Sobre surpresas trazidas pelas narrativas diárias e como mudamos a partir delas

Você acredita que…
(Ih, lá vem o comecinho que mostra que algo bom não aconteceu ou que algo ruim vai ser dito)
Na festa junina da escola da minha filha…
(Ai…)
Teve quadrilha e na hora do casamento teve casal gay?
(Para por ai, por favor.)
Na hora que o padre perguntou se havia alguém com algo que impedisse o casamento, duas pessoas se levantaram e o homem disse que era apaixonado pelo noivo e uma mulher pela noiva…
(O que eu faço pra sair daqui?)
No final, o casamento foi desfeito. E o homem casou com outro homem e a mulher casou com a outra mulher.
(É. Agora, acabou a história. Vai começar o show de horrores)
EU ACHEI MUITO LEGAL!
(Não. Espera. Como assim? Legal? Cadê os comentários corriqueiros?).
MUITO LEGAL MESMO!
“Legal mesmo”, disse eu, entre um estado de surpresa e de alegria comedida.

Essa situação aconteceu comigo hoje, logo pela manhã. Sexta-feita nunca é um dia muito fácil. Todo o cansaço da semana se junta naquele dia. Você não vê a hora do relógio chegar às 17h para sair e dormir todas as horas que você deixou de dormir a semana inteira(eu sei! Sou mais velho que muito idoso por ai!). Seu dia se arrasta a base de café, chá, lavadas de rosto com água gelada.

Mas apesar de estar dormindo, embora acordado e de olhos bem abertos, essa história ligou algo em mim e percebi que, diante da recorrência do dia-a-dia e de certas práticas comumente difundidas por ai, acabamos esperando sempre pelo pior. Por frases que podem te machucar. Por frases que difundem por ai preconceitos e simplificações.

O “você acredita que” pra mim sempre demonstrou que o algo a ser dito seria ou sobre determinado acontecimento ruim vivenciado pela pessoa (ou ouvido por essa) ou algum comentário que iria doer no meu ouvido e se transmitir para todo o corpo, gerando uma reação em cadeia e culminando na “virada de olhos” interna.

O “muito legal”, “muito legal mesmo” me despertou disso. Esperava que fosse dito que aquilo era errado. Que aquilo estava prejudicando as crianças ao fazer com que essas achassem que “aquilo” era normal. Que ela, a narradora da história, ia procurar nos próximos dias a coordenação da escola para fazer uma reclamação daquela “palhaçada”. Esperava tantas coisas, que nunca foram ditas. E que bom que não foram.

O que aconteceu, para minha surpresa e contentamento, foi exatamente o oposto. “Muito legal”. Muito legal mesmo foi você ter me acordado da letargia. Daquele pensamento de esperar sempre o corriqueiro. Ou o pior. Ou o comentário ofensivo. Me acordou para me reafirmar, mais um vez, que sim o mundo está mudando e que sim, um outro futuro é possível.

Me despertou do pesadelo errôneo de que o mundo e o modo como as pessoas pensam são majoritariamente próximos aos comentários de páginas de notícias no Facebook (quem nunca clicou nos comentários de Folha, Estadão, etc, não sabe o que é chorar por dentro de desgosto). Aquele show de aberrações, que insisto em olhar frequentemente, embora saiba que sempre me fará mal e me levará a desacreditar que um mundo possível é melhor. Que me fazia desacreditar, às vezes, que mudanças estão realmente ocorrendo.

Nos diálogos do dia-a-dia, uma frase pode sempre desencadear reações em você. Boas ou ruins. É fato, contudo, que após essas frases, você já não é mais a mesma pessoa. Esse diálogo me acordou. Me acordou para não mais esperar o pior em determinadas frases (ou nas introduções dessas). Mas também a não ser ingênuo e esperar sempre o melhor. Hoje, apenas espero. Se vier algo positivo, me surpreendo. Me alegro. Me motivo. Se vier algo negativo, reflito. Rebato. Repenso e ajo.

Nisso e na loucura diária que cada pessoa passa (trabalho, estudo, relacionamentos, família), mais vale treinarmos nossos ouvidos para ouvir as pequenas narrativas e lições do cotidiano, do que gastarmos nossos preciosos minutos com comentários ofensivos destilados em páginas de rede sociais e que lemos sempre mesmo sabendo que não deveríamos ler. Muitos desses proferidos sem pensar e que, com certeza, nada nos acrescentarão. Rebater não adiantará. A pessoa está fechada e não mudará enquanto não se propor a isso. Ela só quer mesmo é ganhar a discussão. Como se fosse possível existir um vitorioso quando se tem diálogo. Não há. Em diálogos, ambos ganham. Ambos aprendem. Ambos mudam. Quando há disputado comunicacional, por outro lado, nada há. Apenas ego.

A narrativa diária da rua, dos seus ambientes corriqueiros, pode te surpreender. E elas te farão sempre mudar. Para melhor. O pior você rebate e continua a aprender com o que é construtivo. Hoje, treino meus ouvidos e deixo as pequenas coisas me surpreenderem, apesar de tudo. Apesar de todos. Me construo e reconstruo todos os dias. Graças a tudo. Graças a todos.

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