Star Wars: Gênesis

Entenda como George Lucas mudou para sempre os rumos da indústria cinematográfica americana


Com a chegada do novo capítulo da saga Star Wars, dessa vez comandada por J. J. Abrams, a revista Moviement resolveu contar uma história tão bacana quanto a do tio Vader e muito, muito melhor do que a do Jar Jar Binks.

O caminho que resolvemos seguir, no entanto, diz respeito a origens. Ignorando o ícone já estabelecido e que, hoje, faz da franquia criada por George Lucas um monstro capaz de deixar rastros gigantescos por onde passa, permitirei a você conhecer divertidos detalhes sobre o surgimento de Star Wars. Afinal, como bem diz o conhecido ditado: toda grande caminhada começa sempre com um primeiro passo.

Ao final do presente artigo, você saberá:

Detalhes sobre a juventude como estudante e sobre o início da carreira de George Lucas;
Quais projetos antecederam a chegada de sua mais aclamada invenção, bem como a maneira com que eles foram recebidos por crítica e público;
Como Star Wars: Episódio IV — Uma Nova Esperança foi concebido, avaliado e lançado no ano de 1977.

Sem mais delongas, é preciso que voltemos desde já a uma época muito, muito distante…


Steven Spielberg e George Lucas em foto tirada no ano de 1984.

Chega a ser curioso que George Lucas tenha nascido num lugar com um nome tão apropriado quanto Modesto, pequena cidade localizada no interior da Califórnia. Além disso, seu físico não se transformou num dos mais intimidadores. Alcançando já em sua fase adulta a incrível marca de 1,67cm, Lucas era um rapaz profundamente introspectivo e ainda sofria de timidez crônica, fatos que o tornavam uma criatura vulnerável a constantes ataques de bullies. Como se não fosse o bastante, até mesmo a diabetes tomaria conta de seu corpo e entraria para o hall de problemas enfrentados numa das juventudes mais desestimulantes da história do cinema.

Daria para adivinhar que seria um sujeito como esse o responsável pela monumental franquia Star Wars?

Filho de um vendedor de materiais para escritório que, apostando numa criação rígida, afirmava ser Hollywood “a cidade do pecado”, George jamais recebeu apoio paterno em seu desejo de estudar cinema. No entanto, sequelas dessa relação familiar se manteriam presentes durante toda a sua vida, perfeitamente simbolizadas pela afirmação que bradou ao romper laços com seu pai e se mandar de vez para a faculdade:

“Serei milionário antes de completar 30 anos”.

Essa visão capaz de reconhecer dinheiro como sinônimo de liberdade e poder vinha de berço e seria bem representada por filmes nos quais Lucas trataria de maneira pessoal sobre o tema da paternidade. O que, por si só, diz muito sobre a relação íntima que viria a manter com Francis Ford Coppola e sobre a qual tratarei mais adiante.

George sempre afirmou que assistia a poucos filmes em sua cidade natal, sendo mesmo a televisão sua maior influência ao longo dos anos. Em 64, ele viria a assumir sua paixão por cinema, desistir do ensino superior local e pedir transferência para a aclamada Universidade do Sul da Califórnia (USC).

“Nunca pensamos que íamos ganhar dinheiro com isso (cinema), ou que era um bom meio de ficar rico e famoso. Era feito um vício. Vivíamos nos virando para conseguir nossa próxima dose, por um pouco de filme na câmera e ir filmar alguma coisa.” — George Lucas

Cria da trupe que deu início à chamada “Nova Holywood”, Lucas se transformou — ao lado de outros promissores estudantes da USC e UCLA — no pupilo de Coppola, ao passo que o diretor de Apocalipse Now trataria de buscar a qualquer custo financiamentos para aquele que julgava como sendo alguém que tinha “um talento gigantesco”.

Scorsese, Spielberg, Coppola e Lucas: antes, estudantes de cinema; depois, integrantes da Nova Hollywood.

A ironia de tudo isso é que seu aprendiz, mesmo fazendo parte daquela que muitos consideram como a época mais criativa da indústria norte-americana, seria considerado mais tarde como o responsável por colocar os pregos no caixão do movimento setentista ao lançar sua guerra estelar.

Voltando ao tema, a Warner, indo na onda de Francis, resolveu bancar o primeiro longa de Lucas, intitulado THX: 1138. O resultado, no entanto, não poderia ter sido mais desanimador.

Clássico trailer de THX:1138, primeiro longa-metragem de George Lucas.

Longe de ser a bomba que proclamaram e baseado num curta produzido pelo californiano ainda na faculdade, o roteiro do filme foi detestado pelo estúdio, por pouco não minando sua relação com a Warner e, assim, frustrando os planos de Coppola e de sua recém-inaugurada produtora, a Zoetrope.

Filmado com recursos mínimos e montado no sótão do próprio diretor, THX… foi então exibido em 1970 e as palavras de Coppola para seu jovem discípulo denotam bem quão preocupante era a situação para Lucas.

“Escute só, George, nós fizemos esse filme com muito pouco dinheiro, um dos luxos que isso nos dá é a possibilidade de mexer nele na montagem. Este é o nosso primeiro filme, ainda estamos aprendendo, estamos tentando fazer uma coisa nova, seria loucura pensar que vamos acertar em cheio logo de primeira.”

Ao passo que um dos executivos da Warner esbravejava descontentamento em meio à primeira exibição do projeto.

“Um momento, Francis, o que é que está acontecendo? Este não é o roteiro que nós dissemos que faríamos. Isso não é um filme comercial!”

E aí não houve talento que salvasse o filme de ser retirado das mãos de seu criador, montado, remontado e lançado em 71 sem causar o menor impacto nas plateias. Só mesmo uma loucura poderia dar ânimo a um início tão frustrante para a carreira de George Lucas.

E ela veio. Ou melhor, elas. Inspirando-se na cidade em que nasceu, o diretor resolveu ouvir o conselho de Coppola e, assim, parou de “ser tão esquisito” e começou a pensar em algo “mais humano”. O resultado foi um filme “mais caloroso e engraçado”, como bem queria seu supervisor artístico da época.

Trailer de Loucuras de Verão (American Graffiti), segundo longa de Lucas.

Produzido com o apoio da Universal, Loucuras de Verão (American Graffiti) era um filme que tratava sobre “os ritos de passagem de um adolescente numa cidade durante os anos 60”, tendo sido filmado em incríveis 28 dias. Por fim, a montagem foi realizada na garagem da casa de Coppola, na qual o proprietário havia instalado uma série de ilhas de edição.

Quando dirigi Loucuras de Verão eu descobri que fazer um filme positivo é muito estimulante. Pensei: talvez eu deva fazer um filme assim para uma garotada ainda mais jovem. Loucuras de Verão era para um público de 16 anos; este (Star Wars) é para uma plateia de 10 a 12 anos, que perdeu algo ainda mais importante do que os adolescentes. — George Lucas

A bela recepção de seu segundo projeto (o filme quebrou recordes de público e faturou cerca de 55 milhões de dólares, um sucesso inegável para a época) fez com que Lucas mergulhasse de vez na ideia de comandar filmes que resgatassem os valores positivos da Velha Hollywood enquanto ignoravam os temas densos e o pessimismo dos novos realizadores. E aí a lógica era simples: era preciso, segundo o diretor, resgatar a fantasia que por tanto tempo foi traduzida com paixão pela Disney e que, naquela época, sofria pelo claro desinteresse do estúdio em continuar dominando esse mercado.

A partir de tal inquietude, bastou que George resgatasse seu interesse por ficções científicas e o embrião de Star Wars começava a se mover. Traumatizado pela difícil relação que mantivera até ali com Warner e Universal, o diretor, confiante pelo respeito que ganhara com Loucuras…, decidiu que teria muito mais controle sobre os filmes que produzisse dali pra frente.

Assim, além de Star Wars ser produzido pela sua própria empresa, Lucas exigiu diretos sobre trilha sonora, brinquedos e merchandising, sendo seu pedido tratado como uma piada entre os executivos. Afinal, nada disso dava dinheiro naquela época, a não ser que, numa das maiores ironias já registradas pela história do cinema, o filme fosse um sucesso monumental.

Depois de dois anos e meio trabalhando no roteiro, que partia, dentre outras, de inspirações nascidas em episódios de Flash Gordon e em folhetins de ficção científica da década de 30, Lucas queria manter um tom “saudável” e evitar sexo e violência sem perder o perfil “moderno” por ele tão desejado. O trabalho necessário para isso, claro, foi árduo e se manteve ao longo de inúmeras revisões.

“O papel da princesa Leia cresceu, depois encolheu. Obi-Wan Kenobi e Darth Vader, que originalmente eram o mesmo personagem, tornaram-se dois. A Força ganhou um lado bom (Ashla) e um mau (Bogan). Annikin Starkiller se transformou em Luke Skywalker. Kenobi surgiu como um general idoso, depois se tornou um eremita confuso, e voltou a ser um general idoso. Um tal Cristal Kiber apareceu e sumiu depois.” — Peter Biskind

Criando uma alegoria relacionada à amizade que manteve com seu primeiro “chefe”, George fez de Han Solo uma espécie de paródia de Coppola (assim como o egocêntrico combatente, que se julgava mais esperto que o Império, o diretor norte-americano também se sentia acima dos estúdios e adotava uma postura autodestrutiva que o impedia de juntar muito dinheiro). Além disso, o fato de Solo perder a garota para Luke (ou seja, George), diz muito sobre o tom de “disputa interna” acrescido à trama de Star Wars.

Lucas e Coppola: relação quase paternal que continha suas complexidades.

Depois de mais algumas revisões no roteiro, o sinal verde foi dado pela FOX — que entraria como parceira muito por conta da insistência de Coppola — e o orçamento de 8,5 milhões de dólares foi considerado um milagre, sobretudo pela falta de grandes nomes no elenco e pela aposta num gênero há muito ignorado pelo público.

Ao mesmo tempo em que o diretor batalhava pela grana para comandar sua guerra espacial, a Industrial Light and Magic (ILM, que no futuro daria à luz uma tal Pixar) era criada por Jim Nelson, um dos maiores gênios da pós-produção no cinema. Contratando o supervisor de efeitos especiais fotográficos de 2001: Uma Odisseia no Espaço, John Dykstra, a empresa de Nelson foi chamada para transformar Star Wars num verdadeiro show visual, ainda que as preocupações de George relacionadas à situação financeira de seu projeto afetassem bastante a relação que deveria surgir a partir dali.

“Se fosse pelo George, teríamos pendurado um fundo preto, colocado as naves em cabos de vassoura e sacudido pra lá e pra cá. Que nem uns garotos de 12 anos.” — John Dykstra, segundo Nelson.

Com filmagens começando no dia 25 de março de 1976, estar dentro dos estúdios nos quais Star Wars fora desenvolvido foi um espetáculo à parte. E muito mais pela pressão e pelas dificuldades do que propriamente pela beleza da coisa. É célebre, por exemplo, a afirmação de Harrison Ford ao reclamar sobre os diálogos concebidos por Lucas (“George, você pode até datilografar essa merda, mas não dá pra dizer essas coisas!”), ao passo que, segundo os atores, o diretor os guiava com apenas duas frases: “Ok, a mesma coisa, só que melhor” e “mais rápido, mais intenso”. E pensar que não era só nas falas que George se enrolava…

“Tenho cinquenta stormtroopers atirando em três pessoas a três metros de distância e ninguém sequer fica machucado. Quem vai acreditar numa coisa dessas?” — Lucas

Depois de finalizada a montagem, George enfim apresentou seu filme pela primeira vez. Sem aplausos e com várias cenas sem efeitos especiais sendo substituídas por imagens de arquivo da Segunda Guerra Mundial, a projeção foi um fracasso segundo grandes nomes da plateia. De Palma, por exemplo, fez tantos questionamentos raivosos que chegou até mesmo a ser advertido pelo diretor (“Seus filmes não fizeram um tostão até agora. Os meus ao menos renderam uns trocados”). No entanto, Spielberg, enxergando longe como de costume, deu seu aval como se fosse um infalível vidente.

“George, está ótimo. Vai fazer 100 milhões de dólares. […] Dessa vez, quem fez o filme esotérico de ficção científica fui eu (Contatos Imediatos do 3º Grau). O seu é que é um sucesso de massa.”

Com a ILM e sua equipe de som trabalhando cerca de 24 horas por dia durante semanas, George, enfim, conseguiu concluir sua subestimada ópera espacial a tempo de exibi-la no Northpoint Theatre, tradicional cinema californiano. O resultado não poderia ter sido mais animador.

“Eles saltaram mesmo para o espaço e dava para ver as pessoas agitando-se para lá e para cá, empolgadas. Quando chegou a cena em que a Millenium Falcon aparece no último minuto, eles não apenas aplaudiram, ele se levantaram e ergueram os braços como se fosse um home run no nono inning do sétimo jogo da World Series!” — Paul Hirsch, montador do filme.

Ainda apreensivo pela incógnita que alimentava sobre a recepção pública de seu filme, George ignorava ligações de amigos dizendo que Star Wars era um sucesso. "Filmes de ficção científica sempre estreiam bem, mas isso só não conta", afirmava o diretor. "Só vale a partir da segunda ou terceira semana".

Mas foi só viajar ao Havaí como forma de fugir da pressão pelo possível constrangimento que o filme causaria para que todo o seu medo fosse por água abaixo. No hotel, viu sua caixa de entrada repleta de mensagens pedindo para que ele assistisse ao noticiário das seis. Filas davam voltas nos quarteirões, o logotipo com as clássicas fontes em contorno amarelado se espalhavam pelas cidades e Lucas, enfim, ficava aliviado e começando desde aquele momento a matutar sobre como iria torrar sua já garantida fortuna. O resto é história.

Trailer original de Star Wars: Episódio IV — Uma Nova Esperança (1977)
Fotos dos bastidores do filme de 77. Na primeira, Kenny Baker (R2-D2) descansado de sua calorosa fantasia; depois, Lucas comandando Mark Hamill (Luke Skywalker) e supervisionando a lataria do C-3PO.

O artigo acima foi baseado em relatos presentes no livro Como a Geração Sexo Drogas e Rock-N-Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind, além de utilizar outras informações vistas nos extras de Star Wars: Episódio IV — Uma Nova Esperança (1977).


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