Já passou da hora de fazermos uma auto cobrança: E NÓS? O que fazemos pelo bem estar social?

Matheus Graciano
Dec 15, 2017 · 4 min read

É comum que sempre coloquemos a culpa no poder público. Afinal, nós, brasileiros, fomos moldados por uma tradição de dependência do governo.

Rio Marimbondo, Porto Novo — São Gonçalo (2ª maior cidade do estado do Rio de Janeiro). Foto: Matheus Graciano

Seja com os mais pobres ou mais ricos, a reclamação é a mesma. Estes últimos, aliás, vivem das benesses públicas, do funcionalismo aos prestadores de serviço. No final, independente da classe econômica, você sempre ouvirá um “mas o governo tem — ou não tem — que fazer isso ou aquilo”.

Entretanto, mesmo que o serviço público funcione, é comum ver muitos de nós, cidadãos, não colaborando com o todo. Um exemplo clássico é ver o coletor de lixo passando com regularidade nas ruas e, mesmo assim, as pessoas continuam jogando lixo nas ruas e rios.

Talvez já tenha passado da hora de fazermos uma auto cobrança: E NÓS? O que estamos fazemos pelo bem estar social?

Lixo jogado e “armazenado” às margens do rio. Não satisfeitos em deixar o lixo ali, insistem em queimá-lo também. Foto: Matheus Graciano

Nosso hábito de imundiçar os rios é antigo

A cidade do Rio de janeiro já foi conhecida como “Veneza dos Trópicos”, pela quantidade de rios navegáveis que havia na região. Hoje, boa parte está enterrada, virou galeria de esgoto ou valão. Em São Gonçalo, Niterói, Baixada, o processo é similar. Afinal, nossa geografia é igual. E todos desaguam na Baía de Guanabara.

São Gonçalo, inclusive, teve seu desenvolvimento por conta dessa malha fluvial. Os vestígios dessa época são os bairros com nomes de portos, como Porto Novo, Porto da Pedra, Porto do Rosa, Porto Velho. Todos com um objetivo em comum: escoar a produção das fazendas da região, como a própria Fazenda Colubandê, por exemplo.

O crescimento ao redor de todos esses rios da região metropolitana foi devastador. Transformamos tudo em redes de esgoto. Incrivelmente, alguns sobraram para contar história.

O Rio Marimbondo cruza a rua Maria Rita no bairro Porto Novo. É um desses rios sobreviventes que não foram completamente enterrados no processo de habitação da cidade. Foto: Matheus Graciano

Meu lixão favorito

Mesmo aprendendo desde pequenos que não se pode jogar lixo nas ruas e rios, muitas crianças ainda são deseducadas quando voltam às suas casas. Num momento onde tanto se fala em educação moral, que determinados assuntos tem que ser ensinados em família, é vergonhoso ver que, também em família, pouco se ensina sobre viver em comunidade, recolher o lixo e não imundiçar o espaço público e meio ambiente.

Paredão da Escola Estadual Tarcísio Bueno no bairro Paraíso, São Gonçalo. Após a desativação da escola, o hábito de depositar lixo aumentou no lugar. Este é um dos raros momentos que o vemos limpo. Alguns minutos após a prefeitura fazer a limpeza. Foto: Matheus Graciano.

Há alguns anos, a teoria das “janelas quebradas” (Universidade de Stanford — EUA) ganhou notoriedade. Ela consiste em mostrar que, quanto pior um lugar ou objeto, mais as pessoas contribuirão para piorá-lo e menos para preservá-lo. Em nossas cidades, podemos adaptar a teoria. Aqui ela se chama “Meu Lixão Favorito”. Com algumas adaptações.

Em suma, mesmo que limpemos os rios, ruas ou esquinas, as pessoas continuarão jogando lixo ali. Como o entorno é ruim, muitas consolidaram em suas mentes que aquele é “o lugar do lixo”. O lixão pra chamar de seu. Podemos limpar o quanto for. Mas enquanto toda a infraestrutura não for alterada, as pessoas continuarão jogando seus dejetos ali, sem se importar ou se preocupar.

Caixote no rio. Foto: Matheus Graciano

Com a violência dos fenômenos meteorológicos atuais, é possível que novas inundações aconteçam. É o momento no qual os rios “se vingam”, jogando todo o lixo de volta para suas casas ao redor.

O que é preciso para resolver isso?

Só “educação” não é uma resposta satisfatória. Não é difícil ouvir pessoas ditas instruídas ou educadas fazendo o errado e se justificando dizendo “aqui é assim mesmo” ou “não sou só eu”. Infelizmente, é mais comum do que se pensa.

O problema passa por uma consciência individual, combinada com resoluções, aí sim, advindas do poder público. Porém, precisam ser soluções combinadas. Há um tempo atrás, até, lembro de já ter falado sobre como a melhora nos equipamentos públicos de sinalização dão uma “cara nova” aos bairros e à cidade.

Bairro Gradim. Foto: Matheus Graciano

Portanto, nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Culpar o poder público sem cobrar o cidadão, e vice-versa, é só mais um ciclo vicioso que no final nada resolve a questão do lixo na 2ª maior região metropolitana do Brasil.

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