Estupro marital e outras coisas

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Porta aberta. Chuva atrás de chuva no mato a crescer — eis o ingrediente para moscas e mosquitos. Vento, poeira, formigas, aranhas de pernas bem finas. Minhocas. Água sobre o piso da cozinha. O corpo de um homem triste sobre a minha cama torta. O que me constrange é a falta de coragem. Liberdade mesmo é não ter medo.

Mais que a intolerância dos vis. Mais que uma mentira depois da outra. O que me constrange é o que falta. Vento, moscas e mosquitos. Uma borboleta. Miúdas flores silvestres crescendo sobre o mato. Soltar a âncora do amor para navegar. Ilusões. O silêncio é a falta mais gentil.

Hoje conversei com uma mulher sobre o estupro marital. O marido faz assim: ela diz que não quer, ele ignora, ela chora, ele mete assim mesmo porque você é minha esposa e se não deixar eu comer seu cu vou procurar na rua. A cada 11 minutos uma mulher é agredida sexualmente no Brasil. Dessas, 41% são abusadas pelos próprios companheiros. Os dados são da Organização das Nações Unidas.

“Você precisa entender e perdoar, minha filha, porque homem é assim tudo”, disse o pastor da Universal.

Lágrima atrás de lágrima — eis o ingrediente para dores e poemas. Almas sem pernas. Almas sem mãos. Os olhos serão capazes de morder o tempo que restou de nós? Senão a dor, o que é universal?

Mágoa sobre o piso do amor. Um pedaço de vidro dentro da pequena poça de lástimas. Um médico cubano dizendo adeus ao pulmão do mundo. Levantemos as cortinas para começar o espetáculo dos imbecis. É uma pena, é uma pena. O pulmão é o verdadeiro coração.

Eu disse a um amigo: Não tenho sorte no amor

Ele disse: Não era amor.

Certo, Demian.

Porta fechada. Piso seco. Dados lançados. Chuva atrás de chuva para não secar as lágrimas. Cortina de fumaça. É preciso virar-se antes que seja tarde. Ouvir a lição esquecida do professor.

Unir teoria e prática. Práxis. Ação criadora e modificadora da realidade. Unir criação e realidade. Arte. A ação real e prática da modificação. É preciso modificar o que há por dentro. Adeus ao verbalismo e à cortina de fumaça.

Nessa deprimente primavera, no quintal das moscas e dos mosquitos, agir na certeza de que cedo ou tarde toda mentira há de ser revelada. Só o que é verdadeiro permanece. Nada além.

O outro mundo começa — curioso. Um odor diferente traz sempre a promessa de coisas novas. Nem sempre coisas boas. Nem sempre coisas. Mas sempre o caminho estrepitoso e agudo, sombrio e violento, por onde nosso universo de tempos em tempos transita sem querer.

Livros para libertar a alma. Autonomia. Eis o espelho — lavrar a palavra libertadora na cela de quem está tão só quanto meus olhos oblíquos neste vazio que nos sustenta dissimulado.

Um par de tênis alaranjados na sala. Uma calça jeans em meu sofá. O corpo de um homem nu sobre a minha cama. Um homem triste em seu átrio luminoso. O homem chora e está coberto de azul-medo. Eu te daria asas. Mas não há asas nas gôndolas.

Sorrio.

Estupro marital é crime. E os culpados devem ser punidos, eu disse à moça.

Doarei os meus temperos na liquidação do amor que não cozinho.