Somos a qualidade ou a mentira da qualidade?
A qualidade de vida passa pela saúde mental
Ultimamente, tenho sido a chata da meditação.
Não foi por curiosidade que me auto-iniciei nessa jornada em busca de tranquilidade. Se, antes, acreditava que isso parecia algo incompreensível e bobo, hoje, meu conselho-disco-quebrado tem sido esse: pegue dez minutos do seu dia e invista no silêncio (ou algum som relaxante de fundo — o meu são ondas).
Descobri nessa semana a campanha #JaneiroBranco, que promove a conscientização da qualidade de nossos pensamentos e emoções. Se o #SetembroAmarelo tem um enfoque (o suicídio e a depressão), em janeiro temos a liberdade de debater a saúde mental independentemente do transtorno.
Foi em 2016 que descobri quão importante é exteriorizarmos o que sentimos — e a forma com a qual sentimos e lidamos com isso. Pensamentos e emoções podem ser absurdamente destrutivas, a ponto de nos adoecer, mesmo que lutemos para que isso não aconteça. Falar de depressão e ansiedade se tornou mais uma camada sobre mim, porque ao dar voz ao que escondi — ou simplesmente ignorei — por muito tempo dá oportunidade para que outras pessoas na mesma situação entendam que não estão sozinhas.
Nós somos plurais e não sentimos na mesma medida que o outro, pois cada um tem a sua própria experiência enquanto ser, mas o simples fato de um ponto em convergência ter acontecido une a dor, o conforto e a luta.
Foi por causa da depressão que achei que a meditação pudesse ser uma ajuda, depois de ter tentado um tratamento profissional meio fracassado. Acho que parti para a re-educação emocional de maneira autônoma, porque sentia que precisava resolver meus problemas começando por mim mesma, sem interferência de alguém. A surpresa foi incrível: na primeira semana já podia sentir a diferença não somente em relação à letargia e ao vazio, mas à ansiedade. Pude voltar a frequentar ambientes que não mais suportava, a sorrir para as pessoas e a controlar as emoções negativas que me proporcionavam.
Falamos bastante sobre o que queremos para a vida sem pensar em como estamos emocionalmente preparados para suportar esse querer. O senso-comum diz que não há felicidade sem dor, sem abdicarmos nem que seja um pouco de nossa tranquilidade. É importante sairmos da zona de conforto para experimentar coisas novas e melhores, mas, se ao fazer isso matamos uma parte de nós, a que finge que está feliz porque parecer triste não cabe na sociedade, qual é o bônus? Não deveríamos nos culpar ou culpar o outro pela ausência da felicidade, nem acreditar que a infelicidade existe para que o seu oposto possa se adentrar em nossas vidas. Nossa saúde mental enfrenta, todos os dias, a instabilidade e é necessário que viva esses momentos, uma vez que não estamos imunes ao que o exterior propicia em nosso interior.
No entanto, aqui temos dois polos:
- o que naturaliza o estresse e o mal-estar cotidiano e
- o que torna invisível transtornos como a ansiedade, muitas vezes ocasionada pela vida acelerada, e a depressão (podendo estar associada à ansiedade) e torna o debate e o tratamento supérfluos.
Combater as duas situações sociais, assim como tantas outras, cabe a todos. O processo pode ser de dentro para fora. Podemos, cada um de nós, entender o que sentimos e para onde nossos pensamentos se encaminham (são positivos? Pretendem machucar ou culpabilizar aqueles que o têm? Você tem o controle deles?). E vale aqueles dez minutos.
A meditação, portanto, ajuda a pensarmos sobre a qualidade de, especialmente, nossos pensamentos. É um treinamento que envolve o reconhecimento de nós mesmos e a prática da atenção. A respiração desacelera o estresse e você relaxa. Aos poucos, se desprende de pensamentos recorrentes e pode até mesmo prepará-lo a reagir melhor em situações de tensão.
A qualidade daquilo que queremos precisa estar intimamente ligada àquilo que somos e estamos preparados para ser. Se, como indivíduos, não sabemos equilibrar o interior com o exterior a felicidade pode estar bastante longe da tranquilidade.





