Sobre Tarja Preta, de Cecília Garcia Marcon, ou "o que eu falo quando eu falo de depressão"

Disclaimer: Isso não é uma resenha. Mas o Dawton Valentim já resenhou muito muito bem esse livro por aqui. Então, eu resolvi pegar um aspecto específico do livro. (E a referência a Murakami neste título é só para implicar com a autora.)

Não sei se a Cecília pensou em ser lida em termos de literatura: tema, composição, ritmo. Entendo que ela quis, antes, compartilhar a experiência pessoal em forma de livro.

Isso não impede alguém que sabe escrever bem de transformar o que pensa em palavras bonitas.

O livro

Tarja Preta: meu ano com depressão, de Cecília Garcia Marcon, Editora Nocaute, 2018, 145 páginas.

Tarja Preta: meu ano com depressão, de Cecilia Garcia Marcon, publicado pela Nocaute em 2018, tem 145 páginas. Composto por 29 capítulos não cronológicos que contam memórias da autora sobre sua depressão em diversos estágios.

Os capítulos são compostos por justaposições de imagens a partir de lembranças que a autora associa a, pensando pelo lado positivo, sua recuperação.

Imagem: Unsplash.com, @brookecagle

A Técnica

Para ninguém dizer que eu estou inventando uma “técnica”, vou dar exemplo de um Prêmio Nobel. É um parágrafo longo, mas vale a pena:

— Já fiz um cruzeiro num submarino — disse ele. — Estive mil horas debaixo de água. Há nos submarinos um aparelho especial para indicar o instante preciso em que se deve renovar o ar. Mas antigamente não havia aparelhos, e os marinheiros tinham coelhos brancos a bordo. Quando a atmosfera se tornava tóxica, os coelhos morriam e os marinheiros sabiam que não podiam viver mais do que cinco ou seis horas. Nessa altura, o comandante tinha de tomar uma decisão suprema: ou fazia um esforço desesperado para subir à superfície, ou não abandonava o fundo e morria com toda a tripulação. Em geral, para não se verem morrer, abatiam-se uns aos outros a tiros de revólver. No submarino em que me encontrava não havia coelhos brancos, mas aparelhos. O comandante reparou que eu acompanhava toda a diminuição da quantidade de oxigênio. Troçou da minha sensibilidade, mas, por fim, deixou de utilizar os aparelhos. Bastava olhar para mim. Eu indicava-lhe, com uma precisão invariavelmente confirmada pelos aparelhos, se havia ou não bastante ar. É um dom que nós temos (os coelhos brancos e eu) de sentir seis horas antes que o resto dos humanos o momento em que a atmosfera se torna irrespirável. Há um certo tempo já que experimento essa mesma sensação que tinha a bordo do submarino: a atmosfera tornou-se sufocante. (Capítulo 54, A 25a Hora, Virgil Gheorghiu — grifos meus)

Gheorghiu amarra três imagens, os coelhos adoecendo, a tripulação agonizante e ele mesmo asfixiando lentamente. Depois da imagem construída, arremata com seus amigos e o resto da narrativa:

— Após a morte dos coelhos brancos, os homens não podem viver mais de seis horas, no máximo. O meu romance descreve as últimas seis horas de vida dos meus melhores amigos. (Capítulo 54, A 25a Hora, Virgil Gheorghiu)
Imagem: Unsplash.com, @victorbrd

A construção das imagens no texto de Tarja Preta também é assim. Duas, três, às vezes, quatro — imagens justapostas ou aninhadas — somam para criar o sentimento, a sensação, as impressões da vida em depressão. O tempo é um emaranhado, passado e presente se unem na representação da memória.

Nesse sentido, os capítulos que se destacam são:

  • Química — estágios da racionalização;
  • Metamorfose — o quarto parágrafo especificamente;
  • Debaixo das Cobertas — "a casa, um caos, pegando fogo" um show de hipérboles e cobrança excessiva de si;
  • e Teatro dos Vampiros.

Vou usar esse último como exemplo.

Imagem: Unsplash.com, @danieltafjord

Um capítulo: O Teatro dos Vampiros

São temas do livro que aparecem nestes três parágrafos:

  • música
  • dinheiro
  • trabalho
  • altruísmo
  • planos interrompidos (x2: faculdade e viagem ao Vietnã)
  • educação
  • voluntariado
  • relacionamento (x2)
  • reações dos outros (que não ajudam)

Acompanhem, por favor:

Em 2011, terminei a longa dolorosas penas e aos poucos um relacionamento de quatro anos.
Não sofri após o término, em julho, porque sofri tudo o que precisava nos últimos meses do relacionamento. Embora tenhamos terminado em julho oficialmente, eu, em junho, começava a pensar no que ia fazer semestre seguinte: tinha uma reserva pequena de dinheiro (uns 3 mil reais, 4 no máximo) e estava planejando reingressar em Letras na Unicamp e fazer uma especialização em Jornalismo na PUCCAMP até que recebi um e-mail de uma agência de intercâmbios para trabalhos voluntários. Cliquei e algo dentro de mim se incendiou. Entrei em contato, seguimos conversando e, para encurtar, eu tinha todas as informações para dar o ok e ir dar aulas de inglês voluntariamente no Vietnã. Só precisaria pagar a passagem e viveria lá, teria comida e uma ajuda de custo geral. Eu estava obcecada e teria ido se não tivesse aparecido o Cesar tão logo eu terminei com o ex e eu não tivesse me apaixonado tão rápido, o que foi um outro caminho improvável e que deu certo. 
Sempre que eu conto isso para as pessoas, vejo a cara de choque, como se estivessem diante de uma pessoa maluca, mesmo. Eu só consigo imaginar a minha felicidade em fazer algo por aquelas pessoas, em poder ser útil e não precisar trabalhar tanto para sustentar aparências e status e prestações e tudo mais.(Teatro dos Vampiros, Tarja Preta— grifos meus)

Os três parágrafos amarram um sentimento de fim, uma mudança de planos, uma sensação de que ninguém está nem aí. Mas o texto amarra com a construção de uma autoimagem através do reflexo do outro.

"Escolher a sua aparência significa escolher quem você é e do que você gosta", Cecília Marcon diz pela boca de sua psicóloga. "E eu sempre odiei esse tipo de cuidado", ela mesma completa. Da Unicamp ao Vietnã, do fim ao início de um relacionamento, do email feliz às caras das outras pessoas em choque; o capítulo fala da dificuldade de fazer sentido quando tudo é blasé. Nas próximas duas páginas, o azul e o lilás mesclam-se no mesmo tom; e cinza, azul marinho, preto e branco já não fazem diferença. Depois as atividades se neutralizam: caligrafia, cozinhar, bullet journal, desenhar, encadernação manual, ler… Até a desistência é postergada: "Cogitei vender minhas canetas, mas foram presentes da minha irmã".

No penúltimo parágrafo, a autora nomeia um livro que a faz se sentir mal: Memórias da Casa dos Mortos, coincidentemente uma obra de capítulos organizados por tema e não por narrativa cronológica, no qual Dostoievski conta memórias ficcionais de um tempo de aprisionamento não muito diferentes das que ele mesmo conheceu no cárcere.

Há um paralelo nestas desistências com a relação com a aparência.

Conclui Cecília Marcon uma frase antes do fim.

Imagem: Unsplash.com, @johnschno

Recomendações

Pontos negativos? Eu não costumo ler esse tipo de livro. Que “tipo” de livro? Livros em que as pessoas falam o que sentem. Eu gosto de livros policiais, crípticos, nos quais as personagens não sabem o que sentem e precisam desvendar. Notem que no exemplo que dei de A 25a Hora, não há um nome para a sensação de asfixia.

Tarja Preta é uma obra para discutir o sentimento. O ponto negativo é eu gostei, mas não sei para quem recomendar.

Imagem: https://30min.com.br/30min/212-tarja-preta/

Para saber mais: Cecília Garcia Marcon é podcaster do 30:MIN. Há um episódio onde este livro é apresentado pela própria autora.