
Sustentabilidade além da energia limpa
Mês de julho no Rio de Janeiro: Frio, muito frio “prum” carioca — temperatura média mínima de 18,4 °C na série histórica — mínima de 19/07 foi a 12 °C. Em Santa Catarina, ocorreu o fenômeno Sincelo, com direito a cascata congelada [1]. As temperaturas extremas se repetiram ao longo dos últimos anos, como 2016 considerado o ano mais quente desde o início dos registros da Organização Meteorológica Mundial [2], acontecimentos de proporções preocupantes têm sido observados em 2017, como o enorme bloco de gelo com área de seis mil km2 que se desprendeu da Antártida [3] e o derretimento acentuado de geleiras na Groelândia [4].
Tudo isso causado pela inserção de mais carbono no ciclo natural (efeito estufa) ou pelo ciclo natural da Terra? Tanto faz…

Mudanças ocorrem e precisamos nos adaptar independentemente do cenário imaginado, e o maior motivador sem dúvida é econômico. No contexto da sustentabilidade e preservação do futuro, os biocombustíveis entraram de sola no auxílio ao controle de emissões de gás carbônico (carbono fóssil) com muitos investimentos, estudos e propaganda— embora o maior vilão seja mesmo o metano por reter mais calor na superfície do planeta, produzido em grande parte pela pecuária. O álcool , por exemplo, é conhecido de longa data na matriz energética brasileira, vide o programa Proálcool da década de 1970, e hoje presente na gasolina consumida.
Sob a ótica dos dias atuais, a utilização de biocombustíveis supera as questões ambientais. A escassez de novas descobertas de reservatórios convencionais de petróleo e gás e seu declínio em relação a reservatórios não-convencionais e de alto custo de produção (como o pré-sal brasileiro), faz das alternativas ecologicamente favoráveis despontarem como fonte de energia economicamente mais viável aos empresários de todo o mundo, contudo mantêm o discurso enraizado na sustentabilidade.
No Brasil, temos o programa do selo fornecedor para produtores de biodiesel como incentivo a compra deste combustível de pequenos produtores e associações. Por anos, o preço do biodiesel foi superior ao diesel mineral e a mistura comercial destes componentes estava condicionada ao decreto lei 11.097/2005 que obrigava percentual de biodiesel. Em 2017, utiliza-se o B8 e discute-se a possibilidade de mistura de 10% em volume para o biodiesel, conhecido por B10, que segundo o decreto só seria implementado em 2019/2020. Essas mudanças repentinas têm forte apelo do empresariado do setor e foi discutido em junho no programa RenovaBio do governo federal. Se confirmada as expectativas, o B10 causará corrida pela plantação de soja (principal matéria-prima) e a depender do preço de mercado da soja alimentícia e o preço do biodiesel, uma das duas opções pode ter seu fornecimento afetado, sem contar a área necessária ao plantio que deverá ser expandida sob desmatamento de floresta nativa.
Essa parece ser a tendência: Estimular competição entre os pequenos e médios produtores, enquanto os majors decidem o destino do B10 pela influência de seu marketshare.
O mesmo pode ser observado para a gasolina tipo “C”, aquela vendida já misturada ao álcool anidro (sem água) nos postos de combustíveis. O etanol é obtido principalmente pela fermentação dos carboidratos do caldo-de-cana, de onde também obtemos o açúcar alimentício. Após o fechamento de muitas usinas, essa alternativa renovável retorna com potencial para indústria.
Os dois biocombustíveis tem seu apelo socioambiental e ideologicamente prevalecem na sociedade, principalmente, pelo caráter “verde” de sua utilização — energia limpa e renovável — e sua maior aplicação na matriz brasileira tornaria possível alcançar a meta de emissão determinada no acordo de Paris até mesmo antes do prazo.
Mas será que o setor está estruturado para mudança? Ou apressando o passo, puxados pelo aparente benefício ambiental?
Se pensarmos pura e simplesmente nos benefícios ao meio ambiente é mais razoável aplicar maiores investimentos em energia eólica e solar, baterias superpotentes para automóveis elétricos, nanotecnologias e projetos inovadores, desses que culminam em tecnologias disruptivas.
No curto prazo, o gás natural tem se mostrado como energia de transição para fontes mais “verdes”, por apresentar menor poluição, abundância no mercado, menor custo, entre outros… Aparentemente, caminhamos para tecnologias desconhecidas, mas que estarão em consonância com os valores da sociedade moderna e apresentarão a forma talvez mais equilibrada de coexistirmos com a natureza preservada.
Biocombustíveis seriam então efemeridades e a corrida descontrolada e apressada em promovê-lo no cenário atual é fruto do interesse financeiro e o meio ambiente simples coadjuvante.
Portanto, parece que os atores que hoje apostam nessas fontes estarão por longo período no movimento Browniano, imersos no fluido capitalista e chocando-se contra ideais realmente sustentáveis.

