Airton Dias
Apr 12, 2018 · 4 min read

Na aula de Biologia do primário você com certeza ouviu falar deles. Os ruminantes, animais que possuem vários compartimentos gástricos e contam com um longo processo digestório para a ingestão de vegetais. Mas eles são famosos mesmos por ruminarem; o que basicamente significa ficar mastigando o alimento por horas, isso, depois dele ter sido engolido e regurgitado de volta à boca.

O ser humano, por outro lado, tem um sistema digestório mais simples. Não precisamos converter os alimentos em componentes químicos para serem absorvidos e, muito menos, remastigar tudo o que comemos. Mas não estamos salvos de ruminar. E fazemos isso o tempo inteiro. Mesmo com o estômago a nosso favor, temos dificuldades de digerir certas coisas. Quer um exemplo? Pense em quanto tempo você costuma demorar para engolir, processar e se livrar de um ódio.

Pode admitir, ao menor sinal de discordância em qualquer atmosfera da convivência humana, você já pode ter apelado para esta condição digestiva peculiar em dois tempos. É natural, como se livrar de algo enorme travado na garganta de uma vez? O ódio é complicado mesmo, amigo.

Nós, por uma obra da evolução e seleção natural, somos os únicos animais capazes de ingerir este sentimento. E ele age de formas distintas em cada organismo. Existem indivíduos que precisam destilar o ódio na internet antes de retirá-lo do seu corpo. Deixam um “comunista/fascista” aqui, outro “petralha/coxinha” ali. Cospem emojis de vômito em tudo que se refere a Anitta, Pabllo Vittar, ou qualquer achado recente da música brasileira. E, sobretudo, mastigam por horas o gostinho de ver uma opinião contrária à sua ser postada nas redes sociais.

Típica sessão de ódio gratuito

Não tão raros também, são espécies que adoram ruminar em conjunto. Como gado, se cercam de seus semelhantes em ódio no pasto de um grupo de WhatsApp ou Facebook. Ali, todos se ajudam, como uma terapia conjunta, na tentativa de fazer a digestão do seu ódio por um time, partido, filme, e até, pasmem: jogo de videogame! Sim, o ser humano consegue nutrir ódio por um jogo de videogame. E, mais ainda, ter uma completa complicação gástrica em decorrência da raiva.

A prova disso está na sessão de comentários no Youtube. Os tolerantes a PS4 gastam energia explicando a sua intolerância ao Xbox One. Os que preferem FIFA atacam quem degusta um PES - mesmo que uma vez ou outra. Com fervor quase religioso, tem ainda quem fique horas discutindo e remoendo por que um jogo eletrônico pode (ou não) ser considerado esporte.

Leonardo Sakamoto - que sofre ataques constantes de quem se engasga com suas ideias - define o ódio como um lugar quentinho e aconchegante. Tem até aplicativo de paquera unindo pessoas por coisas que elas odeiam em comum. Não precisa ser filósofo para ver algo muito estranho nisso aí.

A verdade é que, longe de ser quentinho e aconchegante, o ódio é algo difícil de tirar do organismo. No meio do processo, fazemos de tudo para lidar com isso. Mas a internet está aí para provar que estamos no caminho errado. Se, por um lado, não somos gado em um futuro distópico de George Orwell, em que uma opinião contrária à manada colocaria qualquer um em apuros, estamos longe de usar toda a liberdade de expressão a nosso favor.

Veja, somos animais teoricamente racionais e razoavelmente livres, desperdiçar isso remoendo ódio não nos faz melhor que espécies menos favorecidas pela evolução.

A capacidade humana de tomar decisões nos permite feitos incríveis. É possível se afastar do que te embrulha o estômago, não perder tempo com o chorume da internet, evitar o que não é saudável para o convívio social e, pasme, deixar de ruminar um sentimento negativo por mais tempo que o necessário. Eu sei, nem sempre dá para escapar de uma coisa odiosa, mas como bons Homo sapiens que somos, podemos digerir isso em uma tacada só.

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Ainda pego fila de banco, assisto filmes de faroeste e não tenho 60 anos.

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