Este sou eu!

Sobre ser negro, pobre e bolsista

Sou negro,
mas não tenho uma piroca de trinta centímetros;

Sou da roça,
mas não canto e danço músicas tradicionais como faziam meus ancestrais há séculos atrás;

Sou pobre,
mas leio Nietzsche, Kafka, Kant e Borges e ouço Bjork, Chico, Tom Zé e Criolo;

Sou bolsista,
mas nem por isso sou menos inteligente que os meus colegas de classe com pais abonados;

Minha mãe é professora e meu pai trabalhador rural,
o que significa dizer que ela ganha pouco e que ele não ganha nada,
mas isso não impediu o meu ingresso em uma das melhores universidades privadas do Brasil;

Sou humilde,
mas não dá para confundir humildade com servidão, então não me peçam para falar como convém.

Sou um sonhador,
é o mais importante. Quanto ao resto, quem garante?

Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, como cantava Belchior;

Isso não significa que não ouço música popular, que tenho aversão às danças tradicionais ou que não leio best sellers.

Alguns negros, de fato, possuem o órgão sexual avantajado e não há problema nenhum em falar sobre isso.

Eu não tenho.

O foda é quando colocam essas características como se fossem a única configuração possível:

‘Todo negro é pirocudo, todo pobre é menos inteligente, todos os moradores da zona rural são atrasados naturalmente com relação àqueles que residem em grandes centros urbanos.’

Não é por outro motivo que policiais desconfiam ‘instintivamente’ de pessoas negras.

Isso é assunto pra outra conversa.

Rótulos oprimem.

É uma merda ter que falar essas coisas,
mas não dá para engolir calado como se estivesse tudo bonitinho e colorido.

Vá com seus rótulos para o inferno!

Acredito que o mundo pode ser um lugar bem melhor para se viver se as pessoas forem um pouco menos preconceituosas.