Tem Carnaval em São Paulo sim senhor!

Lembro-me que, não muito tempo atrás, alguns frequentadores (entre eles, este que vos escreve) do samba de São Paulo tinham um temor: o crescimento dos blocos de rua em detrimento das agremiações. Ano a ano, o carnaval nas ruas da cidade só cresce: dos 60 blocos cadastrados pela Prefeitura em 2013 aos 360 deste ano. Consequentemente, o número de foliões também aumenta. Nesse oba-oba (sem ironia) maravilhoso de ocupação do espaço público pelo povo, como ficou o Carnaval, o samba?

Quem foi aos ensaios técnicos no Sambódromo viu que essa tendência de crescimento é igual. O curto período de testes no Anhembi nesta temporada (alguns dias de dezembro e o mês de Janeiro), por conta do carnaval “antecipado”, ajudou. Mas é um fato: o Carnaval de São Paulo também é atrativo, ao contrário do que muita gente pensa.

Pouco a pouco, a Liga das Escolas de Samba percebeu que deixar apenas as três últimas arquibancadas do lado da Avenida Olavo Fontoura eram insuficientes para abrigar os espectadores. Com a adesão cada vez maior, outros setores foram abertos, e não faz muito tempo que a arquibancada monumental (setor B, como é hoje; setor 4 para os mais antigos) foi liberada para o povão.

Ainda assim, com mais “espaço”, as arquibancadas com livre acesso permaneceram lotadas nos últimos finais de semana de ensaios técnicos. Não falo das quadras, pois acredito que ali é o local de congraçamento desta ou daquela comunidade, festa e ensaio feitos apenas para tal escola e, não necessariamente, com o intuito de trazer público “de fora”.

A entrada gratuita nos ensaios técnicos — e assim deve permanecer para todo o sempre — é fundamental. Já cheguei a temer que a organização passasse a cobrar a entrada, o que seria um retrocesso. Afinal, aqueles que vão de carro pagam um estacionamento nada em conta, assim como bebidas e alimentação (uma cerveja custa R$ 5, por exemplo). O “preço”, indiretamente, já é pago para manter a estrutura e a organização dos ensaios técnicos.

Este escrevinhador, que frequenta o Sambódromo desde o ano 2000, vê as diferenças com o passar dos anos. Hoje há um misto de alegria e curiosidade — as arquibancadas cheias, em boa parte, são de componentes de outras escolas que querem ver o que a “rival” (prefiro usar rival entre aspas do que co-irmã, um termo absolutamente hipócrita) vai levar pra avenida. Há também roda de samba entre o ensaio de uma escola e outra. Roda de samba que se espalha por toda a arquibancada. Bastou a agremiação entrar na avenida para o ensaio, e o show é na pista.

A curiosidade são os “rostos novos”: “gringos” passaram por lá; gente que nunca desfilou ou foi numa quadra de escola de samba, foi ao sambódromo para conhecer o samba de São Paulo. O povo está lá: nas arquibancadas, na passarela, gravando vídeos da bateria, tirando selfies, e até invadindo a pista — a organização não tem culpa; é difícil controlar alguns que, por paixão ou por aventura, querem estar ao lado da escola.

A por vezes sisuda São Paulo está de braços abertos para a folia. A cidade entrou de vez nos noticiários — principalmente em relação aos blocos, quando imagens do Rio eram predominantes (e repare, caro leitor, que não comparei e nem farei nenhum tipo de comparação com o carnaval carioca). Enquanto isso, o carnaval de quadra, o samba de enredo, segue atraindo cada vez mais visitantes e foliões.

Quem apostou na decadência (ou estagnação) do Carnaval paulistano, errou feio, errou rude.

O samba de São Paulo continua vivo e forte.