TAGUEANDO O MAL

O preso Rogelson: duas facadas num assalto banal

O tema Segurança Pública se mantém pela terceira semana seguida aqui no meu Texto de Segunda na revista TrendR. Mas não há como fugir deste tema depois de uma semana em que um terrorista atropela centenas de pessoas em Nice e um sujeito esfaqueia uma mulher na frente de sua filha de sete anos. Porque, acima de qualquer tese sobre policiamento, sobre prevenção, sobre ter ou não mais vigilância, mais câmeras, mais agentes, está a discussão sobre o Mal.

Me detive especialmente no episódio da menina de sete anos: a mãe, Christiane de Souza Andrade, foi abordada por Rogelson Santos Baptista, armado de uma faca, que pediu dinheiro a ela. Ao dizer que não tinha dinheiro, Christiane foi esfaqueada duas vezes. As imagens de sua filha desesperada pedindo ajuda ganharam as redes sociais — ao ponto de pessoas de sua família fazerem posts abertos no Facebook pedindo para que o vídeo deixasse de ser compartilhado.

A menina, soubemos nesta segunda-feira, está tendo pesadelos e acorda aos gritos todas as noites. Acredito que, em Nice, há centenas de famílias com um cotidiano parecido.

Impossível, neste momento, não lembrar de Hannah Arendt, que deu ao mundo a expressão “Banalidade do Mal”. No livro “Einchmann em Jerusalém”, sobre o julgamento, em Israel, do nazista Adolf Einchmann, esta banalidade aparece na forma de empatia — Einchmann não é, a priori, um antissemita convicto, um monstro nazista, um sujeito que sente prazer com tortura ou nada disso. O que é mais assombroso é que ele se mostra um burocrata, durante o julgamento e nas conversas com Arendt. Para ele, tratava-se do cumprimento do dever. Esta era a única forma motivacional por trás dos atos insanos a serviço do Fuhrer? Não creio — claro que há a necessidade de ascender na organização, inerente a todo burocrata.

Tentativas de definir o Mal acabam se afogando nos mares revoltos da relativização: dependendo da ideologia do pensador, há sempre um atenuante. Arendt, envolvida até a alma no assunto, não cai nessa armadilha, e nos mostra o mal banalizado. E é banalizado o Mal que surge, aos gritos, de uma facada dada sem motivo em uma mãe próxima a uma filha. E é também banalizado o mal em torno, quando se vê pessoas próximas que poderiam ajudar mas não o fazem. Também podemos considerar como uma espécie de Mal banalizado a divulgação incompreensível de que o esfaqueador era “namorado” da vítima — uma papagaiada ideológica ridícula, uma informação mal vazada que só serviu para distorcer a discussão: sites na linha do Quebrando o Tabu postaram que “o mal é o Machismo”. Mais uma vez, incluindo no mesmo pacote, por exemplo, o cavalheirismo (última forma descoberta de machismo) e o esfaquear de mães.

Quebrando o Tabu: em um minuto, “tristíssimo”. No minuto seguinte, “machismo mata”

O Quebrando o Tabu, como se vê, não entra na discussão quando a notícia foge de sua agenda, ou mesmo quando a contraria. Argumentam a uma leitora que “não publicam tudo”, etc, e que apenas “lamentam”. Um minuto depois, quando surge a informação falsa — e bem desmentida pelo jornal EXTRA — do namoro, vem a “agenda”: “machismo mata”.

É o mesmo raciocínio que faz com que mortos em um centro comercial como o World Trade Center, mesmo passando de 5 mil, pareçam, em alguns debates, menos importantes que 50 em uma boate gay — ou os 60 mortos em Nice, por não atenderem “agenda”, sejam menos comentados. No caso do “machismo” e da “boate gay” atendem às agendas: os sites podem acusar você de ser co-responsável e, claro, Jair Bolsonaro, que mesmo estando dentro de casa vendo algum jogo do Botafogo, aparece sempre como responsável nos atentados de agenda. No caso de Nice, dispensaram o deputado de participar da culpa — a menos que ele apareça dirigindo algum caminhão.

E é neste ponto que o horror aparece: estamos preferindo ignorar o Mal, o verdadeiro, aquele que parece surgir da banalização da vida. Aquele que surge sem esforço — nas palavras de José Saramago, “a bondade é mais difícil de alcançar e de exercer, é mais fácil ser mau nas suas formas menores, mau em tudo aquilo que nos afasta do outro, do que ser bom”. Quando usamos uma tragédia para atender a uma discussão ou a uma agenda ideológica, estamos nos afastando do outro. A criança de sete anos que não foi ajudada por ninguém na porta do hospital não está sofrendo por causa do machismo ou da falta de policiamento (embora este último item seja importante): ela sofre porque alguém foi MAU o suficiente para não ter nenhum respeito pela vida humana, e ainda mais diante de uma criança.

As famílias de 50 pessoas naquela boate em Los Angeles não estão sofrendo por causa de alguém no Brasil que tenha homofobia (embora homofobia ou similar seja realmente algo do século retrasado): estão sofrendo porque o MAL entrou na boate atirando, e desprezou completamente a vida do outro (já disse, alhures, que gays e mulheres, sendo grupos para os quais o olhar de maníacos é sempre dirigido, deveriam ter armas, mas isso é outra discussão). Essencialmente, o psicopata de Los Angeles não matou porque Alá mandou — mandou porque é uma personificação do mal e que atende a uma religião que é bem clara: infiéis devem perecer. Um fator não sobrevive sem o outro. Alguém que, como diz Saramago, “se esforçou pela bondade”, não será convencido pelas palavras do Islã e não vai exterminar infiéis. Do mesmo jeito, uma pessoa má em essência não precisa ler todo o livro — basta a orelha.

Mas existe o Mal em essência? De onde ele vem?

Esta é uma discussão interessante. Mas diante de imagens tão terríveis, só me resta mesmo é propor que, quanto ao Mal, vamos combater antes e perguntar depois. Combater de todas as formas. Esqueça sua agenda. Esqueça sua discussão de Facebook. Um sujeito pode ler o Corão e não ser MAU o suficiente para cumprir a determinação de combater os infiéis. Um sujeito pode ser machista, ter batido na mulher e ter virado candidato a prefeito, mas ele pode não ser MAU o suficiente para esfaquear uma mãe. Um outro pode ter achado errada a cena de sexo gay na Globo mas não ser MAU o suficiente para entrar numa boate (movido pelo Corão) e atirar em quem se diverte. Um sujeito pode estar com fome ou endividado e desempregado, pode assaltar alguém com uma navalha (é crime mesmo assim) e não ser MAU o suficiente para tirar a vida de uma família.

A única Navalha do bem é esta: a de Ockham, que usamos para ir direto ao ponto: quem mata precisa sofrer consequências (não me atrevo a propor quais) que deixem bem claro que ali vive o Mal. Coisas fáceis precisam ter preços — e o Mal é a mais fácil de todas as coisas fáceis.

Daí ser tão banal.