#SOMOSTODOSVÍTIMASVIRTUAIS

De que maneira eventos como o ataque a Paris, em Novembro de 2015, refletem no Brasil e no mundo?

Desde o advento da imprensa, da fotografia, posteriormente as telecomunicações, o rádio, a TV, a internet, as redes sociais e por aí vai, a tecnologia facilitou a comunicação e a transferência de valores que permeia as narrativas presentes nessas mensagens. Se comunicar-se é sinônimo de persuasão, os novos meios de transmitir conteúdos possibilitaram um fazer crer e um fazer saber globalizados e eficientes por intermédio de um fazer-parecer-verdadeiro irresistível. A cada novo salto tecnológico, o efeito de sentido de realidade aumentou. O rádio, por exemplo, já levou uma cidade inteira a pensar que o planeta estava sendo invadido por alienígenas.

Nos atordoantes atentados em Paris, em Novembro de 2015, foi a vez do protagonismo do Periscope, um aplicativo que permite a qualquer um transmitir ao vivo o que está acontecendo ao seu redor por meio da câmera do smartphone. Através de um mapa, no decorrer das diversas ações perpetradas pelos terroristas na capital francesa, você podia selecionar uma dentre diversas transmissões que traziam a perspectiva ainda mais “próxima” e “real” do que o mostrado por um canal de TV ou um portal de internet.

Na sociedade de risco, somos todos vítimas virtuais. Cada violação do nosso estilo de vida constitui uma ameaça virtual — ainda que sentida de maneira muito real — aos sujeitos integrantes daquela comunidade.

No já “antigo” Twitter, supostos reféns na boate Bataclan postavam detalhes em primeira mão das mortes e maus-tratos sofridos por eles. Assim, o natural processo de identificação do espectador (leitor, enunciatário ou como você quiser chamar aqui) com os sujeitos dessas narrativas é acirrado pelo efeito de sentido de realidade e proximidade que os novos suportes propiciam. Para além da compaixão e da solidariedade humanas, as quais nos direcionam a apiedar-se em favor das vítimas, trata-se de uma complexa dinâmica de reconhecimento, constituinte das identidades ocidentais e, por isso mesmo, da forma como são gestadas as alteridades na contemporaneidade.

Risco e vitimização

No século XX, operou-se na trama ideológica do Ocidente uma mudança pela qual a sociedade passou a guiar-se por uma noção de risco. Na Medicina, na nutrição e na indústria farmacêutica, busca-se minorar as probabilidades de ocorrência de doenças no futuro com medicações e diretrizes alimentares. O mercado financeiro lucra e prospera a partir das possibilidades do risco. No Direito, gradualmente, a norma é substituída pela imperatividade do risco, instando representantes públicos e legisladores a focar na restrição específica daquilo e daqueles que nos oferecem riscos. Nesse sentido, políticos preferem identificar inimigos e propor leis penais abrangentes que deem conta de toda e qualquer ameaça futura de violação do que elaborar políticas públicas formadoras e estruturantes.

Na sociedade de risco, somos todos vítimas virtuais. Cada violação do nosso estilo de vida constitui uma ameaça virtual — ainda que sentida de maneira muito real — aos sujeitos integrantes daquela comunidade. A vitimização exacerbada existe na mesma medida do medo, presente em cada esquina e ensejador dos pleitos por mais segurança, vigilância e controle. Nesta batalha contra eventuais ameaças, o futuro deixa de ser para todos e aberto, sendo trazido para o presente como lugar de sofrimentos a serem evitados. Steven Spielberg abordou a temática primorosamente em ‘Minority Report’.

Quem é o terrorista brasileiro?

A compreensão da forma com que os eventos, como os de Paris, distantes da realidade político-social brasileira, afetam o Brasil passa pela ideia de que, primeiramente, estamos inscritos em uma composição ideológico-identitária semelhante e, igualmente, os fluxos históricos a todos influenciam. Quando estudamos História na escola, não raro buscamos enxergar como os grandes eventos globais respingaram nos diversos cenários locais. Os desdobramentos da 2ª Guerra Mundial no regime varguista e os contorcionismos da política externa da ditadura brasileira na Guerra Fria demonstram que, por aqui, se não houve alinhamentos claros e estritos, a conjuntura internacional condicionou mesmo que de forma marginal o imaginário coletivo e a política interna nacionais.

Um país como o Brasil, nas suas complexidades e vicissitudes, pode passar a percepção de que descola-se de algumas questões internacionais, tais quais o terrorismo, mas, na sociedade do risco e na era da vitimização virtual, com o auxílio de tecnologias de comunicação cada vez mais difusas e promotoras de realidade, há a potencialização da identificação entre sujeitos, colocados sempre no polo da vítima, e, portanto, com muito mais facilidade, a transmissão de valores, os quais vão balizar as visões de mundo dessas pessoas.

O efeito dos eventos de Paris e de outras tragédias globais midiatizadas traduz-se na acomodação das narrativas de medo, pavor, horror e ódio ao tecido social local de cada espectador. Desde o 11 de Setembro, cada cidade reproduz as sensações da iminência do sofrimento — e quando ele, de fato, acaba materializando-se, só resta buscar responsáveis. Estes serão eleitos inimigos e, bestializados, poderão ser sublimados ao largo da razoabilidade, do Estado Democrático de Direito e dos Direitos Humanos. Se não temos terroristas, o funcionamento discursivo atua no sentido de substituí-los figurativamente pelo traficante, pelo menor infrator, pelo black bloc. Os adversários do nosso estilo de vida, da nossa paz, serão alvo das angústias e das insatisfações cotidianas e também daquelas percebidas pelos meios de comunicação.

Sugestões de leitura, a partir dos temas abordados:

CALBUCCI, Eduardo. Modalidade, paixão e aspecto”. In: http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es/eSSe52/2009esse52-ecalbucci.pdf

GREIMAS, Algirdas Julien. Sobre o sentido II: ensaios semióticos. São Paulo: Nankin: Edups; 2014. p. 127–145.

VAZ, Paulo et al. “Risco e sofrimento evitável: a imagem da polícia no noticiário de crime”. Revista Compós (www.compos.com.br/e-compos). Dezembro de 2005.