Sobre sonhos que deixamos pelo caminho

E a nossa responsabilidade sobre isso.

Tenho uma mea culpa a fazer: eu já fui o tipo de pessoa que bota pra baixo os sonhos dos outros. Vou contar essa história.

Há algum tempo atrás, eu trabalhava em um lugar dividido por duas agências de publicidade, com direito a todo o glamour que a área proporciona: clientes grandes, computadores caros, gente jovem reunida, um escritório bonito e descolado.

Como uma das duas empresas era famosa no mercado, desses nomes que o pessoal ouve ainda na faculdade, era comum que algumas universidades levassem as suas turmas para conhecer o espaço. Me lembro com clareza: os alunos entravam pela recepção, que ficava no andar mais alto do prédio e de onde era possível ver uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro. Em seguida, desciam pelas escadas com os olhos brilhando, curiosos que só pra ver toda aquela gente fazendo exatamente o que eles estudavam pra fazer no futuro. Passavam pelas nossas mesas, comentavam coisas entre si, pareciam sempre meio envergonhados.

Como o clima era descontraído, com frequência eu e meus amigos de trabalho brincávamos com as visitas. Dizíamos coisas como “foge” ou “é uma cilada, Bino”, desencorajando aqueles meninos a seguirem na profissão e, um dia, conquistarem um lugar entre nós. Tudo em tom de piada, é claro. Uma piada que, hoje em dia, entendo ser de muito mau gosto.

Photo by Danica Tanjutco on Unsplash

Em nossa defesa, em vários momentos o dia a dia era mesmo opressor: as horas de trabalho eram infinitas e remuneradas apenas em pizza para quem ficasse até depois do horário (pizza, claro, que seria paga pelo funcionário e reembolsada muito tempo depois). Os salários eram majoritariamente baixos, especialmente para quem mais se esforçava. O videogame, um clássico citado toda vez que um local de trabalho quer se mostrar divertido, raramente estava ligado e, mesmo que estivesse, nós nunca teríamos tempo de jogar. Como se tudo isso já não fosse suficientemente cansativo, não eram raros os casos de machismo e até a homofobia. Jogue no Google a realidade das agências de publicidade no Brasil, dados não faltam.

Porém, em meio ao drama da bolha que vivíamos, esquecemos que aquilo que o que para nós soava como um alerta, pra eles era uma frustração. O que os estudantes viam naquela visita era mesma coisa que nós tínhamos visto no mercado publicitário, anos atrás: uma oportunidade de lidar com grandes marcas, de aprender, de trabalhar em um ambiente criativo, que não fosse tradicional ou careta, com gente da nossa idade.

Hoje, olhando para trás, eu lembro de tudo que me incomodava, é claro, mas também lembro dos vários contatos (e amigos) que fiz por lá e que acompanham a minha carreira até hoje, me empurrando pra frente a cada passo. Lembro do tanto que aprendi com profissionais generosos, dispostos a ensinar e a trabalhar em equipe. Lembro que senti a minha carreira evoluir de verdade, mesmo que aos trancos e barrancos.

Em meio aos problemas, ficamos cegos ao que aquilo nos trouxe de bom.

A realidade é que eu não sei de onde vinham aqueles alunos, o que eles tinham enfrentado para estarem ali. Eu não sei quais eram os seus sonhos, não sei o que estar ali representava pra eles, mas eu hoje posso imaginar o quanto a experiência de estar ali, no meu lugar, poderia significar pra eles o começo de um futuro melhor.

Todos nós, naquele escritório, já tínhamos, de uma forma ou de outra, sonhado produzir uma publicidade que mudasse o mundo, mesmo que só um pouco, mesmo que só por um segundo. Todos nós tínhamos sido aqueles estudantes esperançosos um dia. Do alto dos nossos privilégios, esquecemos que talvez estejamos exatamente onde alguém quer estar.

Todo cenário tem lados bons e ruins. Não é sempre fácil a vida de quem imigra pra um país da Europa, por exemplo. São muitas mudanças repentinas, burocracias, saudades, muitas vezes que a pessoa vai se sentir fora do ninho. Mas estar ali é algo a se valorizar e algo que pode trazer muitas vivências positivas.

Você pode alertar os outros para os buracos na estrada, mas não é justo dizer para não se aventurar. Não é justo dizer para alguém não emigrar, por exemplo, quando você está morando fora e não pretende voltar. Quantos não dariam tudo para estar no seu lugar? Quantos não têm sequer como sonhar com isso? No lugar de quantos outros você mesmo gostaria de estar?

A lição que ficou pra mim é que o caminho pode trazer coisas completamente diferentes para cada um de nós e as pessoas podem ver onde a estrada vai dar pelos próprios pés, sem seguir os passos de ninguém. A história de um não vai necessariamente se repetir para todos, experiências são individuais. Que bom que não fizeram como eu e disseram pra uma Yasmin mais nova desistir da redação. Aprendi que esse é o típico caso de que quando não se tem nada de bom a dizer, às vezes é melhor ficar calado.

É importante deixar o outro sonhar: seja com cursar uma faculdade, comprar a casa própria, morar fora do país, fazer uma viagem ou qualquer que seja a coisa. Se não damos as asas, quem somos nós para impedir alguém de voar?