Os sons do coração

A voz mais importante é a que me guia ao outro

Você escuta os barulhos da cidade? Os cachorros latindo, o ronco das motos passando? O som metálico de um carrinho de compras atravessando o asfalto e a última briga dos vizinhos?

Eu escuto. E enquanto tudo isso grita lá fora, eu me pergunto: se fechar seus olhos, respirar fundo, que som você ouve vindo de dentro? Você já parou pra pensar nisso?

Percebi que às vezes é silêncio, às vezes é um grito. E tantas outras é meramente um som desconhecido.

Nosso som de dentro nem sempre é mamão com açúcar, muitas vezes é amargo como a saudade (Como diria Kavita Kavita: tem gosto de dipirona) ou azedo como a frustração.

Mas os sons da cidade são como seu concreto. Uma fundação, uma base. Ouvir o mundo pode proporcionar a paz de espírito de que nos encontramos num organismo vivo e que tem mais alguém por aí, resolvendo suas coisas — há uma pulsação externa e grupal. Nossos sons de dentro também são fundação, e ouvi-los nos lembra da responsabilidade de ser quem somos — há uma pulsação só nossa.

Eu vim aqui hoje lhe dizer que está tudo bem. Você pode ouvir os sons de todos os lugares e eles podem te tocar, te fazer sentir, te mover. Ora vão te agradar, ora te inquietar. E está tudo bem, por que as coisas são assim mesmo. Julguei necessário te dizer isso por que estamos numa época do ano muito delicada, onde mais do que em qualquer outra o amor e a gratidão se tornam bens de consumo, talvez até imposições.

Mas não tem problema se sentir triste ou revoltado durante a “Noite Feliz”. Só espero que você possa se sentir autêntico, que você possa ser você mesmo. Essa é a sutileza da nossa existência: os sons se mesclam a todo instante.

A voz que brada por mudança é o acalento dos desesperados que se sentem impotentes. A voz dos questionadores inquietos é a âncora dos alienados. A voz dos tristes é o chamado dos cuidadores e a dos alegres o alívio dos tensos. A voz de fora às vezes acalenta nossas angústias internas e nossa voz interna guia nossas jornadas mundo afora.

Talvez minha voz solitária seja justamente uma ponte até você. Por isso aproveito nosso breve contato para dizer:

Que bom que você é você.

Boas festas,
E que nossos sons continuem a se encontrar ano que vem.