Sobre ser um artista independente

Fora das grandes capitais, viver da arte dói ainda mais

Alagoas, terra de nomes consagrados da arte como Lêdo Ivo, Djavan e Graciliano Ramos, segue sendo um grande berço para artistas — apesar de ter perdido quase totalmente sua visibilidade. Conto aqui com a colaboração e maestria de Callado para discutir um pouco sobre indústria musical e, claro, sobre ser um artista na terra de Macabéa.


Vale começar falando a respeito desse tema que por muito tempo me incomodou sobre o cenário artístico local: como essa terra um dia já contou com tão grandiosos nomes e mesmo assim os artistas contemporâneos lutam tanto por um pedaço do restrito holofote nacional? Divagando sobre isso e discutindo o assunto com Callado, ouvi uma constatação verossímil: todos os artistas locais que ganharam renome e um local no hall das estrelas nacionais saíram do estado.

Vale-se notar também que a arte se tornou algo bem mais democrático e menos plutocrático. Antes, apenas os ricos e instruídos ousavam trilhar o caminho muitas vezes pouco remunerado da criatividade. Logo, sentiam facilidade em sair do estado e buscar visibilidade fazendo uso de seus contatos e patrimônio — ao contrário do que ocorre atualmente.


Divulgação — Callado

E ao falar em democracia, como não falar nela — a que transformou o cenário não só da arte, mas de todas as formas de expressão?

A internet é considerada pela maior parte dos artistas que vivem fora dos grandes centros metropolitanos como a forma de conseguir um público no país em que os veículos massivos de mídia escolhem se voltar para os artistas consolidados e desprezar as estrelas em ascensão.

Leila Alpino, vocalista da banda de reggae alagoana Freedom Songs, resumiu de forma bastante sucinta a sensação que se tem na música local:

“Ser artista em um lugar onde não se existe incentivo a cultura é bastante complicado, pois se faz necessário construir seu trabalho de uma forma totalmente independente, isso pede um certo investimento — gravar material audiovisual, etc.. Mas os serviços de streaming e as redes sociais têm ajudado muito nesse sentido, já que é uma forma mais barata e abrangente que os artistas podem usar para promoverem seus trabalhos e romper fronteiras. E isso tem sido ótimo pois ocorre muita troca de cultura e influências, mas eu acredito que ainda não é o suficiente pra descentralizar a cena musical do eixo Rio-SP. Lá existe um incentivo maior: festivais de música e os grandes produtores musicais estão lá. Mas esse boom digital já é um bom começo pra que as pessoas possam difundir suas culturas de norte a sul!”
O festival Maceió Verão sempre reserva algumas vagas à artistas locais, mas esses contam com público reduzido.

Em um momento onde grandes nomes da indústria como Björk e JAY Z acham que a execução gratuita e ilimitada de suas obras é um desrespeito ao valor da arte, é importante discutir o tema. Hopeful é o primeiro album de Callado a ser lançado em serviços de streaming, questionei ele a respeito do que pensava sobre as novas formas de se consumir arte.

“[…] (os serviços de streaming) abriram o leque de opções e ações. Além de uma mudança no perfil do consumidor de música pelos meios tradicionais. Eles (artistas) podem até remar contra a maré mas, na minha humilde opinião, é um caminho sem volta. A internet socializou, abriu, quebrou a caixa.”

Ele não deixou de citar a natureza descentralizada que a internet tem:

“Tentar frear ou impor algo na rede… vai se dar mal, assim vejo.”

Enquanto aumentam o publico de quem se preocupa exclusivamente em difundir o seu trabalho e ter sua voz ouvida, os serviços de streaming claramente aborrecem aqueles cujo trabalho já está consolidado. Mas a lógica de um serviço de streaming é a mesma que um festival: como difundir bem artistas menores sem ter um grande nome para atrair as massas?

Alguns artistas grandes realmente não se importam em ter seus trabalhos disponíveis gratuitamente: esses fazem grandes malabarismos para manterem seus patrimônios. De uso de rede sociais, publicidade ou turnês mundiais que se arrastam por meses, a rotina de um artista grande na era digital é, para dizer o mínimo, cansativa.


Vários artistas atuais devem, também, toda a sua visibilidade à internet: Sevdaliza, iamamiwhoami e Jaloo são alguns nomes — para dar exemplo. Mas seria ela sozinha capaz de suprir toda a carência que regiões afastadas do país (e de todo o globo!) têm de voz? Como Leila destacou em seu comentário, não.

Instituições que normalmente tomam a responsabilidade de fomentar a cultura no plano regional ou estadual simplesmente não tem fundos o suficiente para fazer um bom trabalho, as pastas de cultura preferem segurar verba durante meses para contratar algo que vá gerar um maior apelo popular — como o show de um artista global em um festival na cidade.

Grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, contam com uma infraestrutura superior no que diz respeito a realização de eventos — são espaços que muitas vezes contam com uma totalidade de equipamentos à disposição do artista. Fora de lá? Até mesmo uma bateria têm de ser desmontada e transportada para o local.


A arte não deve depender somente de fundo governamental. Teríamos Lorca e outros artistas provocativos se sim? É necessário que a iniciativa privada, também, tome consciência de todas as oportunidades (criativa e financeiramente) que existem espalhadas pelo território nacional.

Até quando os investidores na área do audiovisual vão desprezar o potencial que existe fora de seus círculos metropolitanos? Já há quem prove a capacidade de um artista de regiões mais afastadas do país, mas falta quem muna esses indivíduos com as condições necessárias para alcançarem todo o seu potencial.