Sobre saber perder

O impeachment está instaurado. E agora?

Nos últimos meses, foi amplamente divulgado por vários setores da esquerda que estava em curso um golpe à continuidade democrática com a destituição da presidente Dilma Rousseff do poder. O que se observava, porém, não aparentava tal configuração. Primeiro, porque seguiu todo o rito legal previsto na constituição. Segundo, pois esteve sob constante escrutínio do Poder Judiciário, o qual consentiu com todo o processo. Houve direito amplo e irrestrito para a defesa do Governo, discussões acaloradas de deputados e senadores, e aprovação de mais de dois terços das duas casas. Tudo isso puxado por uma crescente vontade popular: mais de 60% da população apoiava a saída presidente. Golpe, porém, foi exatamente o que o Governo tramou contra os movimentos sociais e seus eleitores.

Enquanto posava como defensor das minorias, era responsável por um dos maiores genocídios da população indígena pós-democratização. Importante lembrar que o número de assassinatos desse povo cresceu 326% nos governos petistas em relação à FHC. Só em 2014 esse crescimento foi de 130%. É impossível dissociar a culpa do Governo Federal nesse processo. A construção de empreendimentos como a Usina Belo Monte marginalizou diversas comunidades ribeirinhas e povos indígenas, com mais de quarenta mil pessoas afastadas do lugar onde vivem. Quando essa população tentou dialogar, a resposta do governo foi puramente autoritária, colocando a Força Nacional para reprimir os dissidentes. Em meio a todo esse quadro, a FUNAI, órgão indigenista oficial brasileiro, começou 2016 com quedas no quadro de funcionários e orçamento abaixo do previsto nos anos anteriores. Além disso, o Governo Dilma entrará para a história como o que menos demarcou terras indígenas desde a redemocratização, deixando na insegurança jurídica centenas de índios que possam ter as suas terras invadidas.

Em sucessivos anos, a sociedade brasileira teve que conviver com o aumento progressivo da violência sem grandes ações governamentais eficazes para o seu combate. O país hoje possui mais de 10% dos assassinatos de todo o mundo, e a principal vítima desse cenário é a população negra e pobre. Em dez anos, o assassinato de negros cresceu 18,2% ao passo que a letalidade de não negros diminuiu 14,6%. Para o governo petista, porém, o PSDB que é complacente com o extermínio da juventude negra.

O lema adotado pelo Governo, “Pátria Educadora”, ficou apenas no plano ideológico. Não houve evolução expressiva do Brasil em rankings internacionais de educação desde 2003, e quando surgiu uma promessa de iniciar a largada, mais uma vez fomos enganados. O país trocou de ministro da educação três vezes em dez meses em 2015, sem que nenhum pudesse implementar um plano efetivo de melhoria. Observou-se, ainda, cortes orçamentários bilionários nessa área, dificultando a viabilidade de qualquer mudança. Programas sociais que antes eram vitrine do Governo, como o Ciência Sem Fronteiras e o Pronatec acabaram sofrendo com a crise e estão cada vez menores. Novas bolsas de pós-graduação também foram cortadas, tudo isso mostrando que a preocupação do Governo com a educação é apenas um mero instrumento de propaganda.

A maior desonra do PT, porém, talvez tenha sido com seu próprio nome. O Partido dos Trabalhadores hoje deixa o país com 11 milhões de desempregados, com o grau de desemprego chegando a uma marca histórica de quase 11%. Essa quantidade foi a mesma que Dilma usou para desqualificar o governo do PSDB no twitter durante a campanha de 2014. A gestão atual também foi responsável por um aumento de 140% no rombo dos fundos de pensão no último ano, prejudicando a aposentadoria de milhões de contribuintes que terão que arcar com o prejuízo. Não satisfeito, o Governo ainda usa o dinheiro do trabalhador em repasses gigantescos para grandes empresas via BNDES, com valores que aumentaram exorbitantemente nos últimos anos, contribuindo para a concentração de renda. Um Robin Hood às avessas. Todo esse processo está intimamente ligado com o financiamento de campanha e empresas atreladas à corrupção.

Isso tudo para não falar das várias propostas de campanha nunca cumpridas pelo partido, como a criminalização da homofobia, os investimentos no sistema de saúde que continua sendo um dos piores do mundo, a construção de creches e as obras inacabadas do PAC.

O Brasil de hoje não é um país que avança. Se somos uma sociedade em movimento, estamos indo para trás, e não para frente. Temos uma inflação que chega a 9% e nossa renda média diminuiu 7,4% em um ano. Há 4 milhões de famílias transitando da classe C para as classes D/E e um aumento no número de miseráveis. Estamos com os investimentos em saneamento parados, mesmo que o nosso país ainda possua 100 milhões de habitantes sem coletas de esgoto e epidemias se alastrem pelos quatro cantos do Brasil. Caímos 20 posições no ranking de infraestrutura do Banco Mundial.

É preciso saber perder. E reconhecer a derrota. O projeto de governo em vigor nos últimos anos falhou. Quem saiu perdendo não foi uma classe, e sim toda a sociedade. Precisamos de uma ruptura, de novas alternativas e projetos para o Brasil. Não podemos correr o risco de ficar estagnados no erro, a custo do futuro de toda a nação.

Não houve golpe. Não podemos reduzir a democracia ao mero ato de votar e esperar as próximas eleições. Deliberar sobre a condução da máquina pública também deve ser uma prerrogativa democrática, e a maioria dos cidadãos mostra-se insatisfeita com a forma como ela estava sendo comandada na atual conjuntura. É preciso abandonar o apoio cego a um partido ou candidato e voltar a debater ideias, buscar conhecimento e questionar as autoridades. Sem o desejo de mudança, ela nunca se concretizará.

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