma primeira barreira de existência e possibilidade de ascensão (que é o acesso ao ensino superior, e no caso, de alta qualidade). E não vamos tomar isso como um dado, pois o acesso à educação, e em especial a instituições de qualidade, sabemos ser algo extremamente rarefeito.

E segundo, e aliada a noção de esforço que provavelmente seu personagem desempenhou em sua caminhada, é que seu personagem evidencia o que ocorre com negros que ascendem a ambientes “não tidos como seu”: ele sempre precisa “se superar”. A discussão sobre síndrome do impostor ou da auto exclusão demonstra isso com bastante eficácia. Indivíduos pertencentes a estratos e grupos sociais oprimidos e invisibilizados, negados em sua potência de existir plenamente, tendem a não se aceitar quando alcançam espaços de poder, negados para grande contingente ao qual ele faz parte. Como efeito disso, e como sintoma disso, a pressão para ser 10 vezes melhor é uma realidade em relação a como sua subjetividade lida com os processos aos quais precisa enfrentar durante sua vivência naqueles espaços. Reggie é um exemplo de alguém que se apropria daquele meio e evidencia sua excelência naquela brincadeira. Ele é bom. Ele merece estar ali. Ele diz isso para provar a si mesmo que merece estar ali. Ele sabe de mais fatos — alguns até desnecessários, escolasticamente falando — que qualquer um. E tudo para pode ser igual. Para poder ser, na excelência, parte do normal do que é e estar naquele espaço.

Reggie é um instante de contato e reflexão para muitos negros e negras que conheço, em suas batalhas diárias para conseguir conquistar o que merecem e o que desejam. E lembrar que sua excelência não é só fruto de “ser um especial”, mas de um conjunto de disposições alcançadas em suas trajetórias pessoais e de grupo (comunidade, famílias) que condicionou possibilidades efetivas e subjetivas para que eles pudessem aceder. Reggie nos possibilita pensar e discutir que um indivíduo na sua condição (jovem negro) pode exercer a sua mais plena potencialidade quando devidamente amparado por uma constelação de apoios e oportunidades. Isso está off-the-record na série, sim. Mas ela só existe porque isso aconteceu.

Claro, e isso é de praxe a todos nós, que não impede as angústias perpetuadas por um sistema que constantemente vai esmagando a cada oportunidade seu ego e sua subjetividade. E claro, o que retroalimenta a violencia do silenciamento e contra a dignidade, não impede de termos a arma apontada na cara. A arma. Esta independe de esforço, vontade ou potencial de nossa parte. Ela sempre estará apontada, de uma maneira ou de outra, para nós. E isso não é só com Reggie.

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