“Tenho muitas identidades, uma delas é a de dona de casa”

Disse a moça ao meu lado, na prática budista.

Muita coisa foi dita naquela manhã, naquele lugar que para mim é um refúgio de paz no coração de São Paulo, bem próximo da pulsante e intensa avenida Paulista. Mas a que mais me tocou foi essa simples frase: “tenho muitas identidades, uma delas é a de dona de casa”.

E não somos exatamente isso? O nosso eu, que muitos acreditam ser uno e homogêneo, na verdade (para mim, claro) é um emaranhado de identidades que se dialogam, complementam e, porque não, também se contradizem, entram em conflito.

No meu caso, o meu “eu” no período de trabalho é o “eu internacionalista”, focado nas questões internacionais, principalmente na internacionalização de cidades e cooperação descentralizada no âmbito global. Esse “eu” é pontuado pelo “eu comunicador”, responsável pela comunicação do local onde trabalho. No ônibus, tem o meu “eu leitor”, um eu que vive viajando no mundo das ideias e acaba deixando adormecido todos os meus outros “eus”, mesmo que por breves momentos. Na faculdade, meu “eu proto-jornalista” toma conta. Tem meu “eu estressado”, meu “eu engajado”, meu “eu vá tudo a merda”, tem meu “eu amor” e muitos outros “eus”. E o que mais me chama a atenção é que apesar de todos esses “eus” serem eu mesmo, cada um deles é (de uma certa forma e em variados graus) diferente do outro, dependendo do local e da situação em que estou.

Muito além disso, não raro essas diversas mini-identidades, apesar da maior parte do tempo se dialogarem e estarem em harmonia, entram em conflito. Muitas vezes até mesmo chegam a se contradizer. Várias dessas também, ao contato com o “outro”, se alteram, passam por momentos de auto-reflexão ou questionamento. Mas o lindo mesmo é ver como essas identidades são porosas, como uma esponja. Ao contato com a água, por mais que não se queira, a esponja acaba por absorver o líquido. No fim do processo, a esponja já não é mais a mesma, independente de quanto água foi absorvida. Além disso, nos casos nos quais se permite a total absorção da água, a esponja, ao final, está muito diferente do seu estágio inicial. Está mudada. A partir desse ponto, é possível deixá-la como está, cheia de água, ou ir soltando a água aos poucos, deixando ali dentro apenas o que acha pertinente e a quantidade de água para a sua função. Não seria o mesmo processo com nossas identidades? No contato com o outro, essas absorvem modos e visões novas. A partir desse momento, já não somos quem eramos alguns segundos atrás. Fica o que agrega, o que trouxe algo para nós; sai o que não concordamos, mas não sem antes nos levar a refletir, repelir ou nos auto-questionar.

Cena da série Game of Thrones.

É triste, no entanto, quando uma identidade que muitas vezes não é (realmente) nem nossa se sobrepõe a uma outro que tem muito mais de nós. Por sinal, não apenas se sobrepõe, como também exclui, esconde, mata uma outra identidade. Digo isso, porque em um momento da minha vida meu “eu hétero” matava a identidade do meu “eu gay”. O problema maior, contudo, é que esse “eu hétero” não era propriamente minha identidade. Era uma identidade que talvez eu quisesse ser naquela época (por n fatores e motivos), uma identidade que eu havia aprendido desde criança que era a “certa”, uma identidade que talvez tivesse me permitido viver uma vida mais “fácil”. Mas ao mesmo tempo era uma identidade conflituosa, confusa, que não era realmente minha e que matava uma partezinha de mim. Matava a identidade que era propriamente minha: o meu “eu gay”.

No período da minha vida que costumava vestir minha “capa de identidade hétero”, eu não era infeliz, mas algo ali estava errado. Essa identidade não dialogava com minhas tantas outras e, muito mais, não dialogava totalmente com o que eu sentia. Apesar disso, o “eu gay” continuava lá no meu canto interior: menosprezado, pisoteado, negligenciado e (principalmente) invisibilizado. Morto e apagado.

Talvez, o processo mais difícil seja exatamente essa alteração de identidades, resultado de processos de contato e de auto-descobrimento/aceitação, afinal mudanças quase nunca são fáceis. Quando se trata de mudanças em nós mesmo, o processo é ainda mais difícil e doloroso. Além de alterar toda a sistemática das nossas diversas identidades interiores, a mudança gera um forte impacto em todas as identidades das pessoas próximas de ti. E muito mais na “identidade coletiva” (me refiro aqui a sociedade como um todo, a cultura do local onde se mora). O novo assusta a você e assusta também os que estão a sua volta. Estupor que é potencializado quando essa “nova” identidade (antes suprimida) não está em consonância com o que se convencionou a chamarem de “moral e bons costumes”.

Apesar de doloroso, confuso e demorado todo esse processo, deixei para trás aquele “eu hétero” que não era realmente um dos meus “eus”. Hoje vivo melhor do que antes e minhas identidades, apesar de serem dezenas ainda, se dialogam melhor. Sei, contudo, que ao longo da minha vida muitas dessas identidades ainda irão se alterar, seja por mudanças na minha vida, no meu interior, no meu entendimento de mundo ou, mesmo, advindas da libertação de certas amarras que trazemos atreladas as nós, seja devido às vivências que tivemos, seja pela forma como fomos ensinado que deveríamos ser.

Ao longo da vida, serei e passarei por muito “eus”. Assim como a moça da prática budista, ao narrar experiências, será uma — ou várias — identidade que estará falando. Uma identidade que vivenciou aquela experiência, mas que gerará efeitos a todas as minhas outras identidades interiores. As presentes e as passadas. Não sei como serão as minhas identidades com 80 anos, mas sei que hoje essas são mais harmônicas. Hoje, o meu EU, união de todos os “eus”, é mais feliz, sereno e completo.

E os seus “eus”, estão dialogando ou entrando em atrito constantemente?


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