Não assisti ao Super Bowl, e daí?

Gostar não é obrigação, e tampouco é implicar com quem gosta

Wikimedia cc

Domingo foi dia de Super Bowl, como é conhecido o jogo final da NFL (principal liga do futebol americano nos Estados Unidos). Não é simplesmente uma partida: trata-se do evento esportivo mais assistido nos EUA e o segundo no mundo (só perde, em audiência, para a final da Liga dos Campeões da UEFA); não ao acaso, apresenta a publicidade mais cara da televisão (patrocinadores se dispõem a pagar fortunas para apresentarem suas marcas no intervalo do jogo).

Não assisti ao Super Bowl, pois não entendo patavina de futebol americano. Muitos amigos assistiram e postaram no Facebook sobre a partida. Mas claro que também tivemos as famosas “problematizações de rede social” sobre o jogo. Que era um “sintoma do imperialismo” a audiência do evento no Brasil. Falando sobre as “mentes colonizadas”. E mais blá, blá e blá.

Hyundai voltou a patrocinar o Super Bowl

Tudo bem, não sou (e nunca fui) antipático à ideia de “problematização”. Inclusive acho que muito mais coisas deveriam ser problematizadas. Pode ser o Super Bowl? Claro que sim. Mas uma problematização que se restrinja ao futebol americano e não ao esporte como um todo fica bem “capenga”.

Se nos limitarmos apenas à origem do esporte ao qual nos referimos (no caso, os Estados Unidos), não podemos esquecer que a “paixão nacional” do Brasil também é importada. Afinal, “futebol” é uma aportuguesação da palavra inglesa football, que significa “bola aos pés” (é verdade que no futebol americano o que menos se vê é pé na bola, mas isso não vem ao caso agora); e boa parte dos termos referentes ao jogo em nossa língua também é de origem inglesa: “gol” vem de goal (objetivo), “pênalti” vem de penalty (penalidade), “chute” vem de shot (tiro) etc.

(Indo além, muitos clubes brasileiros de futebol têm expressões inglesas em seus nomes oficiais: Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense, Sport Club Internacional, Sport Club Corinthians Paulista, Fluminense Football Club, Sport Club do Recife, Sport Club Rio Grande… A lista é imensa.)

“Ah, mas tem toda a mídia em cima do Super Bowl e isso faz as pessoas assistirem”. Bom, aí podemos fazer uma problematização interessante. Pois a exposição midiática de qualquer coisa faz aumentar sobremaneira o interesse das pessoas por ela.

Porém, mais uma vez, temos de voltar nosso olhar também para o futebol. Mais especificamente para o único evento esportivo que bate a final da NFL em audiência televisiva mundial: a decisão da Liga dos Campeões da UEFA. Que também é muito assistida no Brasil — provavelmente bem mais que o Super Bowl, por tratar-se de um esporte mais conhecido por essas bandas. Só que a final europeia também não é algo “nosso”, mesmo que muitos jogadores brasileiros possam estar em campo.

Os grandes patrocínios estendem-se em nomear as arenas com marcas (Imagens cc: Austin Kirk e Wikimedia)

Tanto o Super Bowl como a final da Liga dos Campeões da UEFA têm algo em comum: mais que eventos esportivos, são também midiáticos. Ao redor do mundo, pessoas se reúnem para assisti-los — e obviamente fazem seus comentários nas redes sociais, aumentando a exposição dos eventos e consequentemente valorizando-os. E no caso da decisão europeia, muito contribuiu para ela se tornar o evento de maior audiência televisiva no mundo a alteração no dia da semana em que ocorre a partida: até 2009 a final era disputada em uma quarta-feira e por conta disso a maioria das pessoas no planeta não podia assisti-la (seja por estar trabalhando ou tendo de dormir cedo para trabalhar no outro dia); a partir de 2010 o jogo passou para um sábado à noite e assim não só pôde ser mais assistido como também tornou-se para qualquer fã de futebol o assunto do final de semana no qual ocorre.

Ou seja, as críticas à “dominação imperialista” ou à “influência midiática” não podem se restringir apenas ao futebol americano — ou quem reclama assiste apenas jogos de times brasileiros na televisão? O chamado “dedinho de marcar” vai me coçar muito no começo de junho, quando ver os “reclamões” postando sobre a final da Liga dos Campeões no Facebook…